A Transição. Por Julio Pompeu

No Terapia Política

O casamento de Marília foi espetacular. Com a grandiosidade exagerada de luxo meio brega inspirada nos eventos das antigas monarquias, a delicadeza de doces e comidas finas e o romantismo em discursos, risos e choros de felicidade. Era como um sonho sonhado acordado.

Foi uma mudança ousada em sua vida. O atual era completamente diferente de seu ex. Mas as decepções são como ladeiras que nos inclinam a mudanças tão radicais quanto a intensidade dos sentimentos tristes que brotam dela. A decepção com Leandro, virou esperança de vida feliz com Jonas.

Amigos estranharam a união. Alguns, por amor, a avisaram. Jonas era divertido, bem humorado. Meio sem noção. Daquela falta de senso que deixa o sujeito engraçado. Era piadista sem freios, às vezes, sem respeito. No começo, divertia. Com o tempo, incomodava. A graça das piadas de tiozão encobria mal um espírito grosseiro e violento. Dava para ver. Dava para sentir. Mas Marília preferiu ignorar e dar mais ouvidos aos próprios ressentimentos que aos avisos de amigos amorosos.

Mas não há ilusão que resista por muito tempo aos solavancos da realidade. O quotidiano foi se tornando tóxico, doentio. O bom humor de Jonas virou deboche que minava as resistências de Marília às suas truculências. “Aqui, quem manda sou eu! Cale a boca!”. Agredia com palavras. Também com atitudes. Faltou só o tapa, que não deixaria dúvida razoável sobre a agressividade que seu espírito insistia em negar por medo, vergonha e pelo ressentimento com Leandro que parecia incapaz de superar.

O cúmulo da agressividade foi quando adoeceu. A chocante indiferença de Jonas ao seu sofrimento lhe doeu mais que a falta de ar e todas as outras dores da doença. Enquanto sufocava, ele a imitava para os amigos. Reclamando atenção, ouviu “deixa de mimimi”. Pedindo solidariedade em seu medo de morrer, ouviu “E daí? Não sou coveiro”. Jonas só se importava com seu dinheiro e sua reputação. Marília percebeu-se, afinal, sozinha.

Pior ainda que Jonas, eram seus amigos. Gente da pior espécie. Bajulavam sendo mais grotescos que o próprio. Marília viu-se presa num mundo de violências aplaudidas. Algo do qual ela não se sentia parte, a não ser como objeto. Falavam dela. Em nome dela. Que era tudo para ela. Mas a agrediam, vilipendiavam sua honra, seu bom senso, seu amor próprio. É como se a tomassem de si mesma e deixassem claro que ela, agora e para sempre, seria de Jonas.

Foi no auge da agonia que, como que por piedade do destino, reencontrou Leandro. Ainda havia ressentimento. E desconfiança. Mas o tormento que era viver com Jonas falava mais alto a seus desesperos. Estranhamente, Leandro reacendeu-lhe a esperança de voltar a se pertencer.

Foi esta esperança em Leandro, tornada mais forte que o medo de Jonas pelas suas agonias e sofrimentos, que a fez deixar Jonas. Os amigos do marido se voltaram com fúria contra ela. Para eles, pior que deixar Jonas era sua decisão de reatar com Leandro. De ter sua vida de volta. Pediam, rezavam para que Jonas a tomasse de volta à força.

Jonas recolheu-se. Mais por vergonha do fracasso conjugal – que trouxe à tona outros tantos de seus fracassos – que por amor à Marília. Jonas nunca a amou. Nunca foi capaz de amar nada além das ilusões de grandeza que tinha por si mesmo. Derrotado, reage com imaturidade e a baixeza de seu espírito.

Marília segue. Em transição. Em renascimento. Entre medos, feridas e ressentimentos, permite-se, no tormento da transição, sonhar com um futuro feliz.

Ilustração: Mihai Cauli

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