Há quase um século, o racismo matava judeus

por Rui Martins*, em Observatório da Imprensa

Façamos um pequeno exercício de memória — em 1933, o Partido Nazista se tornou majoritário e Adolfo Hitler tomou o cargo de Chanceler da Alemanha e, logo depois se tornava Fuehrer, ou o Líder de partido único. Isso significava, entre outras medidas adotadas pelo nazismo, cujo emblema era a Alemanha Acima de Tudo (inspirador do Brasil Acima de Todos, de Bolsonaro), a oficialização do antissemitismo, logo seguida por uma política de extermínio dos judeus. Esse extermínio, chamado Holocausto, incluía não só os judeus vivendo na Alemanha, como os judeus dos países conquistados pelo Terceiro Reich, durante a Segunda Guerra Mundial desfechada por Hitler em 1938 e terminada com sua derrota, em 1945.

No total, foram exterminados seis milhões de judeus, principalmente nas câmaras de gás. Apesar de se terem passado 75 anos do fim da Segunda Guerra, o tema vem adquirindo uma certa atualidade com o sucesso eleitoral de partidos de extrema-direita e o ressurgimento das ideias, dos movimentos e partidos neonazistas. Há alguns dias, dia 20 de novembro, a ONU e comunidade internacional relembraram na cidade alemã de Nuremberg, os 75 anos do julgamento dos criminosos de guerra da Alemanha nazista.

Coincidência ou não, a estatal Rádio e Televisão Suíça lançou neste mesmo mês, seu primeiro telefilme histórico sobre o contrrovertido papel da Suíça durante a Segunda Guerra Mundial, O Preço da Paz, tratando especificamente da utilização do dinheiro nazista (uma parte roubada dos judeus) pelos empresários suíços, alguns vivendo em situação difícil, perto da falência em consequência da guerra. A história e o roteiro foram escritos pela suíça Petra Volpe, já conhecida internacionalmente pelo roteiro da nova versão do filme suíço Heidi, dirigido por Alain Gsponer.

No telefilme, se agrupam uma fábrica de tecelagem prestes a falir, um jovem ambicioso recém-casado com a filha do industrial, seu irmão é um jovem funcionário suíço encarregado de localizar o capital nazista reinvestido nas empresas suíças ou desviado para outro país, no caso a Argentina, utilizando a Suíça como plataforma. Um encontro com uma jornalista da Associated Press, bem informada pelos americanos, leva-o a descobrir também a utilização de dinheiro nazista para a recuperação da fábrica de tecelagem, já dirigida pelo irmão.

Não longe da fábrica, existe um alojamento mantido pela Cruz Vermelha Internacional, onde são recebidos e mantidos algumas dezenas de refugiados judeus, vindos do campo de concentração nazista de Buchenwald. Dentro da política suíça de se desvencilhar dos judeus, a Cruz Vermelha Suíça logo consegue enviar para Israel esses refugiados. A parte romanceada do telefilme envolve a recém-casada filha do industrial com um refugiado judeu.

A roteirista Petra Volpe, que trabalhou com historiadores da época da Segunda Guerra, revelou a originalidade do telefilme de seis horas, divididas em seis capítulos de uma hora — “Pelo que sei, esta é a primeira série suíça tratando justamente do tema do dinheiro nazista levado para a Suíça”, diz ela. Baseados em fatos reais, mas romanceados, os seis episódios apresentam as diferentes práticas e compromissos realmente adotadas pelo empresariado suíço da época com os nazistas. Petra Volpe afirma que essa união nada teve de “idílica” e nem foi “muito brilhante”, mas faz parte da história da Suíça, mesmo que poucos suíços saibam disso.

Petra Volpe critica o fato da suíça ter aceitado muito facilmente acolher nazistas ao final da Guerra, alguns deles criminosos. Na sua busca de documentação, conta ela, consultando processos envolvendo alemães nazistas da época, Petra cita as negligências voluntárias dos suíços, como um caso típico: dois agentes suíços seguiam um nazista mas, de repente, deixaram que lhes escapasse ao entrar num trem, com a desculpa de não terem comprado a passagem.

O telefilme O Preço da Paz, nos leva compulsoriamente ao principal denunciador das criminosas relações dos banqueiros, financistas e do próprio governo suíço com os nazistas alemães, antes e depois da Segunda Guerra. Trata-se do professor, escritor, ex-deputado suíço e ex-conselheiro na ONU, Jean Ziegler, conhecido mundialmente depois de seu livro A Suíça Lava Mais Branco, e muitos outros, entre os quais A Suíça, o Ouro e os Mortos, contando principalmente que a Alemanha não teria o capital necessário para começar e manter sete anos de guerra sem o apoio da plataforma financeira suíça. Uma parte também dos armamentos era feita na Suíça, onde não corriam o risco dos bombardeios aliados, já que o país se definira como neutro.

“Sem os bancos suíços, escreveu Ziegler, a Segunda Guerra Mundial teria acabado mais cedo e centenas de milhares e seres humanos teriam salvado a vida”. Ziegler demonstrou mesmo que até os dentes de ouro dos judeus mortos nas câmaras de gás iam parar em Zurique. “Ao mesmo tempo, diz ainda Ziegler no seu livro, o governo suíço ia repelindo para suas fronteiras dezenas de milhares de refugiados judeus, lançando-os por vezes diretamente nas mãos os carrascos nazistas”.

Terminada a Guerra, e agora é o telefilme que conta, advogados suíços iam buscar capitais alemães nazistas, traziam para a Suíça, de onde eram enviados para a América Latina, de preferência a Argentina, utilizando fraudes nas contabilidades. Nazistas mudavam seus nomes, conseguiam se fixar na Suíça, aplicavam seu dinheiro na própria Suíça ou iam encontrar seu dinheiro na Argentina.

Tudo isso já ficou muito distante, talvez para muitos nem valha a pena lembrar, pois poderá melindrar muita gente… Porém, é um telefilme suíço quem relembra numa história romanceada nas suas seis horas de filmagens, talvez num exercício de autopunição…

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro Sujo da Corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A Rebelião Romântica da Jovem Guarda, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil, e RFI.

Foto: Unsplash/Creative Commons

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