Covid-19: o vírus que viaja pelas águas do Tapajós

Em uma região aonde os rios são as estradas, é navegando que os moradores da Amazônia se deslocam para os grandes centros. Essa locomoção fluvial torna-se um sério risco para quem precisa ir à cidade

Hellen Joplin e Sara Pereira¹, na Fase

Em uma região aonde os rios são as estradas, é navegando que os moradores da Amazônia se deslocam para os grandes centros, recebem alimentos, combustíveis e outros suprimentos. A navegação chega aos lugares mais distantes e isolados que nenhum outro meio de transporte consegue chegar, se tornando a forma mais eficiente de se locomover na região.

A bacia hidrográfica do Tapajós corresponde a uma área de 764.183 km². Ele nasce no Mato Grosso, corta grande parte do Estado do Pará, e deságua no Amazonas, na frente da cidade de Santarém. A “Pérola do Tapajós” como é poeticamente conhecida a terceira mais populosa cidade do Pará, possui 22.887,080 km², sendo que apenas 97 km² estão em perímetro urbano. Esses números nos dão a dimensão de quantas pessoas moram em comunidades afastadas dos grandes centros.

Com o avanço do novo coronavírus em Santarém, no final do dia 01 de junho, já contabilizava 1.769 infectados e 91 óbitos decorrente da doença, essa locomoção fluvial torna-se um sério risco para quem precisa ir à cidade. Sabemos que a Covid-19 se espalha com muita facilidade, em especial em lugares fechados com aglomerados de pessoas. Portanto, torna-se uma questão de vida ou morte discutir a forma que essas embarcações estão operando durante a maior pandemia dos últimos tempos.

Segundo uma análise publicada no Boletim Especial Covid-19 nº 7, do Atlas ODS Amazonas, as viagens de barco podem aumentar a probabilidade de difusão da doença do epicentro da pandemia para outras regiões, produzindo uma aceleração da progressão do vírus. A lancha que vai de Santarém até juruti, por exemplo, tem como parada obrigatória o porto do Curuai, comunidade com quase 6 mil habitantes localizada no Projeto de Assentamento Agroextrativista Lago Grande (PAE), traz passageiros de todos os lugares, como Manaus, Parintins, Roraima.

De acordo com os comunitários, na comunidade do Curuai 127 pessoas testaram positivo para a Covid-19. Na comunidade Paissandu já são nove os casos confirmados. Na Vila Socorro foram 24 testagens e TODOS foram positivos. No Arapixuna, 35 testagens e 29 positivos, e a quantidade de pessoas que relatam sentir os sintomas da Covid tem aumentando assustadoramente. Pela proximidade e pela relação constante umas com as outras, imagina-se que essa realidade não deve ser diferente nas demais comunidades do PAE.

“Eu fiquei muito preocupado quando vim nesse barco. Muita gente gripada, as pessoas sem máscaras, todos compartilhando o mesmo copo, não havia sabonetes disponíveis no banheiro para as pessoas manterem a higienização das coisas. Para nós que estamos nas comunidades tradicionais, principalmente dentro do PAE Lago Grande, a gente já corre o risco porque estamos no meio da fronteira, entre o município de Santarém, Juruti, e já é o Estado do Amazonas. Todos os barcos e balsas passam pelo meio das comunidades para poder chegar à Santarém. Esses transportes carregam passageiros idosos, crianças, mulheres gestantes”, conta Edilson Silveira Figueira, morador da comunidade do Maranhão no PAE, vice-presidente do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais, Agricultoras e Agricultores Familiares de Santarém (STTR) e conselheiro municipal de transporte.

As embarcações não estão obedecendo o limite de passageiros para atingir o distanciamento exigido nos decretos estaduais e municipais com relação ao combate à Covid-19. Não estão orientando quem precisa se deslocar. Não estão higienizando os espaços de uso comum. Não disponibilizam sequer álcool em gel e sabão.

No PAE, estamos falando sobre 144 comunidades agroextrativistas, ribeirinhas e indígenas espalhadas pelos 252 mil hectares. É de extrema importância um olhar mais atencioso para essa realidade, uma vez que com as frotas reduzidas, a tendência é que as embarcações fiquem cada vez mais aglomeradas. “Não existe higienização por conta das empresas, as pessoas fazem se elas querem. Deixo aqui o recado, que a gente fazendo a nossa parte, evitando se locomover, e quando for necessário evitar mandar os idosos, e pessoas com comorbidades [que tem uma propensão maior a atingir um quadro mais grave da doença], usar máscaras, não compartilhar objetos pessoais como copos, talheres, redes, a gente vai contribuir para a saúde e a vida dos nossos companheiros e companheiras”, diz Edilson.

O que já era precário, está pior

Outro grave problema é a incapacidade do município de transportar com segurança os moradores das aldeias e comunidades rurais que apresentam sintomas da Covid-19 para receberem atendimento médico na cidade. Sem conseguir o serviço da ambulancha², muitos comunitários pegam barcos de linha em busca de tratamento nas unidades de saúde na área urbana, colocando em risco os demais passageiros. No último domingo (31/05), uma senhora de 83 anos faleceu dentro de uma embarcação que vinha de Aveiro para Santarém. O comandante do barco informou, em depoimento à polícia, que a passageira embarcou na comunidade de Boim, e vinha em busca de assistência hospitalar na cidade, mas seu quadro se agravou durante a viagem e ela acabou falecendo.

A pandemia acentuou a histórica falta de acesso à políticas públicas pelas populações da Amazônia, sobretudo com relação à saúde. O controle da pandemia depende de muitos fatores: uma política estratégica de contenção da doença; um sistema de saúde melhor equipado, o que perpassa pelo pacto entre os entes governamentais nas diferentes escalas – município, estado e união – na perspectiva de ações complementares de prevenção; controle e tratamento da doença; acesso desburocratizado aos programas de renda mínima, entre outras medidas.

O crescente número de casos confirmados em Santarém e os constantes relatos de pessoas com os sintomas da Covid-19 nas aldeias e nas comunidades rurais, chamam a atenção para o gargalo no sistema de saúde nos municípios do interior da Amazônia, cujas capitais já vivenciaram colapso. E, visto que estamos há 18 dias sem um ministro da saúde, e que temos um governo federal que caminha na contra mão do mundo, é preciso que sejam pensadas medidas possíveis e urgentes, para tentar minimamente evitar que o novo epicentro da doença sejam as comunidades rurais e indígenas.

Notas:

[1] Comunicadora e educadora do programa da FASE na Amazônia.

[2]  Lancha que faz transporte de emergência médica. É uma ambulância das águas.

Foto: Hellen Joplin

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