A cocada do Bibi: o senador e os petistas infiltrados. Por José Ribamar Bessa Freire

No TaquiPraTi

“Enganar, mentir, fraudar / São tuas grandes qualidades /
Gosto de teu descontrole / Em negar todas verdades /
De gritar alto e bom tom / As tuas insanidades”
(Carta do Satanás a Bolsonaro. Zé de Quinô 2022).

O que é que a cocada do Bibi, lá do bairro de Aparecida, em Manaus, tem a ver com petistas infiltrados nos ataques às sedes dos Três Poderes, em Brasília? Tudo. E com a declaração daí decorrente do senador coisificado Marcos do Val (Phodemos-ES, vixe vixe), ameaçando pedir o impeachment de Lula e a prisão do ministro da Justiça, Flávio Dino? Tudo. Por isso, é conveniente digerirmos essa cocada. É o que faremos a seguir.

A fé da mucura

Bibi, meu cunhado, embora diabético, costumava se esgueirar de madrugada pela cozinha para comer cocadas, que foram então banidas da casa pela minha irmã Helena. Um dia, ela foi conferir as compras da semana feitas no supermercado e lá, numa sacola, viu escorrendo leite condensado pelas beiradas. Sempre que usava o nome completo dele, era pra dar esporro:

– Jefferson Marques de Souza, o que significa isso aqui? – perguntou, desencavando várias cocadas cremosas escondidas em rolos de papel higiênico.

– Foi um presente da moça do Caixa. Não é pra mim. Só aceitei pra gente ter o que oferecer a nossos netos – fabulou ele jairmente. Jairmente negou as evidências contrárias, rasgando a nota fiscal com o registro do preço das cocadas que, à espera de alguma visita eventual, foram guardadas na prateleira da cozinha. Acontece que cada dia desapareciam duas ou três. Quando constatou o desfalque, Helena berrou chorosa:

– Tu estás te suicidando, não podes comer doce, pensa nas nossas netas.

Sem gaguejar, de pés juntos, Bibi jurou pela fé da mucura que não havia comido, voltou a jurar pela fé do guará e tornou a repetir pela fé do quati.

Ela cobrou:

– Não jura que Deus castiga! Só moramos nós dois nesta casa, a única pessoa que veio nesses dias foi a Tati, que odeia cocadas. Quem foi então que comeu?

– Helena, tu não sabes que cocada se evapora? Ela é feita com leite evaporado das vacas do Cambixe, no Careiro da Várzea, que é exportado para os Estados Unidos. Lê o relatório da Organização Mundial da Saúde. O mundo inteiro sabe que na fase gasosa, a cocada se evapora graças ao gás circundante não saturado. Foi por isso que a Caixa do Supermercado me deu de presente, porque ia mesmo se perder – disse ele com firme convicção.

Rei da cocada preta

O trololó do Bibi tem mais credibilidade do que as declarações do senador do Val e aquelas do governador Romeu Zema (MG – Novo vixe vixe), herdeiros do Imbrochável. Várias cocadas volatilizadas do senador no twitter garantem que Lula “colocou em risco nossa democracia e a vida” porque deixou acontecer os ataques”  nas sedes dos Três Poderes, por isso seu  impeachment está com os dias marcados. Acusou Flávio Dino “pelo crime de prevaricação e por outros crimes do Código Penal” e que iria requerer o “imediato afastamento do ministro da Justiça” e sua prisão.

A imaginação prodigiosa do Bibi num discurso em privado dentro das quatro paredes de seu lar só teve consequências para ele e sua família. Mas a do senador Val, feita publicamente, pretende prejudicar o Brasil ao alimentar os delírios golpistas dos patriotários. No afã de puxar o saco do Coiso e garimpar simpatias dos golpistas, o senador tenta atropelar a nossa inteligência sem a menor cerimônia, usando para isso “gás circundante não saturado“.

Nem o Bibi, que é a cara do Didi Trapalhão,  nem Marcos do Val, que é a cara de George Santos, o rei da cocada preta, acreditam no que falaram. Quem crê em tais absurdos são os golpistas fanáticos e idiotizados, para quem a vacina contra a covid causa aids, a terra é plana e os atos de vandalismo foram cometidos por petistas e comunistas infiltrados entre eles.

Não se trata, portanto, apenas de uma simples mentira, o que já seria grave delinquência, mas de uma safadeza criminosa. “O senador Marcos do Val quer culpabilizar a vítima” – disse Flávio Dino, que nem-te-ligo, consciente de que as palavras do parlamentar capixaba se evaporam como as cocadas do Bibi. Por ser um ministro refinado, não disse (mas pensou): “Marcos vai cheirar teu pé”.

Marcos do Val quer esconder que ele comeu as cocadas e agora se espelha em George Santos, o trumpista filho de imigrantes brasileiros, que se elegeu deputado nos Estados Unidos e é lembrado por ter falsificado cheques em Niterói. O cara é um mentiroso compulsivo, crônico, que mentiu sobre seu histórico profissional e educacional, sobre sua origem, sobre sua mãe, uma empregada doméstica, que ele elevou à categoria de “primeira mulher executiva em uma grande instituição financeira”.

Festa da Selma

Quanto à mistura dos petistas entre os manifestante, as provas são irrefutáveis – dizem os patriotários. Um passarinho lhes contou que na última terça-feira (17), houve reunião num “aparelho” clandestino no Rio, em Copacabana, para planejar o quebra-quebra em Brasília no domingo (8). O código do encontro era o “Jantar da Lu”, diferente do grupo “Festa da Selma”. criado pelos acampados na frente dos quarteis.

Como é que no dia 17 eles podiam planejar o que já havia acontecido nove dias antes? – questionarão os idiotas da objetividade. Ora, para quem acredita nas baboseiras incongruentes do Marcos do Val de que Lula iria dar um golpe em si mesmo com ajuda de petistas, crer no terrorismo retroativo é reconhecer o poder de “Exu, que matou um pássaro ontem com uma pedra que atirou hoje”, conforme registrado em um oriki reproduzido por Piere Verger em “Orixás”.

Os patriotários sacrificam sua própria segurança num exercício de exibicionismo com falas, fotos e vídeos postados nas redes sociais. Já os petistas infiltrados são discretos, é difícil encontrar provas contra eles. Na citada reunião de planejamento do terrorismo retroativo, os comunistas usaram, por precaução, codinomes, para não serem identificados pela polícia.

A líder do grupo de Copacabana é “Lu, la Pasionária”, subversiva sagaz e perigosa, porque charmosa. Ela comanda o bando do qual fazem parte “o Jurista”, “a Química”, “o Filósofo”, “a Irmã”, “o Ortopédico”, o “Rey”, “Richard do Banjo”, “a Capsulite”, “a Aurora Glu-glu-glu”, o “Here for you” e “Nina, a Cadela”. A comandante Lu encerrou o encontro, citando as palavras do general Praga Netto, com dois “t” de tatu, dirigidas em novembro aos patriotários acampados em frente ao quartel:

– “Vocês não percam a fé, tá bom? É só o que eu posso falar para vocês agora”. 

Nem Praga, nem Lu mencionaram a minuta do decreto de intervenção no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) encontrada na operação de busca e apreensão na casa de Anderson Torres, então ministro da Justiça, agora preso, suspeito de ser um petista infiltrado. Entre os documentos, havia várias cartas do Capiroto ao Imbrochável, sem cópias das respostas. Uma delas, divulgada por Zé de Quinô, o cordelista de Arapiraca, agreste de Alagoas, termina assim:

Eu sou o pai da mentira
Isso não há quem conteste
Mas confesso sou teu fã
Mesmo que alguém te deteste
E acho que pro Brasil
Você é a pior peste.

Assinado: Satanás
Presidente do inferno.

Leitoras e leitores, em verdade em verdade vos digo: cocada se evapora.

 

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