COP 27: É sobre isso! Por Nilma Bentes

Pois é, essa mini frase anda virando gracejo. Mas aqui vai a título de sinalizar um sentimento de relativa impotência ao até se pensar nessa COP 27- Conferência do Clima 2022, pois se sabe que os poderosos do sistema econômico (trans-multinacionais, não só as ligadas a combustíveis fósseis), estão atuando lá com a voracidade de um ataque de formigas de correição e nós, negras e negros da Amazônia brasileira, quilombolas ou não, continuamos a sem protagonismo efetivo. Observa-se que os chefes de governo – maioria homens e brancos –, além de não nos incluir nas delegações oficiais, gostam de nelas levar empresários ou prepostos destes, ligados à atividades altamente depredadoras do ambiente amazônico:   a) extrativismo vegetal-extração de madeira/plantas medicinais-cosméticas, etc.; b) animal – pesca/caça predatória; c) mineral (inclui até garimpos ilegais); do agronegócio, sobretudo pecuária, grandes monocultivos (soja e dendê, principalmente), sendo que a questão de desmatamento-queima, uso de agrotóxicos, provocam externalidades que prejudicam toda a população que tem sido invisibilidade.

Nossa Amazônia com tamanho correspondente a cerca de 60% da área do país (perto de 5.500 km2),  por ela passa o maior trecho do  maior rio do mundo em volume d´água (rio Amazonas, com seus 1.100 afluentes[1]),  com o maior arquipélago fluvial do mundo (Mariuá possui 1.400 ilhas e 275 km de extensão[2]); maior arquipélado flúvio-marítimo do planeta (Marajó com cerca de três mil ilhas e ilhotas)[3], a maior floresta tropical do mundo, maior biodiversidade e onde ocorre, atualmente, o problema de   desmatamentos e queimadas. A população da Região corresponde a apenas 8% do total do país (cerca de 17 milhões, sendo mais de 70% negros e negras, incluindo residentes em mais de 480 quilombos )[4] . A Amazônia brasileira tem cerca de 13 mil km de fronteira terrestre (não litorânea), com dezenas e dezenas de pistas de pouso clandestinas, por isso alguns pontos têm sido utilizados para o tráfico de drogas, de armas, de madeira, de biodiversidade, de pessoas e seus órgãos [5] (o Brasil tem 17 mil km desse tipo de fronteira no total). Há que se registrar que este bioma compõe a PanAmazônia a qual é formada por nove países: Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana (ex – Guiana Inglesa), Guiana Francesa – Departamento da França, Peru, Suriname (ex – Guiana Holandesa) e Venezuela, sendo que em quase todos esses países, coexistem a pujança de fatores naturais e problemas citados, acrescido da questão da matriz energética. Sobre esta, tem sido agudo o problema do uso de combustíveis fósseis (petróleo, principalmente) e construção de hidrelétricas – a maioria rios da Amazônia tem declive suave, o que não recomenda a construção desse tipo de geração de energia, pelos danos sócio-ecológicos que produz, atingindo principalmente povos originários, quilombolas e outros ribeirinhos . A ampliação da utilização de energia solar, eólica e pequenos geradores usando hidroenergia deve ter absoluta prioridade.

O que esperar então da COP 27, onde há sinais de que empresas que mercantilizam elementos da natureza (água é um deles) estão dando suporte financeiro à realização da mesma?
Devemos insistir, com firmeza, na luta contra o racismo, o que inclui o racismo institucional, racismo ambiental, religioso, alimentar-nutricional, recreativo, educacional, cultural e de outras adjetivações/modalidades. Devemos insistir, também e sobretudo, que a economia deve estar subordinada à ecologia e não o contrário, como ocorre atualmente – pela sobrevivência e zelo do planeta que habitamos.

Nilma Bentes [6]

Notas:

[1] https://brasilescola.uol.com.br/brasil/rio-amazonas.htm

[2] https://www.gov.br/cnpq/pt-br/assuntos/noticias/destaque-em-cti/inpa-publica-livro-sobre-o-maior-arquipelago-fluvial-do-planeta-a-400-quilometros-de-manaus

[3] https://www.cnm.org.br/comunicacao/noticias/ilha-de-marajo-no-para-e-o-maior-arquipelago-de-mar-e-rios-do-mundo

[4]reúne a maior parte da população indígena no Brasil, com cerca de 440 mil indígenas; mais de 180 povos indígenas, além de vários grupos isolados ( https://ispn.org.br/biomas/amazonia/povos-e-comunidades-tradicionais-da-amazonia/)

[5]O Prof. Aiala Couto trata de parte dessas questões -ver notícia https://www.oliberal.com/cop-27/paraense-apresenta-na-cop-27-relacao-entre-violencia-e-desmatamento-na-amazonia-1.611492

[6]Engenheira Agrônoma, ativista do movimento negro : Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará-CEDENPA o qual é afiliado à Rede Fulanas NAB-Negras da Amazônia Brasileira;AMNB-Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras e Coalização Negra por Direitos

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