Nas manchetes dos grandes jornais brasileiros, risco de seca, incêndios, recordes de temperatura e falta de água… na Europa. Onda de calor no Reino Unido e em outros países europeus, risco de seca em 46% do território da União Europeia, segundo afirmações da própria Comissão Europeia, órgão executivo da UE, onde cerca de 11% do território já estaria em nível de alerta, com cultivos agrícolas e vegetação debilitados por falta de água, com vários países tendo que enfrentar redução na produtividade agrícola pela falta de água, entre os quais França, Itália e Espanha, importantes produtores agrícolas no interior da UE. Incêndios se alastram em Portugal e Sul da França, além de outros países. Na Inglaterra, temperatura permanente entre 30 e 40 graus nesse verão, e o fenômeno se estende por toda a Europa.
Enquanto isso, por aqui, um fato surpreendentemente divulgado com menos estardalhaço pela própria grande imprensa brasileira, nos três anos do governo Bolsonaro: foram derrubados mais de 42,5 mil Km² de matas em todos os biomas do país. Informações recentes do Imazon – Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia – mostram que, no primeiro semestre desse ano (2022, portanto dados ainda não computados nos números da derrubada dos três anos desse governo), ocorreu a maior destruição da floresta para um semestre em 15 anos, cerca de 4,8 mil Km², quase 20% a mais do que no primeiro semestre do ano passado.
Pará, Amazonas e Mato Grosso lideram a devastação. Ou seja, uma destruição generalizada e, ao menos para a Amazônia, pelos dados do Imazon, em alta. Por aqui, a queda da produtividade agrícola e pecuária, também em curso pelos fatores climáticos (secas e, em outros momentos, excesso de chuvas, quando não deveriam ocorrer, afetando a produção agrícola) está sendo compensada pelo aumento da área ocupada pelas atividades agropastoris.
Onde esses dois eventos se conectam? Nas mudanças climáticas por que passa o mundo atualmente. A destruição no Brasil influenciando negativamente no clima europeu e na produtividade agrícola dos dois lados do Atlântico. Destruição agora acelerada com o governo Bolsonaro, como mostram os números. Governo que faz parte do Mercosul, com o qual os europeus (tanto da União Europeia, quanto da chamada EFTA, Área Europeia de Livre Comércio, que inclui Suíça, Liechtenstein, Noruega e Islândia) querem firmar acordos de livre-comércio que vão reforçar a intensificação da produção de commodities agrícolas (e minerais e energéticas que também podem estar em áreas ambientalmente sensíveis). Ou seja, embora agora tenham passado a defender o acordo não por ser uma estratégia possível de desenvolvimento para o Mercosul, mas por conta de suas dificuldades com o abastecimento de produtos primários agrícolas e energéticos a partir da guerra na Ucrânia, os europeus claramente estarão colocando em segundo plano a questão climática, da qual nesse momento são vítimas.
No caso do Brasil (e também nos demais países do Mercosul – Argentina, Paraguai e Uruguai), essa intensificação seguirá afetando o regime de chuvas, com impactos não desprezíveis sobre a produtividade agrícola, o abastecimento de água e também o de energia (vale lembrar que os países do Mercosul têm importante componente hidráulico na sua matriz energética).
Estamos caminhando para mudanças importantes que já estão sendo verificadas em várias culturas agrícolas e pecuárias. Com um importante detalhe: enquanto a grande agricultura comercial de exportação pode ocupar novas áreas ou intensificar a produção nas áreas existentes (com uma maior utilização de insumos agrícolas, vários de base química, afetando aí não somente o clima, mas também a qualidade de vida, da água e dos próprios alimentos produzidos), a agricultura familiar, que é responsável pela maior parte dos alimentos produzidos para o consumo doméstico no país, terá a sua produção impactada negativamente, em quantidade e qualidade. Mas não terá muita alternativa a não ser ter a sua produção afetada, a sua renda diminuída, assim como o estimulo para que as novas gerações de agricultores familiares sigam no campo produzindo. No médio e longo prazos, isso representa uma tendência à produção menor e preços mais elevados.
Assim, é fundamental tomar essas constatações em consideração quando estivermos definindo as políticas para a agricultura brasileira no próximo período. É fundamental invertermos a rota suicida em que a busca desenfreada de ganhos de curto prazo está nos colocando, pensar em quais os objetivos que devem de fato ser considerados no modelo agrícola brasileiro e alterar uma trajetória que está cada vez mais se mostrando muito complicada para a agricultura brasileira.
A essa altura, o país que vende a sua imagem como “celeiro do mundo” já registra impactantes dados de insegurança alimentar, e uma parte da explicação tem relação com os preços e a oferta de alimentos. E o agro, que se vende como “pop”, cada vez mais aprofunda a sua trajetória destruidora sobre o conjunto do país.
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
*Economista, doutorando do PPGCTIA/UFRRJ, membro da Coordenação da Associação Brasileira de Economistas pela Democracia-RJ e assessor da Rede Brasileira pela Integração dos Povos.