Por Fabiana Uchinaka, de Tilt, no Uol
O fundador e presidente da SaferNet Brasil, Thiago Tavares, deixou o Brasil e exilou-se voluntariamente em Berlim, na Alemanha, após sofrer ameaças e ter seu computador invadido pelo programa espião Pegasus. A informação foi divulgada na noite desta segunda-feira (6) em uma carta a funcionários, colaboradores e instituições parceiras, a qual Tilt teve acesso.
A Safernet é uma organização de direitos humanos notoriamente conhecida por sua atuação no combate à pedofilia online, que vinha trabalhando na captura de um dos maiores pedófilos do mundo, aqui no Brasil, e no combate à desinformação nas eleições, entre outra tantas causa.
Segundo a carta, Tavares sofreu ameaças de morte após participar, no dia 26 de outubro, da mesa “Como se estruturam as campanhas de ódio e desinformação” do “Seminário Internacional Desinformação e Eleições” do TSE (Tribunal Superior Eleitoral).
“O auto-exílio ou exílio voluntário é medida extrema —e jamais aplicada desde a fundação da instituição em 2005— quando a segurança pessoal de funcionário, colaborador ou diretor da SaferNet Brasil encontra-se em grave e iminente risco. É justamente o que ocorre”, diz ele.
As ameaças, segundo Tavares, cresceram no dia 22 de novembro quando um funcionário da SaferNet Brasil sofreu um sequestro relâmpago em Salvador (BA), foi ameaçado com violência e teve celular e computador roubados. Tavares estava a apenas 800 metros do local.
Depois, em 2 de dezembro, uma familiar de Tavares teria sido ferida em Salvador e internada em UTI. Não há mais detalhes sobre este episódio no documento.
No mesmo dia, a ONG coletou evidências de que o computador do presidente da Safernet foi comprometimento pelo malware Pegasus, um programa sofisticado desenvolvido pela empresa NSO Group, de Israel, que vem sendo utilizado ilegalmente para perseguir jornalistas e ativistas de direitos humanos em diversos países do mundo.
Semelhante a um vírus, o Pegasus permite rastrear em segredo todas as atividades da pessoa que teve o aparelho infectado: ler mensagens, ver fotos, rastrear a localização e ter informações de acesso a contas bancárias, redes sociais e email. Também é possível usá-lo para ativar remotamente o microfone do celular espionado para ouvir ligações e tirar fotos com a câmera, sem que a pessoa saiba.
O programa faz tudo isso explorando uma série de falhas e brechas de segurança nos códigos do iOS, o sistema operacional dos iPhones, e no Android, do Google —ambas já corrigiram muitas das falhas que permitem a espionagem do Pegasus, mas o software ainda se aproveita de aparelhos que não foram atualizados ou de brechas ainda não descobertas.
O relatório técnico da Safernet, com 28 páginas, foi compartilhado com a Apple (marca do computador de Tavares) e à Adobe Brasil e o CERT.br, diz a carta.
A entidade chegou a postar um apelo às empresas no Twitter para que as empresas ajudassem a consertar o equipamento e eliminar o app espião do grupo israelense NSO.
@Apple @AdobeBra hello folks from T&S and Security teams. You must talk ASAP and collaborative work together to fix @NSOgroup attack vector used for unlawful and abusive activities.– SaferNet Brasil (@safernet) December 3, 2021
“A proximidade dos fatos, somado às ameaças que já vinha recebendo, não deixou alternativa a Thiago Tavares a não ser deixar o país, temporariamente, até que as circunstâncias dos fatos sejam totalmente esclarecidas e sejam restabelecidas as condições de segurança pessoal para o desempenho de suas atividades profissionais e acadêmicas no Brasil, seja como defensor dos direitos humanos, seja como especialista em tecnologia”, finaliza o texto.
Tavares chegou à Alemanha no sábado (4).
Pegasus é usado contra políticos, jornalistas e ativistas
Israel sofre duras críticas pelas exportações do Pegasus desde julho, quando se descobriu que a ferramenta da NSO é usada para interceptar ao menos 180 jornalistas, 600 políticos, 85 ativistas dos direitos humanos e 65 empresários de diferentes países.
Este trabalho jornalístico se baseia em uma lista de 50.000 números de telefone selecionados pelos clientes de NSO desde 2016, obtida pela organização Forbidden Stories e pela Anistia Internacional.
Em novembro, o Departamento de Comércio dos Estados Unidos colocou a NSO em sua “lista vermelha”. Na mesma época, a Apple processou a empresa, numa tentativa de responsabilizá-la pelas invasões —segundo a ação, foram 1.400 dispositivos atacados — e impedir a israelense de de usar qualquer programas, serviços ou dispositivos da maçã. Em 2019, o Facebook já havia processado o grupo por usar o WhatsApp para realizar espionagem cibernética.
A Reuters reportou, na sexta-feira (3), que iPhones de ao menos nove funcionários do Departamento de Estado dos EUA foram hackeados por um desconhecido que usou o Pegasus contra autoridades dos EUA em Uganda. Ativistas palestinos também foram alvo do app, segundo denúncia de outubro.
Em agosto, 17 jornalistas de sete países, alvos do programa de espionagem, apresentaram à ONG Repórteres Sem Fronteiras e à ONU (Organização das Nações Unidas) uma denúncia contra a NSO.
Na semana passada, Israel teria cortado a lista de países que podem comprar a tecnologia de invasão de sistemas eletrônicos de 102 para 37 países. Segundo o jornal local Calcalist, México, Marrocos, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos ficaram impedidos de importar a ferramenta voltada a invasão e monitoramento de sistemas digitais.
Em maio, o UOL revelou que Carlos Bolsonaro atuava na intermediação para a contratação da empresa pelo Ministério da Justiça, que lançou licitação para contratar um programa espião. Após a reportagem, o NSO Group se retirou do certame.
A NSO, por sua vez, nega sistematicamente qualquer irregularidade e reage insistindo que seu software está destinado ao uso das autoridades somente na luta contra o terrorismo e outros delitos.
Especialistas da ONU pediram uma moratória internacional na venda de tecnologia de vigilância até que as regulamentações para proteger os direitos humanos sejam implementadas. (Com agências internacionais)
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Foto: Geraldo Magela / Senado Federal
