O medo precisa mudar de lado. E isso não é um chamado a vingança


“René, por favor, ajuda. Meu pai foi baleado dentro de casa e não consigo sair. Moro no Areal e tá dando muito tiro”
(Relato tweetado por René Silva, do Voz das Comunidades)

René, por favor, ajuda. Meu pai foi baleado dentro de casa e não consigo sair. Moro no Areal e tá dando muito tiro” 
(Relato tweetado por René Silva, do Voz das Comunidades)

“É muito grave a realidade do que está acontecendo na favela. Mortes aos montes. Violências de diversas formas direcionadas ao morador. Falta de luz. Há pessoas feridas dentro de casas tentando encontrar formas de serem socorridas, nos pedindo socorro. Que desespero!”
(Relato tweetado por Raull Santiago)
 

Por Jessica Santos, Newsletter da Ponte

Mais uma semana de corpos pretos tombados no chão em uma operação do Estado, que, em tese, deveria ser o agente de proteção para o cidadão. E até é. Mas o cidadão aqui é muito bem definido por classe, cor e região onde mora. Na favela, é tiro e palavrão. Na pista, é “por favor, doutor, pode me acompanhar?”. 

É uma verdade universal: há corpos que existem para ser protegidos e outros para serem mortos. Esta era para ser uma daquelas verdades escandalosas, chocantes, mas em um universo em que a violência é naturalizada, passam ser mais uma notícia nos jornais, mais um corpo no chão e, inclusive, questionado se realmente era um corpo tão inocente assim. A depender da cor da pele, a morte será celebrada como mais um “CPF cancelado”. 

Em seu livro mais recente Uma teoria feminista da violência:Por uma política antirracista da proteção, publicado no Brasil pela editora ubu, a cientista política francesa François Vergès faz uma análise contundente de como a violência é tão natural entre nós quanto o ar sujo que respiramos. Logo de saída, a autora já define o Estado como “condensação de todas as opressões e explorações imperialistas, patriarcais e capitalistas” fazendo uma ligação precisa com o racismo, elemento que cria o alvo nos peitos matáveis, substituíveis, elimináveis. Para ela, este é “elemento central na análise das violências sistêmicas que contribuem para taxas de mortalidade fortemente diferenciadas em função do pertencimento social e racial”.

Essa violência de Estado, o braço forte do poder, tem lugar para acontecer, pois Deus nos livre de sujar ou atrapalhar a vida dos bairros nobres e de classe média com sangue e brutalidade. Há espaços específicos, de acordo com François Vergès, dedicados a isto, onde a lei é a violência estrategicamente dominada pela figura masculina branca e heteronormativa, o topo da cadeia racial. 

Se eu que não vivo em comunidades periféricas estou saturada desta violência e deste medo, não consigo dimensionar quem vive nestes territórios. Fico me perguntando quando será a última gota d’água para todos nós? Quando faremos, como sugere Verges em seu livro, “o medo mudar de lado”? Quando vem a real revolta desta maioria silenciada? Quem será aliado de verdade, para além dos discursos e redes sociais, quando esta maioria sair da passividade assustada e cansada? Quando será demais para a gente? 

A minha sensação real é que nós não estamos realmente incomodados. Naturalizamos este estado de coisas de forma bovina e chamamos os “outros” de “gado”. O silêncio e a inércia nos faz partícipes da violência nossa de cada dia. O não fazer é nossa ação brutal. O não denunciar é nossa covardia. O calar é nossa barbárie. E, veja, esta não é uma tentativa minha de fazer com que você, pessoa branca de classe média, sinta a boa e velha culpa por gozar de privilégios e demonstre sua raiva nas redes sociais. Este é um convite à ação, um convite para que você tome partido e use os seus privilégios para fazer o medo mudar de lado. Não como um salvador bonzinho, mas como uma pessoa consciente de que se não fizer nada, o medo seguirá entrando nos becos e vielas e fazendo o sangue jorrar impunemente.

Foto: Fernando Frazão /Agência Brasil

Deixe um comentário

O comentário deve ter seu nome e sobrenome. O e-mail é necessário, mas não será publicado.

quinze + 17 =