A pandemia traz à superfície quotidiana a gravidade da crise civilizacional. Entrevista especial com Carlos Drawin

Na crise sanitária, as palavras de Lima Vaz revelam-se transparentes e premonitórias, diz o filósofo

Por: Patricia Fachin, em IHU On-Line

A celebração do centenário de nascimento do filósofo Henrique Cláudio de Lima Vaz é ocasião não apenas para revisitar alguns de seus textos clássicos, mas buscar em sua obra referências para compreendermos a crise civilizacional do futuro que se anuncia no presente. Em diálogo com as ciências, Lima Vaz propõe responder a uma das questões fundamentais da filosofia: “O que é o homem [ser humano]?” em relação a posições filosóficas amplamente difusas na nossa era, como o subjetivismo e o  relativismo moral, o reducionismo científico e o abstracionismo filosófico.

Para Carlos Drawin, filósofo e professor da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia – Faje, a antropologia de Lima Vaz “se mostra não somente atual, como imprescindível” na atual conjuntura de crise pandêmica, “porque oferece uma concepção não reducionista do ser humano, acolhendo a experiência vivida que todos os seres humanos têm de si mesmos e os conhecimentos aportados pelas diversas ciências. Essas duas fontes que alimentam o saber antropológico não devem, porém, seguir por veios separados, antes convergir no plano da compreensão filosófica, designado por Lima Vaz como transcendental. Por quê? Porque nenhuma objetivação do humano seja ela qual for, nem mesmo a mais rigorosa teoria científica, pode esgotar aquele dinamismo do espírito e abertura transcendental que foram considerados fundamentais na grande tradição filosófica de proveniência grega”. A pandemia, explica, “não é um fenômeno natural e objetivo, alheio ao comportamento humano. Não é um inesperado interregno de anormalidade a ser superado, e assim o esperamos, com os recursos da ciência e da técnica, porque ela põe em questão atitudes, valores, crenças e concepções anteriores à sua irrupção”.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU, Drawin acentua o caráter reflexivo, transparente e premonitório das reflexões de Lima Vaz acerca do relativismo moral enquanto um “imenso desafio para todos os que se preocupam com a nossa destinação comum”, dos efeitos da separação entre ética e política e das consequências da ascensão da racionalidade técnica. Toda a obra de Lima Vaz, menciona, “pode ser vista como um imenso esforço de enfrentamento da crise espiritual da civilização ocidental moderna. Por que designá-la como ‘espiritual’? Porque o espírito consiste na abertura para a transcendência e a nossa civilização tornou-se cada vez mais fechada em sua imanência, orientando-se por critérios inteiramente funcionais, utilitários e produtivistas e supostamente voltados para a felicidade individual e o progresso social, sem interrogar acerca do sentido e explicitar o fundamento deste objetivo supostamente almejado”.

Carlos Roberto Drawin é graduado em Psicologia e em Filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG e mestre e doutor em Filosofia pela mesma universidade. Foi professor do programa de Pós-Graduação em Filosofia da UFMG até 2010, quando se aposentou. Atualmente, leciona na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia – Faje.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como a obra de Lima Vaz nos ajuda a encontrar respostas para a pergunta “O que é o homem [ser humano]?” nos dias de hoje?

Carlos Roberto Drawin – A indagação do Homem acerca de si mesmo pode ser considerada como uma questão perene por expressar uma inquietação originária em dois sentidos. No cronológico, porque já emerge, na forma de uma antropologia implícita, no alvorecer mesmo de nossa espécie, quando em suas primeiras manifestações culturais, como na arte rupestre pré-histórica, já podem ser encontrados registros de sua consciência diferencial em relação àquilo que o cerca, embora caiba aos antropólogos e paleontólogos investigar o assunto de modo mais rico e nuançado. No sentido filosófico, porque a inserção no mundo não é um dado contingente, porque tem um significado ontológico. O Homem não está simplesmente situado no espaço e no tempo do seu corpo, além de sua presença física em seu meio ambiente (Umwelt), ele encontra-se essencialmente enredado na sociabilidade, inserido no universo simbólico (Welt) ou, como diz  Heidegger, o mundo o constitui em seu próprio ser.

A capacidade única de interrogar-se

A experiência do pertencimento ao mundo se manifesta numa imensa variedade de formas simbólicas – religiões, artes, mitos, representações e costumes – e estas vão se transformando e se reconfigurando no transcorrer do tempo. Na civilização ocidental se dá a passagem das imagens míticas do humano, presentes na cultura grega arcaica e estruturadas narrativamente, para o modo de pensar filosófico o qual se articula num discurso conceptualmente ordenado e capaz de se justificar logicamente. Nele a experiência da especificidade do humano é transcrita como diferença eidética, isto é, em sua essência (eidos) o homem difere de todos os outros seres, justamente por sua capacidade única de interrogar-se, de se pôr em questão e, desse modo, de transcender as condições particulares nas quais ele vive. Isso significa que o ser humano, embora enraizado no sensível, mergulhado no mundo empírico e nos afazeres quotidianos, encontra-se atravessado pelo dinamismo do espírito como se pode ver, tanto no plano da teoria, porque o conhecimento científico sempre pressupõe e afirma a inteligibilidade da realidade, quanto no plano da prática, porque o comportamento moral sempre implica em ultrapassar a esfera dos interesses individuais. Essa é a dimensão metafísica sem a qual, na visão clássica, o homem não pode ser apreendido, seja em sua riqueza multidimensional, seja em sua unidade dinâmica.

O advento das Ciências Naturais e Humanas trouxe uma imensa quantidade de dados, descrições e informações sobre o fenômeno humano, cuja diversidade, às vezes heteróclita e dispersiva, produz desorientação e impasse. A obra de Lima Vaz recebe, como largo estuário, todo este caudal de diferentes perspectivas filosóficas e científicas e as reúne numa síntese magistral, proporcionando uma referência valiosa em meio à fragmentação cultural de nossa época.

IHU On-Line – A ciência, apesar da sua importância fundamental, não consegue explicar o humano em toda a sua complexidade, como temos visto nas discussões durante a crise pandêmica. Que contribuições Lima Vaz nos deixou para compreendermos o homem em sua complexidade?

Carlos Roberto Drawin – Lima Vaz sempre se interessou pela ciência contemporânea desde seus tempos de estudante de filosofia em  Nova  Friburgo. Não foi interesse meramente diletante, como posteriormente testemunharam os seus cursos de Filosofia da Natureza e Antropologia Filosófica, nos quais buscou integrar as contribuições científicas em sua abordagem metódica e sistemática. No entanto, apesar de normalmente falarmos de “ciência” no singular, “ela” não se constitui como um campo homogêneo, pois não só se bifurca em suas duas grandes vertentes, a das  Ciências Naturais e a das Ciências Humanas, como também se multiplica em crescente número de disciplinas e entremeadas ramificações, embora se distinguindo por seus objetos e métodos específicos. E aí reside não só o risco já mencionado da fragmentação, como também o do reducionismo e este consiste em conceber a totalidade complexa e multifacetada do humano sob o prisma de uma ciência ou teoria particular, seja ela a física, a genética ou a economia.

Há, porém, outro aspecto não menos importante do reducionismo. Pode-se dizer genericamente que apesar da pluralidade de seus enfoques, os saberes são designados como científicos na medida em que são regulados pelo ideal da objetividade. Aliás, a sua diversidade é gerada por esse mesmo ideal que a impulsiona em direção ao estabelecimento de recortes cada vez mais limitados da realidade e à determinação das abordagens adequadas para a sua investigação. O fenômeno da compartimentação sempre mais acelerada do conhecimento produz resultados muito relevantes, mas também imensos desafios epistemológicos e antropológicos. Por um lado, torna-se cada vez mais difícil a comunicação e a cooperação entre os especialistas e, por outro, a humanidade está se deparando com problemas de grande envergadura e caracterizados pela sobredeterminação de fatores muito heterogêneos. Alguns deles como a gravíssima crise ambiental, a proliferação caótica das megalópoles e as patologias da globalização econômica só podem ser abordados e equacionados por meio de teorias e práticas integradas e de elevada exigência reflexiva.

A pandemia não é um fenômeno alheio ao comportamento humano

A atual crise pandêmica impõe a intervenção não só de diferentes pesquisadores e profissionais – do médico intensivista ao bioquímico, do epidemiologista ao estatístico –, traz também implicações de aspectos econômicos, sociais, políticos, éticos e culturais. Ou seja, a pandemia não é um fenômeno natural e objetivo, alheio ao comportamento humano. Não é um inesperado interregno de anormalidade a ser superado, e assim o esperamos, com os recursos da ciência e da técnica, porque ela põe em questão atitudes, valores, crenças e concepções anteriores à sua irrupção. Em tal cenário a antropologia filosófica sistemática de Lima Vaz se mostra não somente atual, como imprescindível, porque oferece uma concepção não reducionista do ser humano, acolhendo a experiência vivida que todos os seres humanos têm de si mesmos e os conhecimentos aportados pelas diversas ciências. Essas duas fontes que alimentam o saber antropológico não devem, porém, seguir por veios separados, antes convergir no plano da compreensão filosófica, designado por Lima Vaz como transcendental. Por quê? Porque nenhuma objetivação do humano seja ela qual for, nem mesmo a mais rigorosa teoria científica, pode esgotar aquele dinamismo do espírito e abertura transcendental que foram considerados fundamentais na grande tradição filosófica de proveniência grega.

Deve-se enfatizar, todavia, que não há traço de irracionalismo ou rejeição da ciência na proposta de Lima Vaz e nem a menor pretensão de torná-la uma doutrina nova e insuperável. Ao contrário, ele apenas propõe, sem explorá-las exaustivamente, algumas coordenadas irredutíveis para a abordagem do ser humano enquanto realidade concreta e complexa, unitária e aberta. Em sua obra, a construção sistemática não significa clausura doutrinária e fechamento dogmático, porque toda determinação da essência humana corresponde a uma indeterminação existencial. Por exemplo, quando dizemos “o Homem é essencialmente o seu corpo” e certamente o é, somos também levados a reconhecer “não, não é apenas corpo”, porque a ele não se reduz e quando afirmamos “o Homem é essencialmente o seu espírito” logo somos levados a reconhecer “não, não é apenas espírito”, e assim por diante. No entrelaçamento categorial da  antropologia vaziana há sempre os dois polos, o da determinação essencial e o da indeterminação existencial.

IHU On-Line – Em entrevista concedida à IHU On-Line em 2016, o senhor mencionou “três perigos que a antropologia vaziana se propõe a contornar: o abstracionismo filosófico, o subjetivismo da vivência e o reducionismo científico”. Pode explicar qual é a importância fundamental dessa proposta vaziana para compreendermos o homem e a realidade como um todo em contraposição ao avanço técnico-científico e como resposta a ele?

Carlos Roberto Drawin – Os três perigos acima mencionados já foram indicados na resposta anterior. Não custa retomá-los de modo a apresentar a estrutura geral tratado de antropologia filosófica. Ele se divide em duas partes. A primeira, a parte histórica, não tem pretensão de ser uma exposição exaustiva, apenas faz uma rememoração das concepções antropológicas mais significativas, percorrendo um grande arco que vai da cultura grega arcaica ao pensamento filosófico contemporâneo. A segunda, a parte sistemática, se ordena em dez categorias precedidas de uma preciosa introdução metodológica. O sistema categorial se subdivide em três seções: as estruturas fundamentais do ser humano, contendo as categorias de corpo, psiquismo e espírito; as relações fundamentais do ser humano, abarcando as categorias de  objetividade,  intersubjetividade  e  transcendência e a unidade fundamental do ser humano, com as categorias de realização e pessoa. Cada categoria é composta por três planos: o da pré-compreensão, integrando a experiência vivida do humano; o da  compreensão explicativa, incorporando os resultados das ciências naturais e humanas; e o da compreensão filosófica ou transcendental, transcrevendo os dois planos anteriores na conceituação especificamente filosófica.

Com essa organização metodológica, Lima Vaz pretende exorcizar as três tentações que rondam as concepções antropológicas. A primeira delas, o “abstracionismo filosófico”, típica dos sistemas dedutivos e fechados, pretende separar a elaboração conceitual da experiência concreta do humano ou desdenhar as importantíssimas contribuições aportadas pelas ciências positivas. A segunda, o “subjetivismo da vivência”, consiste na valorização da experiência vivida e das crenças imediatas, como foram assimiladas em nosso contexto familiar ou sociocultural, sem levar em consideração a mediação das teorias científicas e das elaborações filosóficas. O “reducionismo científico” já foi definido na resposta anterior e consiste no enfoque unilateral de uma ou outra perspectiva científica em detrimento da experiência humana concreta ou a reflexão filosófica. Os três planos estão dialeticamente articulados em cada categoria. Por exemplo, na categoria do corpo próprio não se pode desconhecer os avanços proporcionados pelas ciências biomédicas, mas isso não pode ser feito em detrimento da vivência que cada um tem de sua corporeidade e ambas, as vivências e as teorias científicas, se entrelaçam no discurso filosófico em seu intuito de determinar conceitualmente aquilo que define essencialmente o corpo humano.

IHU On-Line – Um dos temas que ocuparam a produção intelectual de Lima Vaz foi a relação da filosofia com a cultura, refletindo sobre a crise da civilização, com destaque para a crise espiritual do Ocidente. Quais foram suas principais contribuições nesse campo? Como a crise espiritual se manifesta, segundo o pensamento dele?

Carlos Roberto Drawin – A filosofia não nasce da cabeça dos filósofos enquanto indivíduos isolados, mas, conforme a célebre definição hegeliana, ela traduz no pensamento o tempo histórico de uma determinada cultura. Contudo, não é um reflexo imediato e direto da cultura na qual se origina e está inserida, porque consiste numa reflexão crítica, mediada por argumentos e conceitos. Assim, o seu lugar cultural particular, o seu topos, converte-se num discurso atópico, porque se transfigura numa ordem de razões intencionalmente universal. Por exemplo, Aristóteles pensou a partir dos problemas políticos da democracia ateniense a sua ética, porém ultrapassou em muito o contexto de sua origem e ainda tem muito a nos ensinar.

Ora, pode-se perguntar, então, por que a filosofia surge num determinado momento histórico? Lima Vaz endossa, a esse respeito, a resposta proposta por Hegel. A filosofia emerge quando uma cultura ingressa numa região crepuscular, ou seja, entra em crise e questiona a si mesma buscando outros recursos simbólicos para pensar e reconstruir discursivamente as razões de sua existência. Ora, toda obra de Lima Vaz pode ser vista como um imenso esforço de enfrentamento da crise espiritual da civilização ocidental moderna. Por que designá-la como “espiritual”? Porque o espírito, como já foi dito, consiste na abertura para a transcendência e a nossa civilização tornou-se cada vez mais fechada em sua imanência, orientando-se por critérios inteiramente funcionais, utilitários e produtivistas e supostamente voltados para a felicidade individual e o progresso social, sem interrogar acerca do sentido e explicitar o fundamento deste objetivo supostamente almejado.

Num fragmento de 1887, Nietzsche designa o futuro de nossa civilização como “advento do niilismo” e o define como ausência de finalidade e resposta para a questão “por quê?”. As transformações vertiginosas de nossa época se assemelham às águas de um rio que não são contidas pelas margens e sua superfície tumultuosa não mais repousa sobre a solidez de um leito. O grande repto ao pensamento contemporâneo seria o de conceber e dar um contorno a tal rio absurdo, quase inimaginável, em que se tornou a nossa civilização.

IHU On-Line – Naquela mesma entrevista, o senhor disse que “na antropologia de Lima Vaz, o problema clássico da essência, embora acolhido, é profundamente transfigurado pelo impacto da revelação bíblica como força geradora de razão”. Pode explicar essa ideia? Qual é o impacto da revelação bíblica na antropologia de Lima Vaz?

Carlos Roberto Drawin – Na “advertência preliminar” do primeiro volume de seus “Escritos filosóficos”, Lima Vaz afirma vigorosamente a identidade cristã de seu trabalho filosófico. Para alguns, talvez isso possa parecer como grave limitação da liberdade requerida por todo empreendimento científico. Não obstante, a seiva nutriz de todo pensamento provém do mundo e das experiências e crenças pessoais e coletivas, o rigor não brota do vazio, do nada e método algum pode exorcizar o enraizamento mundano do pensador. Ou, para falar como Paul Ricoeur, as intuições e criações conceituais são geradas pela contínua e inesgotável interlocução entre a crítica e a convicção. Além disso, na tradição ocidental, a revelação bíblica não se confunde com uma doutrina dentre ouras, pois é uma de suas matrizes de inteligibilidade e sua meditação, ao longo dos séculos, tem sido “geratriz de razão”, de acordo com a expressão de Étienne Gilson retomada por Lima Vaz.

A filosofia grega buscou determinar, como já foi dito, o traço essencial do humano, a sua diferença específica, como se vê, por exemplo, da definição do homem como “animal racional”. A revelação bíblica, por outro lado, ao ver no humano a imagem de Deus, pôde discernir em cada pessoa o selo da transcendência. Todavia, para a concepção bíblica o ser humano não é abstratamente semelhante a Deus, mas o é enquanto realidade concreta, espírito encarnado no mundo e, portanto, dotado de um corpo, inserido no tempo, comprometido com a ação. Daí o seu caráter histórico, existencial, singular e concreto. Nutrindo-se dessas duas fontes originárias – a greco-romana e a bíblica-cristã – sempre, porém, dialogando com o pensamento moderno, a antropologia de Lima Vaz se estrutura em duas grandes dimensões que se interpenetram: a da determinação essencial e a da indeterminação existencial. Avessa a todo tipo de dualismo, a polaridade dialética que atravessa a sua antropologia converge na categoria de pessoa, pedra angular e coroamento de seu sistema categorial.

IHU On-Line – Que respostas aos desafios culturais, éticos e políticos do nosso tempo podemos encontrar na obra de Lima Vaz?

Carlos Roberto Drawin – Na filosofia clássica não havia separação entre  ética e política, ambas estavam intimamente correlacionadas como duas perspectivas de uma mesma problemática, a do tratamento amplo e articulado das questões referentes à vida humana em sua especificidade de animal racional e político. Para Aristóteles, por exemplo, o indivíduo, como realidade empírica, só poderia se realizar em sua essência na medida em que participasse da comunidade. Por isso, num de seus textos luminosos – publicado originalmente com o título “Antropologia e direitos humanos” e posteriormente recolhido em seus “Escritos de Filosofia II” (1988) –,  Lima Vaz mostra como as ideias de sociedade política e de ciência do  ethos formam-se em estreita vinculação. Por isso, escreve ele, “a ideia de lei (nómos)… deve permitir o estabelecimento de uma proporção ou correspondência (analogia) entre a lei ou medida (métron) interior que rege a praxis do indivíduo, e a lei da cidade que é propriamente nómos, e deve assegurar a participação equitativa dos indivíduos no bem que é comum a todos e que é, primeiramente, o próprio viver-em-comum” (Lima Vaz, 1988, p. 135).

Inúmeros fatores, acerca dos quais não se pode aqui discorrer, levaram à ruptura e ao distanciamento dessas duas esferas parcialmente superpostas, a ética e a política. A primeira migra para o mundo privado, algo concernente aos indivíduos e grupos afetivamente próximos, e a segunda converte-se em técnica de poder, submetendo as decisões políticas ao único critério do cálculo dos custos e benefícios imediatos para os agentes públicos. Não é difícil perceber os efeitos catastróficos dessa cisão, acompanhada de confusão e promiscuidade, entre o público e o privado.

IHU On-Line – Quais são as contribuições da obra de Lima Vaz para refletirmos sobre uma “época que se quer pós-metafísica e pós-cristã”? Como o pensamento dele nos ajuda a refletir sobre a ambiguidade de uma era que parece, ao mesmo tempo, buscar uma “espiritualidade”, mas, de outro lado, não se ocupa de Deus, no sentido cristão?

Carlos Roberto Drawin – O prefixo “pós” não é óbvio e é quase sempre utilizado como uma proclamação, intenção ou projeto. Por outro lado, tal uso não é inteiramente arbitrário, uma vez que recolhe sintomas difusos e mais ou menos efetivos num contexto cultural e num tempo histórico. O caso clássico é o da expressão “pós-moderno”, pois nela encontramos essa mistura de transformação do imaginário social, a justificar o “pós” e a persistência de instituições tipicamente modernas, como a ciência e a técnica, a desmentir o “pós”. Assim, a metafísica, supostamente morta, reaparece sob as mais diversas máscaras, como, por exemplo, nos livros de alta divulgação científica, em teorias das neurociências e até mesmo em muitas das pretensões “desconstrucionistas”. Não é assim tão fácil se livrar da metafísica. Em outro patamar reflexivo muitos filósofos de grande envergadura têm retomado e renovado algumas das grandes interrogações e orientações metafísicas.

A clausura do Eu, a transcendência absoluta e a alteridade radical

Por outro lado, o diagnóstico de “época pós-cristã” não pode ser diretamente associado ao de “pós-metafísica”, pois, como já foi assinalado, sempre houve certa tensão entre a herança metafísica grega e a teologia cristã. Alguns acham mesmo, embora deles discordasse Lima Vaz, que a época supostamente “pós-metafísica” seria propícia ao reflorescimento de um cristianismo mais vital e autenticamente bíblico. Não há como abordar aqui tão intrincado e espinhoso assunto. De qualquer forma ao nos esvaziarmos de antigas e sólidas certezas talvez possamos ficar mais receptivos às imensas riquezas das religiões não cristãs, não, porém, para nos entregarmos aos amálgamas fáceis de perspectivas heterogêneas tomando como único ponto de convergência a nossa demanda individual, o nosso desejo de consolo e bem-estar psicológico.

Esse individualismo aparentemente tolerante do “vale tudo”, bem pode se tornar em desrespeito à densidade e singularidade de tradições religiosas que foram sendo gestadas ao longo de séculos de experiência e meditação. Esse é o risco da apropriação eclética e individualista das espiritualidades e sua difusão e mistura com técnicas psicoterápicas voltadas para a satisfação e o contentamento de si mesmo.

Certamente a busca da saúde mental é um objetivo legítimo, mas cabe lembrar que os exercícios espirituais, naquele sentido mais amplo descrito por Pierre Hadot, longe de realimentar o narcisismo egoico, visam antes romper a clausura do Eu. Na visão cristã tal ruptura aponta para a transcendência absoluta, para a alteridade radical. A obra de Lima Vaz  deixa claríssima a perspectiva transcendental do ímpeto da realização humana, mostrando que “essa dialética articula-se, pois, como oposição entre a referência mundana e histórica de todo modelo ideal de realização, e que se traduz em sua limitação eidética, e o élan humano para o ser-mais impelido, em virtude do princípio da ilimitação tética, em direção ao absoluto do ser” (Vaz, 1992, p. 172).

IHU On-Line – O papa emérito Bento XVI, entre outros intelectuais, vê no relativismo moral um dos principais problemas da nossa era. Numa entrevista que nos concedeu, o senhor mencionou a indiferença como uma das consequências do relativismo moral. Que respostas o cristianismo pode oferecer ao relativismo moral, sem ser acusado de ser dogmático?

Carlos Roberto Drawin – O relativismo moral é um imenso desafio para todos os que se preocupam com a nossa destinação comum e o é justamente porque não se configura apenas como um problema intelectual a ser claramente demarcado e discutido, mas expressa uma mentalidade difusa e muitas vezes vista como uma posição progressista ao se apresentar sob a roupagem da liberdade e da tolerância. No entanto, quais são os limites da tolerância para que não seja confundida com a omissão diante do intolerável? Se há limites que não podem ser violados, pois daí mesmo deriva a palavra violência, então algumas referências normativas são universais e não podem ser relativizadas. O cristianismo não pode impor a fé, que é dom, mas pode e deve, como ensina o Papa Francisco, oferecer o testemunho da fraternidade universal e o caráter inviolável e não relativo do respeito à dignidade da pessoa humana. Podemos expressar essa situação de um modo dialético: o relativismo moral ao afirmar o direito absoluto do indivíduo nega o direito do Outro ao destruir o solo comum em que ambos se enraízam.

IHU On-Line – Naquela mesma entrevista, o senhor citou a seguinte trecho do artigo “Ética e razão moderna”, de Lima Vaz: “Não é, pois, no terreno da produção dos bens materiais e da satisfação das necessidades vitais que a crise profunda se delineia. É no terreno das razões de viver e dos fins capazes de dar sentido à aventura humana sobre a terra. Em suma, a crise da civilização num futuro que já se anuncia no nosso presente, não será uma crise do ter, mas uma crise do ser. Será um conflito dramático não apenas nas consciências individuais, mas igualmente na consciência social entre sentido e não-sentido”. Hoje, vivemos uma crise do ser e não do ter? Como ela se manifesta e como enfrentá-la?

Carlos Roberto Drawin – No contexto da gravíssima crise sanitária que estamos atravessando, as palavras de Lima Vaz acima citadas revelam-se transparentes e premonitórias. São transparentes, como se pode ver no comportamento das pessoas que não admitem restringir o seu comportamento individualista e possessivo, as razões do seu ter – necessidades, prazeres, interesses – em nome de qualquer valor maior – o respeito ao outro, a preservação da comunidade, a solidariedade social – as razões do nosso viver, o cultivo de uma vida verdadeiramente humana e não apenas biológica. São também palavras premonitórias ao advertirem para a “a crise da civilização num futuro que já se anuncia no nosso presente”. A pandemia traz à superfície quotidiana a gravidade de tal crise.

Acredito que a pandemia não deve ser considerada como um fenômeno natural, objetivo e inesperado, a ser combatido com as armas da ciência e da tecnologia na expectativa de retornarmos ao curso normal das coisas. Não pode haver normalidade pós-pandemia, simplesmente porque já não a havia antes dela.

Niilismo: a doença da civilização

A nossa civilização padece de grave doença, aquela, nomeada por  Nietzsche como “advento do niilismo”. Não há receita pronta para combatê-la, senão a da convocação à reflexão crítica, o que demanda o tempo mais alargado das mediações conceituais, a insistência na garimpagem do sentido das pequenas coisas – os gestos pouco visíveis do amor, da compaixão e do acolhimento ao outro – e a resistência incansável a todo tipo de violência, opressão e destruição que atingem não somente indivíduos, sociedades, culturas, mas também a natureza, casa em que habitamos e sem a qual não sobreviveremos. A resistência, no entanto, não pode se confundir e nem se reduzir ao cego ativismo, exige paciência e persistência, lucidez e discernimento e aí reside a contribuição daqueles, como Lima Vaz, que se dedicaram ao pesado labor do pensamento, ao difícil forjar da cadeia de mediações que vincula as lutas mais concretas e urgentes às razões mais profundas e abrangentes.

IHU On-Line – O senhor também disse que o artigo encerra com a afirmação de Robert Spaemann: “não há ética sem metafísica”. O que essa afirmação significa na obra de Lima Vaz e como pode nos orientar para encontrar saídas aos desafios do mundo atual?

Carlos Roberto Drawin – Essa questão já foi abordada nas respostas anteriores. Não custa, contudo, retomá-la rapidamente. Antes foi diagnosticado como um dos males do mundo moderno a separação entre ética e política e se aludiu à multiplicidade de causas confluentes para a ocorrência de tal efeito. Vou aqui apenas mencionar duas delas. A primeira foi a ascensão da racionalidade técnica ou instrumental como paradigma para o conjunto da racionalidade e, em consequência, a desvalorização ou interdição de qualquer outro discurso ou atividade que escapassem aos seus cânones. Os esforços filosóficos, para se pensar a realidade em seu fundamento, finalidade e sentido, são julgados como insensatos, inconsistentes, carentes de rigor e cheios de inútil verbosidade. A rubrica “metafísica” se difundiu, com certa ligeireza, para desqualificar qualquer discurso assim considerado. A segunda foi a ascensão do indivíduo e de seu círculo próximo de relações e interesses como valor supremo da vida social. Daí decorre um duplo efeito devastador: a política converte-se em técnica de obtenção e manutenção do poder e a ética torna-se um conjunto de valores e crenças emocionalmente lastreados e circunscritos à esfera privada.

Convivemos, então, com uma situação bastante estranha ou patética: os indivíduos, grupos e partidos lançam, uns aos outros, acusações de exclusão, discriminação e injustiça e reivindicam para si reconhecimento, respeito e dignidade. Mas com base em quê? Nos Direitos Humanos? Por que, afinal, os Direitos Humanos não poderiam ser também considerados como uma doutrina dentre outras e não como universais e evidentes e tomados como uma referência comum para a resolução dos gravíssimos conflitos do mundo contemporâneo? Teriam sido comprovados cientificamente conforme os critérios da racionalidade técnica? Ou por que muitos esposam a convicção subjetiva e, portanto, arbitrária que assim deve ser? A afirmação de seu fundamento e universalidade parece exigir uma justificação que vá além da racionalidade científica e das convicções subjetivas; ora, esse “ir além” definiria, em princípio, a metafísica.

Como se vê, a afirmação de Lima Vaz “não há ética sem metafísica”, embora pareça “dogmática” para certos meios intelectuais, atinge em cheio o coração de alguns dos mais dramáticos conflitos de nosso tempo.

IHU On-Line – Como a antropologia e a filosofia podem dialogar com as demais ciências, especialmente nas universidades? Qual sua avaliação acerca do modo como esse intercâmbio é e tem sido feito nas universidades brasileiras?

Carlos Roberto Drawin – Há no campo científico, como já se disse antes, um crescimento acelerado de especializações e ramificações, assim como vertiginosa rapidez de inovações técnicas em algumas áreas. Neste contexto, a comunicação entre os saberes e a construção transdisciplinar passou a ser uma tarefa tão urgente quanto difícil. No entanto, como Lima Vaz observa, não contamos mais com um modelo unitário de cultura. Ora, “as origens históricas da universidade se prendem a esse modelo cultural universal, mas ela sobreviveu a tal modelo e encontra-se inserida hoje (não sem dificuldades e problemas) num modelo cultural pluriversal, ou seja, que admite uma constelação de universos culturais” (Vaz, 1975, p. 8-9). Esse texto escrito há quase 50 anos ganhou muito em atualidade, porque o déficit de integração dos saberes é compensado com a tendência da adoção de critérios formais que, embora sejam louváveis em muitos aspectos, podem mascarar a irrelevância dos conteúdos e alienar a universidade do debate público e da necessária inserção na sociedade.

A filosofia, caso não se deixe tragar pelo vórtice da especialização, não se podendo pretender qualquer posição “imperial” pode, contudo, oferecer subsídios reflexivos para a árdua construção do espaço transdisciplinar. Em sua obra, Lima Vaz propõe justamente um sistema necessariamente aberto, porém suficientemente consistente e complexo e capaz de contribuir para o mapeamento da pluralidade do mundo contemporâneo.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Carlos Roberto Drawin – Nas minhas respostas procurei trazer alguns poucos elementos da obra de Lima Vaz. Obra excepcional por sua erudição e abrangência, originalidade e força argumentativa, embora, ainda e infelizmente, pouco divulgada entre nós. Tive o privilégio de acompanhar por muitos anos os seus cursos inolvidáveis e que agora vão se tornando mais acessíveis com a publicação de sua obra filosófica inédita, graças à preservação de seus manuscritos pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia – Faje, situada em Belo Horizonte, e à incansável dedicação da equipe coordenada pelo Padre João Augusto Mac Dowell.

Nesse tempo trevoso que nos foi dado viver – com o nosso país já tão desigual e injusto agora lançado na perdição de tão graves retrocessos e desgovernos –, o pensamento de Lima Vaz se ergue como um farol de lucidez e serenidade, permitindo ao nosso olhar elevar-se do triste presente para perscrutar no horizonte futuro as razões de nossa esperança.

Referências bibliográficas

Lima Vaz, Henrique C. de. “A universidade na cultura contemporânea”. Síntese. Vol. II, nº 4, jul.set. 1975. p. 3-11.

Lima Vaz, Henrique C. de. Escritos de filosofia. Problemas de fronteira. São Paulo: Edições Loyola, 1986.

Lima Vaz, Henrique C. de. Escritos de filosofia II: Ética e cultura. São Paulo: Edições Loyola, 1988.

Lima Vaz, Henrique C. de. Antropologia filosófica II. São Paulo: Edições Loyola, 1992.

Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

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