Vida de brasileiro aflito transpõe neste domingo dramática divisória existencial. Por Janio de Freitas

Estender esses anos até o inimaginável ou retomar o caminho que a Constituição pavimentava até o golpe contra Rousseff

Na Folha

Nossas vidas de brasileiros aflitos, seja por necessidades materiais ou por turbulências políticas, transpõem neste domingo uma dramática divisória existencial.

Encerrarmos o dia com reeleição de Bolsonaro será o início da marcha forçada para um país dominado por violência, fanatismo falsamente religioso, exclusão dos direitos civis, silêncio cultural, político e pessoal.

Encerrarmos o dia com a derrota de Bolsonaro será mais um reencontro, talvez o último, com a esperança de um país enfim digno. Chegar a este dia é um êxito, mas não honra o Brasil.

A percepção clara do ataque demonstrou-se pela impressão dominante nos dois primeiros anos, ou um pouco mais, de que Bolsonaro não conseguiria chegar ao fim do mandato.

Nada do que o passado legou de positivo foi isentado de algum tipo de dano por Bolsonaro e seus cúmplices.

Nada do legado negativo deixou de ser incentivado: racismo, extermínio indígena, devastação da Amazônia, assalto à riqueza natural, milícias criminosas, maiores pobreza e miséria, corrupção e tantos outros males agravados.

No tempo restante, dois anos quase, a sensação dominante inverteu-se: sólido no poder, Bolsonaro queria o golpe.

Além de toda a malfeitoria, que passara a incluir os horrores da pandemia ampliados pela conduta perversa do governo, o próprio Estado Democrático de Direito ficava ameaçado.

Nem assim houve dignidade e convicção democrática bastante para mover a sociedade e as instituições em defesa de si mesmas —salvo a atitude de uns poucos, nem para os dedos das mãos, que batalham ainda.

Se a eleição final está aí, é porque Bolsonaro e os seus militares temeram os riscos para o golpe, vindos do exterior.

Foram quatro anos vergonhosos, anos que não se esquecem. O que fazer deles é o que fazer dessa vergonha.

Estender esses anos até o inimaginável, sob vergonha irremediável, ou retomar o caminho que a Constituição pavimentava até o golpe contra Dilma Rousseff. É a questão que a esfinge e seus botões põem hoje a cada eleitor.

Viva a liberdade. Viva a democracia. Viva a igualdade racial. Viva a vontade de fazer do Brasil um país de verdade.

Destaque: Coppo di Marcovaldo, Inferno (1260-70). Fragmento de mosaico do teto do Batistério de Florença

Deixe um comentário

O comentário deve ter seu nome e sobrenome. O e-mail é necessário, mas não será publicado.

7 + 14 =