“A polícia infelizmente foi cooptada pelo discurso fascista”, diz delegado

“Quem estiver nas ruas fazendo oposição, vai ser construído como terrorista. A gente chama isso de fascismo não é à toa”, disse um dos fundadores do grupo Policiais Antifascistas

Por Clara Averbuck, na Fórum

O delegado da Polícia Civil de São Paulo, Orlando Zaccone, em entrevista a Fernanda Mena, na Folha de S. Paulo, disse que “quem estiver nas ruas defendendo a pauta do governo, mesmo armado ou com um taco de beisebol, vai ser tratado com respeito. Quem estiver nas ruas fazendo oposição, vai ser construído como terrorista”.

Zaccone é co-fundador do Movimento dos Policiais Antifascistas e afirma que “a polícia infelizmente foi cooptada pelo discurso fascista, que diz que os policiais são mal recebidos pela esquerda e pelos movimentos sociais. O discurso é: ‘eles não gostam da polícia, mas nós gostamos’”, diz o delegado.

Para ele, o Brasil vive a institucionalização de um projeto fascista. Ele envolve não só o avanço no país de milícias e grupos paramilitares mas também a transformação em política de Estado de mecanismos de repressão violenta, racismo, LGBTfobia, misoginia, exploração do trabalho e criminalização de movimentos sociais.

Um dos fundadores do movimento Policiais Antifascismo, organização criada por policiais do Rio e da Bahia em 2017 que depois alcançou outros estados, diz que a nova arquitetura política tem como função reprimir qualquer tipo de oposição.

Ele dá como exemplo declarações do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) de que são “marginais” e “terroristas” os manifestantes antifascistas que tomaram as ruas de algumas cidades do país na última semana de maio e o PL apresentado à Câmara por deputados governistas que propõe tipificar esses grupos como terroristas.

“Manifestantes que defenderam o AI-5 e atacaram o Congresso e o Supremo Tribunal Federal não foram considerados como terroristas, mas como livre pensamento”, diz Zaccone, que é doutor em ciência política pela Universidade Federal Fluminense e membro da Leap (Law Enforcement Against Prohibition), organização internacional que reúne policiais, promotores e juízes na busca de alternativas à guerra às drogas.

“Fica claro que a jogada é essa: quem estiver nas ruas defendendo a pauta do governo, mesmo armado ou com um taco de beisebol, vai ser tratado com respeito; quem estiver nas ruas fazendo oposição, vai ser construído como terrorista. E a gente chama isso de fascismo não é à toa.”

Zaccone e outros 500 agentes de segurança pública, entre policiais civis, militares e federais, bombeiros, agentes penitenciários e guardas municipais, assinaram um manifesto do Movimento dos Policiais Antifascismo lançado nesta sexta (5).

O texto denuncia perseguições a policiais antifascistas no Rio Grande do Norte e no Rio Grande do Sul e urge pela criação de uma Frente Única Antifascismo com partidos, artistas e movimentos de classe e da sociedade civil.

“Não é a toa que o presidente Jair Bolsonaro quer se apropriar da Polícia Federal. Não é à toa que ele indicou o atual procurador geral da República fora da lista tríplice”, crava o delegado.

Foto: Reprodução/Twitter

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