“Eles têm pressa em pilhar o patrimônio público”, afirma ex-presidenta da Caixa no aniversário de 160 anos da instituição

No TUTAMÉIA

“É uma marca histórica, 160 anos. Infelizmente, a gente chega a essa data sob um risco muito grande. O que temos visto depois do golpe contra a presidenta Dilma, no governo Michel Temer e, sem dúvida, de forma muito mais avassaladora, no governo de Bolsonaro, é o esvaziamento da instituição. Há a venda de seus ativos, inviabilizando que ela cumpra o seu papel de banco público, da prestação de serviços. É um processo de esvaziamento bastante contundente, em que se vê claramente um caminho que leva à privatização”.

Essa é a avaliação que faz Maria Fernanda Ramos Coelho, presidenta da Caixa Econômica Federal de 2006 a 2011 (governos Lula e Dilma), em entrevista ao TUTAMÉIA nesta terça-feira, 12 de janeiro, quando a instituição completou 160 anos, dia marcado por manifestações de seus funcionários em defesa da empresa.

“A Caixa nasce com esse compromisso [com a sociedade brasileira], no século 19. Era o Monte de Socorro, onde os escravos depositavam suas economias em busca da alforria. Ao longo de sua história vem cumprindo um papel fundamental”.

Não sem sofrer ataques, como lembra a executiva, que hoje está aposentada: “Na década de 1990, houve um processo enorme de sucateamento das empresas estatais brasileiras. Era o período do auge do neoliberalismo, já se vivia esse sucateamento. Em 2002, a Caixa já estava pronta para ser privatizada. Eles falavam no grande tripé da instituição, e a ideia era a instituição ser esvaziada criando três grandes bancos –uma instituição de fomento, um banco comercial e uma prestadora de serviços”.

Não aconteceu. Veio o governo Lula: “No governo do presidente Lula, e a gente passa a ressignificar e a trazer conteúdo que diz o seguinte: num país tão desigual como o nosso, a presença de uma instituição pública é fundamental. Na crise de 2008, o que se percebeu foi exatamente isso: os países que tinham bancos públicos conseguiram superar muito melhor aquela crise”, diz Maria Fernanda (clique no vídeo abaixo para ver a entrevista completa).

Com o golpe e os governos de Temer e Bolsonaro, essa vocação é corrompida. “A Caixa é uma instituição de Estado, sem dúvida. Mas toda a proposta da gestão, do que é a estrutura, ela passa por um projeto de governo. E o projeto de governo de Bolsonaro é o de não ter qualquer compromisso com as famílias brasileiras, com as empresas brasileiras. Não tem, por exemplo, neste momento de crise, uma estratégia de oferta de crédito direcionada às empresas em algumas cadeias produtivas que pudessem alavancar, gerar postos de trabalho. Fizemos isso em 2008: o programa Minha Casa, Minha Vida era uma política contracíclica. Estimulava a construção civil, que era um setor basicamente nacional, e teve a capacidade de gerar, em quatro anos, um milhão e setecentos mil empregos.”

Lembrando os governos de Lula e Dilma –e sua própria atuação na presidência da Caixa, quando teve como uma das missões conduzir o Minha Casa, Minha Vida–, Maria Fernanda prossegue: “Essa é a vocação dos bancos públicos: ser esse instrumento que possibilite não só a inclusão bancária e a inclusão social, como possibilite que o país tenha uma capacidade de reagir às adversidades. O crédito bem trabalhado e direcionado tem uma capacidade de movimentar a economia muito rapidamente.”

A capacidade da empresa é tamanha, diz a ex-executiva, que, mesmo sob ataque dos privatistas, consegue feitos como os realizados no ano passado: “A Caixa se supera ao ser demandada para o pagamento do auxílio emergencial. No ano de 2020, mais de 120 milhões de pessoas passaram pela Caixa. Isso dá oito em cada dez adultos no Brasil que tiveram algum contato com a Caixa no ano passado, seja para o auxílio emergencial, pagamento do PIS, do FGTS… A instituição tem capacidade de fazer esse atendimento por causa de sua capilaridade, do compromisso de seus empregados. No entanto, nesse momento vemos o presidente da instituição e o ministro da Economia falando em monetizar toda essa base de clientes que aderiram à sua poupança digital e isso virar um banco digital. E aí se esvazia essa vocação que a instituição tem. É muito sério.”

O ataque vem sob disfarces do palavreado: “Quando os trabalhadores, os sindicatos se mobilizam, a mensagem é de que Bolsonaro não vai privatizar a empresa. Eles criaram um discurso em que usam outros nomes. A palavra privatização não existe. Mas, no fundo, a intenção é fazer exatamente a mesma coisa usando sinônimos para tratar do mesmo. Dizem que não vão privatizar, mas sim fatiar, desinvestir, desalavancar”.

Os números, porém, não permitem esconder as intenções do governo Bolsonaro, diz Maria Fernanda: “Em 2019, foram vendidos mais de 15 bilhões de reais em ativos da Caixa. Se você pegar as grandes estatais –BNDES, Petrobras, Banco do Brasil, Eletrobras–, foram mais de 130 bilhões de reais em ativos que foram vendidos. Isso é um crime! Um crime de lesa pátria, literalmente. Vender essas estatais, que são lucrativas, que têm um desenvolvimento extraordinário –mesmo em patamares internacionais–, elas têm uma capacidade de dar um resultado para o país que é extraordinário. O governo Bolsonaro foi eleito sem nenhum programa. Foi eleito com base e um discurso de ódio que ele continua aprofundando cada vez mais.”

Mais exemplos: “Na véspera do Carnaval do ano passado, na sexta-feira de Carnaval, a Caixa manda para a Bolsa de São Paulo a proposta de venda da Caixa Seguridade, que é o quarto maior grupo segurador do Brasil, que cuida exatamente dessas operações da Caixa –capitalização, seguro, consórcio. Daí dizem: ‘Não estamos privatizando a Caixa. Estamos vendendo participações, estou vendendo ativos, vamos tornar a Caixa mais eficiência’. Não falam na palavra privatização, mas usam todas essas nomenclaturas para fazer exatamente a mesma coisa. Isso traz um processo de enfraquecimento da empresa por dentro”.

Outra faceta da política de desmonte é o ataque aos recursos humanos: “Há um brutal assédio em relação aos empregados. A Caixa abriu inúmeros processos internos contra seus empregados. São demissões imotivadas, perseguições, transferências. É um processo em que primeiro perde a memória da empresa. Segundo tem um discurso interno que visa minar a resistência coletiva, processos contra sindicatos e associações. São várias frentes. É uma coisa estratégicas, muito bem urdida, muito bem arquitetada, em que se enfraquece a instituição por dentro”.

Em resumo, o que se vê, na avaliação de Maria Fernanda Ramos Coelho, é um “processo célere de privatização da Caixa. Eles têm muita pressa em pilhar o patrimônio público. Para mim, privatizar a caixa, o Banco do Brasil, essas outras estatais, é abdicar do futuro, é abdicar da possibilidade de um futuro com redução de desigualdade social, com harmonia, com a preservação do meio ambiente, com inclusão social, com trabalho e renda para as famílias, com as pessoas tendo direito a três refeições por dia –o grande sonho do presidente Lula. É isso que é o processo de privatização. É muito grave, é muito sério”.

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