Distrações. Por Julio Pompeu

No Terapia Política

Paloma pensava no porquê de tapioca não precisar de óleo para ser feita. É só espalhar o pó pela frigideira, fogo e pronto! Rapidinho, o pó vira disco. Ela sempre erra o momento de colocar o recheio para dobrá-la em forma de pastel. Ou de crepe, que é mais chique. Uma pequena distração e pronto! Passa do ponto e se quebra ao dobrar.

É como seus planos. Uma distração e a vida passa do ponto. Perde-se o momento e uma fissura nos acontecimentos vira ferida na alma. As amarguras vêm daí. Das distrações em seus planos que pareciam tão perfeitos. Perfeitos como tapioca recheada em forma de crepe chique.

Foi assim com os namoros. Também com os casamentos. No segundo, acreditava estar mais sábia pela experiência e que suas expectativas não se quebrariam novamente. Agora, acredita-se mais sábia pela experiência de saber que quando se acredita sábia, distrai-se ao ponto de quebrar seu coração.

Quando a distração não é dela, é dos outros. De todo mundo. Do mundo todo. Que insiste em não se concentrar nos planos. O mundo sempre se distrai. Sempre vacila nos acontecimentos e surpreende planejadoras sonhadoras feito Paloma. De que adianta planejar, se há um monte de coisas em nossos planos que não depende de nós? E mesmo as que dependem de nós não são certas, porque nos distraímos.

O mundo é distração. As grandes catástrofes humanitárias são filhas da distração. Nos distraímos em nossa razão e produzimos as armas mais mortais, com a desculpa distraída de que armas de matar salvam vidas e armas de matar em massa salvariam vidas em massa. Nos distraímos em nossos afetos e produzimos ideologias que prometem o bem, mas que tentamos construí-las praticando o mal. Como se do mal pudesse surgir o bem, do desprezo o respeito, da repulsa o acolhimento, do ódio o amor.

Paloma se percebe distraída no mundo distraído de si mesmo. De suas promessas de paz e prosperidade. De seus belos planos para o futuro feliz da humanidade. Na distração, o mundo se arma. As democracias morrem, afogadas em suas próprias distrações. As economias geram riquezas preocupadas com crescimento econômico, mas distraídas da distribuição das riquezas. Criam trabalhos distraídas da dignidade de quem trabalha. Criam engenhocas inteligentes distraídas da gente que será substituída por elas.

Que distração é essa que a gente tem e nem presta atenção a ela? Distração maldita que nos desvia de nossos planos e promessas? Distração que nos desvia do chão que pisamos ao ponto de ameaçar não termos mais chão para pisar qualquer dia desses. Quem sabe, seja distração que nos faz fugir da tristeza que percebemos vindo. Para não nos entristecemos antes do tempo. Ou distração de ambição, de quem vê tanto a si mesmo, que não enxerga mais ninguém.

Paloma queimou sua tapioca, distraída com seus pensamentos vagos. Só voltou a si quando sentiu o cheiro esturricado. É como o mundo – pensou ainda devaneante em distrações. Só volta a si quando sente o cheiro da destruição, mas por pouco tempo. Só até se acostumar com o cheiro e distrair-se novamente em alguma outra aventura humana.

Meu Deus! O que será de nós? E o que será do meu café da manhã?

Ilustração: Mihai Cauli

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