O objetivo militar impossível de Israel – eliminar o Hamas – encurrala civis, mulheres e crianças diante do horror em Gaza. Entrevista especial com Bruno Huberman

A cidade de Rafah tem abrigado grande parte dos sobreviventes aos ataques militares na Faixa de Gaza que começaram em outubro de 2023, após o Hamas lançar bombas sobre a fronteira com Israel. Ao todo mais de 30 mil palestinos, dos quais mais de 13 mil são crianças, foram mortos nas ofensivas militares

Por: IHU e Baleia Comunicação

Desde que o Hamas lançou bombas sobre o território israelense no começo de outubro de 2023, naquele que foi o maior ataque a Israel em décadas, matando 1,2 mil pessoas, a região se tornou palco de um massacre sem precedente contra a população civil palestina. Nada menos que 13 mil crianças foram mortas, para ficar no recorte mais dramático da população civil assassinada por forças militares israelenses, cuja soma total ultrapassa 30 mil óbitos em pouco mais de cinco meses.

No domingo, 17 de março, Benjamin Netanyahu descartou um cessar-fogo e garantiu que o ataque a Rafah deverá acontecer. A região próxima à fronteira com o Egito tornou-se o refúgio de 1,5 milhão de palestinos, acuados pelo horror da guerra. Há algo, porém, que não está claro: qual o plano de Israel para a população palestina?

“Não há uma clareza de objetivo final, de plano. Ele está sendo redesenhado e disputado pelos setores que compõem a coalizão governamental e a sociedade israelense. É uma intenção de expulsão, Israel tem tentado negociar isso com os egípcios, até proposto o perdão de dívidas do Egito no Banco Mundial e no (…) FMI”, descreve Bruno Huberman, judeu, pesquisador que dedicou seus estudos ao Estado de Israel e professor de Relações Internacionais da PUC-SP.

No fundo, tal como explica o entrevistado, a guerra empreendida por Israel tem compromisso com dois aspectos importantes, o setor armamentista privado no país, que é fundamental para a economia local, mas também com um desejo impossível. “De alguma forma, há uma sustentação do governo, a partir desse objetivo de eliminar o Hamas, que é um objetivo militar inalcançável. É possível aprofundar a destruição da infraestrutura urbana na qual a resistência do Hamas repousa, mas eliminar este grupo é impossível, até porque ele não existe só em Gaza”, explica Huberman, em entrevista concedida ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU via WhatsApp.

O holocausto não se sustenta em um essencialismo metafísico e excludente, mas na materialidade nua e macabra da história, no qual diversos povos foram vítimas, tal como os indígenas nos continentes americanos ou os armênios no contexto do leste europeu. Se para muitos judeus a comparação da violência empreendida contra o povo palestino e a violência sofrida por judeus na Segunda Guerra soa absurda, o risco de Rafah se tornar uma versão contemporânea de Varsóvia não é pequeno ou desprezível. “À medida que Gaza se torna um campo de extermínio, e a possível agressão israelense a Rafah tornará isso ainda mais dramático, possibilita que vejamos semelhanças cada vez mais crescentes entre o que foi o holocausto judeu e o genocídio palestino em Gaza”, propõe o pesquisador.

No fim, o entrevistado afirma que o iminente ataque a Rafah se consolidará como uma “segunda Nakba, a segunda grande catástrofe palestina”. E dispara: “isso é o que parece que eles desejam”.

Bruno Huberman é judeu e professor do curso de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP. Vice-líder do Grupo de Estudos sobre Conflitos Internacionais (GECI/PUC-SP) e pesquisador do Instituto Nacional de Estudos de Ciência e Tecnologia para o estudo dos Estados Unidos (INCT-Ineu). Doutor em Relações Internacionais pelo PPG San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp, PUC-SP) com a tese A colonização neoliberal de Jerusalém após Oslo: desenvolvimento, pacificação e resistência em Palestina/Israel. Foi pesquisador visitante no departamento de Development Studies da School of Oriental and African Studies, University of London (2018-2019) com Bolsa do Programa PDSE/Capes. É mestre em Relações Internacionais também pelo PPGRI San Tiago Dantas e bacharel em Comunicação Social/Jornalismo pela PUC-SP.

Huberman lançou, em 2023, o livro Colonização neoliberal de Jerusalém (Educ, 2023), a partir de sua tese doutoral.

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No dia 09 de abril, às 10h, o IHU realizará uma videoconferência que tem como tema a questão de Israel e o genocídio em Gaza.

Para atividade estão confirmadas as presenças do jornalista Luiz Cláudio Cunha, que acaba de lançar o Cadernos IHU ideias, n. 357, intitulado Varsóvia e Gaza: 80 anos depois, dois guetos e o mesmo nazismo, e José Geraldo de Sousa Jr., ex-reitor da UnB, membro benemérito do Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB), membro da Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de Brasília e coordenador do projeto O Direito Achado na Rua.

Em breve, o link para a transmissão ao vivo estará em nosso canal no YouTube. Mais informações estão disponíveis aqui.

Confira a entrevista.

IHU – Seu objeto de estudo há aproximadamente uma década se debruça sobre o Estado de Israel. Pode explicar em que sentido o Estado de Israel é neoliberal e como isso afeta a geopolítica regional?

Bruno Huberman – Israel é neoliberal assim como a maioria dos grandes estados que passaram por reformas estruturais a partir dos anos 1980, que significou a privatização da grande maioria dos serviços. No caso israelense, é notável a privatização dos setores do complexo industrial-militar, que fez das empresas militares israelenses uma parte importante do capital nacional deles e também uma importante desestruturação do estado de bem-estar social para os cidadãos judeus. Porque o Estado de Israel foi fundado a partir dessa promessa de ser um estado de benefícios materiais para a prosperidade dos judeus e foi deixando de ser.

Isso auxiliou no processo de colonização dos territórios da Cisjordânia e Jerusalém, porque, para incentivar as pessoas para migrar para viver no meio dos palestinos, desestrutura-se o estado de bem-estar social e constrói-se um mini estado de bem-estar social na fronteira colonial. Essa foi uma das formas de expandir a colonização do fim da década de 1980 para cá, em que se passou a ter cada vez mais pessoas comuns envolvidas na colonização. Elas não vão colonizar por razões ideológicas ou messiânicas. Obviamente que a ideologia está ali, mas a principal razão é econômica, são pessoas de classe média, seculares, alguns ortodoxos, muitos antissionistas que vão viver na fronteira colonial por razões econômicas. Ali eles têm subsídios do estado e é mais barato. O que conectou, de uma forma muito mais profunda, a sociedade israelense à expansão da colonização da Cisjordânia, por exemplo, é a conexão entre Israel e o neoliberalismo.

Outra característica é a crescente insatisfação da juventude com os políticos de direita, mas, ao mesmo tempo, existe toda uma conexão entre o fundamentalismo judaico e o neoliberalismo – de forma semelhante como temos aqui no Brasil entre o fundamentalismo cristão, principalmente o evangélico, e o neoliberalismo. Isto é uma das bases, por exemplo, do governo de Benjamin Netanyahu e dos partidos de direita e extrema-direita israelenses.

Um bom exemplo de como a característica neoliberal de Israel afeta a política regional são os acordos de Abraão, que são os acordos para a normalização das relações de Israel com as nações árabes – Marrocos, Sudão, Bahrein e Emirados Árabes – que são profundamente fundados na liberalização comercial e na cooperação econômica. Ou seja, não é uma normalização completamente voltada para a construção da paz geopolítica e resolução da questão palestina. É para haver benefícios mútuos aos capitais emiradenses ou israelenses, por exemplo, e dos outros países. Isso é uma das consequências regionais.

IHU – Quanto ao conflito com Gaza, vale recordar o começo em outubro de 2023, quando integrantes do Hamas lançaram mais de 1.500 bombas sobre o território israelense e mataram 1.200 pessoas, especialmente civis, incluindo mulheres, idosos e 33 crianças. Uma resposta militar de Israel era esperada do ponto de vista geopolítico, mas como explicar ou justificar as proporções, uma vez que o último relatório de vítimas publicado pelas autoridades de Gaza fala de 31.200 palestinos assassinados, 72% mulheres e crianças, sendo estas últimas mais de 13.500?

Bruno Huberman – De fato, no passado houve ataques a Gaza que não tiveram essa proporção. Um dos principais motivos foi a proporção do ataque palestino [Hamas]. Os palestinos conseguiram se mobilizar para fazer uma agressão armada de resistência que eles não haviam demonstrado até então e causou mais de mil vítimas entre israelenses e judeus – havia muitos estrangeiros entre essas vítimas também, mas falamos de israelenses de forma geral.

Esse sentimento de vulnerabilidade pegou muitos israelenses e pressionou o governo a dar uma resposta mais contundentes do que a que foi dada, por exemplo, em 2014, que era, até então, o ataque a Gaza mais violento que tínhamos visto.

Outras razões para o ataque é essa coalizão governamental formada por políticos de extrema-direita que têm na desumanização, no desejo de eliminação, no desejo de expropriação do retorno da colonização de Gaza, de roubo da terra dos palestinos e no extermínio dos palestinos uma agenda política importantíssima. Há uma camada da sociedade israelense que está completamente fascistizada – se é que podemos dizer assim. Ou seja, um apoio a um colonialismo extremista. Há várias formas de colonialismo em Israel: mais moderado, mais agressivo e, dentro deste mais agressivo, outros ainda mais extremistas. Tem a particularidade desse contexto que gera uma reação na proporção de genocídio de mais de 30 mil pessoas e dos deslocamentos de milhões de pessoas.

Portanto, tem essa ambição de retomar a colonização e a ocupação de Gaza. Isso está em disputa entre os israelenses claramente, não há um consenso de qual será o desejo final do que eles almejam para Gaza. Está em disputa em relação às demandas americanas e de acordo com a resistência palestina, obviamente. O produto é a síntese entre a agressão colonial e a resistência anticolonial.

Netanyahu na berlinda

O terceiro ponto é um mais particular e diz respeito a Netanyahu, que há anos tem sofrido muita contestação dos setores mais liberais e progressistas da sociedade israelense, que almejam substituí-lo. E ele foi responsabilizado de forma bastante dura por diversos setores da sociedade israelense pelo ataque de 7 de outubro. A inteligência [militar] falhou de forma grotesca. Inclusive, nas primeiras semanas, eu lembro que muita gente levantava essa hipótese, que nada mais é do que uma teoria da conspiração, de que os israelenses teriam permitido isso acontecer para justificar a agressão. Teoria da conspiração, não tem a mínima evidência disso.

O que só demonstra um fator, que vamos esquecendo e que vai ficando no passado, mas tem uma insatisfação muito grande em Israel com o governo Netanyahu e as perspectivas é que, assim que o conflito acabar, seu governo vai acabar também.

De alguma forma, há uma sustentação do governo, a partir desse objetivo de eliminar o Hamas, que é um objetivo militar inalcançável. É possível aprofundar a destruição da infraestrutura urbana na qual a resistência do Hamas repousa, mas eliminar este grupo é impossível, até porque o Hamas não existe só em Gaza. De alguma forma, as lideranças militares e políticas que existem em Gaza podem ser desestruturadas, mas o Hamas vai se organizar, isso é fato. Ele pode, por exemplo, se reorganizar de uma forma mais violenta na Cisjordânia, no exílio, mas isso não importa.

Vejo estes fatores como algumas das principais razões para a escala da violência.

IHU – O que explica o apoio de parte da população civil israelense, incluindo lideranças políticas, jornalistas e celebridades, à “punição em massa” e indiscriminada contra o povo palestino? Não parece haver aí uma repetição da perseguição sofrida por judeus durante a Segunda Guerra?

Bruno Huberman – Certamente há semelhanças à perseguição que os judeus sofriam e que os palestinos sofrem hoje. São dois casos de racismo, no qual o racismo é uma política do estado, assim como era para muitos estados europeus, principalmente o estado alemão nazista. Há uma segregação, diversas leis que apartam e segregam essas minorias, como as leis de Nuremberg. Hoje diversas leis israelenses atuais constituem o apartheid de israelenses aos palestinos.

Mas algo que explica essa dificuldade de conexão para muitos judeus e israelenses que vivem lá, resultando nesse apoio grande da sociedade israelense (pesquisas mostram que pelo menos 75% da sociedade israelense tem apoiado o genocídio em curso), é o que podemos chamar de identitarismo judaico. Isso resulta do sionismo, que é o nacionalismo judeu, que é uma resposta essencialista ao antissemitismo. Ou seja, a libertação é dos judeus e somente dos judeus através da criação de um estado nacional.

E a consequência é que a pedagogia do holocausto e do genocídio, que é para termos memória, lembrar para não repetir, para nunca mais acontecer, não tem eficiência, é barrada pela ideologia sionista, por esse identitarismo judaico que essencializa o judeu e não enxerga o judeu no palestino.

Então, enxerga-se na resistência palestina uma violência antissemita tal qual era a violência do Hitler, uma violência do antissemitismo europeu do século XIX para o século XX. Ou seja, instituiu essa patologia, uma dissonância que não permite interpretar os contextos enquanto contextos semelhantes – de racismo, discriminação, repressão estatal e genocídio – que só enxerga o judeu como perseguido e toda a violência contra o judeu como uma violência antissemita, apesar da posição que o judeu ocupa hoje em Israel e da posição que ocupava na Europa são profundamente distintas: na Europa os judeus eram principalmente a parcela da classe trabalhadora, mas uma população subalterna, mesmo os judeus mais ricos e burgueses, mas eram racialmente oprimidos. Já em Israel ele se constitui numa posição de privilégio, semelhante à posição do branco aqui no Brasil, que constitui uma supremacia judaica, e Israel em um estado que tem como política de Estado o racismo contra os palestinos e a expropriação, a expulsão e a morte dos palestinos.

IHU – Mais de 80 anos separam Gaza do Gueto de Varsóvia. Há muitas diferenças, evidentemente. Mas do ponto de vista das violências contra mulheres, crianças e civis, há semelhanças?

Bruno Huberman – Eu fui perguntado sobre o Gueto de Varsóvia e Gaza no dia 08 de outubro de 2023, dia seguinte ao ataque do Hamas, e eu fiz a comparação. Nessas respostas às entrevistas, como estou fazendo agora, às vezes falamos coisas que não pensamos de forma muito aprofundada.

À época, falei que era comparável e que a situação de Gaza poderia ser até pior, porque envolvia um confinamento de uma população racialmente subjugada num pequeno espaço, essa segregação socioespacial. Era um contexto em que fazia essa comparação e que não tinha todo esse extermínio, de genocídio, como vemos hoje, e onde ninguém morria de fome. Só que as imagens que temos visto e os relatos que temos visto e ouvido sobre a situação atual em Gaza nos remetem, cada vez mais, ao Gueto de Varsóvia, aos campos de concentração, que são espaços nos quais os judeus foram confinados para morrer, assim como os palestinos estão confinados para morrer, seja pelas bombas caindo do céu, seja pela fome ou por tiros.

À medida que Gaza se torna um campo de extermínio, e a possível agressão israelense a Rafah tornará isso ainda mais dramático, possibilita que vejamos semelhanças cada vez mais crescentes entre o que foi o holocausto judeu e o genocídio palestino em Gaza. São semelhanças que vemos nessas características de confinamento, política de morte, tanto através da fome como outras formas, mas infelizmente elas são cada vez mais evidentes.

IHU – Como compreender a paradoxal excepcionalização do holocausto que, ao mesmo tempo, excepcionaliza o povo judeu e torna as ações israelenses quase inimputáveis quanto ao crime de genocídio?

Bruno Huberman – Escrevi a respeito dessa excepcionalização do holocausto, que foi um produto da história mais recente, dos anos 1980 para cá, à medida que Israel foi ganhando força, inclusive nas relações internacionais, e que buscou tornar o holocausto como um genocídio incomparável na história, e faz parte de um esforço semelhante que busca tornar o racismo entre judeus, o antissemitismo, uma forma de racismo particular e excepcional. Então, já existe um discurso anterior de excepcionalização do povo judeu, de os judeus como povo escolhido por Deus. E existe na narrativa judaica uma excepcionalização da perseguição ao povo judeu, como um povo que é historicamente perseguido e tudo mais.

Enfim, não estou querendo contestar a histórica perseguição aos judeus, pelo contrário, ela é parte fundante da identidade judaica e da experiência judaica ao longo da história e do que devemos entender como judaísmo, judaindade. O que ressalto é como esse esforço de excepcionalizar o judeu, o antissemitismo e o genocídio aos judeus resulta na excepcionalização do Estado de Israel. Ou seja, Israel foi criado numa situação excepcional, que era o holocausto, e de uma forma excepcional a Organização das Nações Unidas – ONU decidiu pela criação do Estado de Israel.

Nesse sentido, o Estado de Israel deve ser protegido para proteger esse povo excecional, que são os judeus. E esse discurso não é somente israelense, judaico, é um discurso europeu, ocidental, americano, que foi produzido através de esforços culturais, artísticos, das produções artísticas em torno do que foi o holocausto, mas que o holocausto foi um genocídio contra uma população que embranqueceu – isso é importante para entendermos essa excepcionalidade do holocausto a respeito das representações da história dos genocídios.

Logo quando o holocausto aconteceu e antes desse período de excepcionalização do holocausto a partir dos anos 1980, comparar o holocausto a outros genocídios coloniais e a experiência nazista contra as experiências coloniais que aconteceram historicamente no terceiro mundo era algo dado. Era uma referência direta de como o nazismo foi uma reprodução do colonialismo europeu, que historicamente só existiu fora da Europa. Mas eram os alemães impondo uma relação colonial de escravização, de expropriação de território e de genocídio contra povos racialmente subjugados dentro da Europa – judeus, eslavos, homossexuais e negros – que foram objeto de várias políticas de subjugação e de extermínio.

De alguma forma, excepcionalizar o holocausto serve para os europeus espiarem essa responsabilidade de terem representado como excepcional na história deles, que foi resolvida pela criação do Estado de Israel. Assim, de alguma forma justifica-se a defesa incondicional que eles fazem de Israel, apesar de Israel ser esse estado criminoso, que foi fundado e tem sido mantido a partir da expropriação contínua dos palestinos, da negação de direitos básicos, como a autodeterminação, e chegando até esse genocídio cruel que vemos em Gaza.

A não excepcionalidade do holocausto judeu

Foi um genocídio contra um povo que se embranqueceu, porque os judeus não eram considerados brancos, mas para padrões de diversos povos do mundo, os judeus são brancos. Isso cria uma excepcionalidade. Obviamente, existem particularidades ao genocídio contra os judeus na Europa – eu já comentei aqui –, como o extermínio com câmaras de gás, uma particularidade que não vimos nem antes e nem depois na história.

Mas isso não faz do holocausto judeu um caso excepcional, único na história. A história do século XV para cá, a Modernidade, é repleta por centenas de genocídios: genocídio das populações indígenas, o genocídio armênio, das populações africanas, entre outros – podemos ficar aqui só listando genocídios. Eles terão diversas diferenças e semelhanças entre si, assim como o genocídio do povo alemão contra o povo judeu.

Justificar essa excepcionalização é esse discurso de que os judeus jamais fariam algo que eles sofreram, só que eles fazem. Porque sofrer um genocídio não é um ensinamento de direitos humanos, não significa que alguém se torna um ser humano superior. É uma brutalidade sofrer um genocídio e, possivelmente, ninguém quer passar por um genocídio novamente.

Então, se a sua compreensão histórica é essencialista, como é a do sionismo, e você não enxerga o fim de todas as opressões universalmente no mundo como a forma de impedir que um genocídio contra você ocorra novamente, a solução é você se encastelar num estado ultra militarizado e reprimir todos e todas que buscam retirar você desse castelo de privilégios que você constitui a partir da violência extrema. É isso o que é Israel.

IHU – Primo Levi, um dos sobreviventes do Holocausto, escreveu um livro intitulado É isto um homem, em que ele conta suas experiências em campos de concentração. Inspirado por essa obra, eu gostaria de repetir a pergunta, mas tomando como perspectiva a vida dos palestinos em Gaza: é isto um povo?

Bruno Huberman – Eu nunca li Primo Levi, então, não sei dizer exatamente o que ele quer dizer com esse título. Mas eu imagino que representa a desumanização do que foi o Holocausto, da desumanização dos judeus e, inclusive, dos próprios perpetradores. Envolve uma brutalização do alemão que comete o genocídio pelo regime nazifascista. O colonialismo envolve a brutalização do assassino, a branquitude, o supremacismo branco e tudo mais.

O colonialismo e o nacionalismo são processos que brutalizam o israelense, o judeu, a ponto dele cometer o genocídio e não se sentir culpado ou atormentado, como essas piadas que vemos nas imagens de soldados israelenses, que fazem inúmeras piadas de extremo mau gosto – para dizer o mínimo –, enquanto cometem genocídio. Eles não se enxergam cometendo um genocídio. O que permite esse tipo de cegueira em relação às reações reais e materiais que estão envolvidos? É a cegueira ideológica. A ideologia é o nacionalismo, o supremacismo e o identitarismo, que busquei explicar anteriormente.

Palestinos, apesar da opressão, um povo

A respeito dos palestinos, isso é um povo? É, ué! Os palestinos existem e resistem, são profundamente desumanizados pelo racismo israelense, pelo orientalismo ocidental que os vê como terroristas e como perversos, bárbaros, selvagens e pela profunda islamofobia – como nesse cartoon do Liberación francês [tuíte abaixo], que fez troça do genocídio durante o Ramadã.

O povo palestino é um povo, um povo oprimido e subjugado que almeja sua libertação, dignidade e que faz diversas demonstrações de humanidade, como nesses vídeos que vemos de crianças palestinas dançando dabke, uma dança tradicional, durante o genocídio, tentando manter o mínimo de humanidade. O que me lembra, por exemplo, A Vida é Bela [filme de Roberto Benigni, lançado no Brasil em 1999], em que os personagens e o pai tentam manter uma humanidade mínima para o filho durante o Holocausto. É um povo que continua lutando e que não vai deixar de lutar por dignidade e liberdade.

Porém, essa desumanização gera reações igualmente desumanizadoras, como os atos terroristas. Porque a violência de 7 de outubro não é, por si, um ato terrorista como um todo, eu entendo como um ato de resistência armado que almeja uma descolonização e a libertação nacional, mas que envolve atos cruéis, atentado terrorista e a possibilidade de ter tido violência sexual. Há uma brutalização e desumanização dos palestinos que fazem eles reagirem de uma forma extremamente cruel em relação aos seus opressores. Os palestinos não são superiores porque eles são oprimidos, assim como os judeus não são superiores por terem sido oprimidos; a opressão não faz alguém ser superior, pelo contrário.

IHU – Qual é o plano de Israel para os palestinos, uma vez que eles não podem sair da Faixa de Gaza para o Egito, Israel não os acolhe e agora estão restringindo acesso a toda e qualquer ajuda humanitária, incluindo água potável?

Bruno Huberman – Não há uma clareza de objetivo final, de plano. Ele está sendo redesenhado e disputado pelos setores que compõem a coalizão governamental e a sociedade israelense. É uma intenção de expulsão, Israel tem tentado negociar isso com os egípcios, até proposto o perdão de dívidas do Egito no Banco Mundial e no Fundo Monetário Internacional – FMI.

Existe claramente uma resistência egípcia grande, o [Abdul Fatah Khalil] Al-Sisi é um militar muito experiente, um golpista e ditador, que tem conseguido manter o governo como um ferro e uma brutalidade raramente vistos na história, particularmente na história de seu país. Ele é extremamente opositor da Irmandade Muçulmana, organização aliada do Hamas. Ele não quer os palestinos, porque sabe que, se eles forem, virarão um problema egípcio, mas pode ser que ele venha a ser convencido de alguma forma.

Talvez essa é uma das razões do prolongamento do conflito, que os israelenses estão negociando. Além disso, há essas outras possibilidades de reorganizar o governo de Gaza para permitir uma nova colonização. Enfim, não há clareza, nem para os próprios atores.

IHU – Como vê os movimentos judaicos antissionistas e qual a importância deles no contexto da disputa política no âmbito da opinião pública?

Bruno Huberman – Vejo como muito importantes os movimentos antissionistas judaicos, porque eles revelam como ser judeu, sionista e israelense não é a mesma coisa. Nem todos os judeus apoiam a barbárie israelense, aliás muitos lutam contra a essa barbárie. Aqui no Brasil esta é uma voz que ainda é muito marginal, mas tem crescido e demonstrado sua importância para construir uma imagem do que é a pluralidade real da comunidade judaica no país, que não é somente uma divergência em torno da forma de como apoiar Israel, que é o que vinha se configurando nos últimos anos de um apoio mais incondicional ou mais crítico a Israel.

A voz antissionista traz uma nova perspectiva de solidariedade radical com os palestinos, e a importância da libertação palestina, porque essa é a preocupação central – não é a segurança israelense, é a libertação palestina. Obviamente que a libertação palestina deve envolver uma segurança israelense, mas o que está acontecendo é que a ideia de segurança israelense tem barrado a libertação palestina. É preciso fortalecer a capacidade material dos palestinos de lutarem por sua libertação; esse é um dos objetivos centrais da luta antissionista, seja ela judaica, seja de outras pessoas que se mobilizam em solidariedade aos palestinos e de rejeição do sionismo, nesse entendimento do sionismo como um colonialismo, não somente um nacionalismo judeu de autodeterminação.

Porque o sionismo é um nacionalismo judeu de autodeterminação fundado na colonização dos palestinos e à custa da negação da autodeterminação palestina, da expulsão dos palestinos. Cada um pode entender a questão da forma que desejar, mas a identidade não pode ser formada de uma forma idealista, a partir de uma subjetividade particular, mas a identidade é constituída a partir das relações materiais que determinado grupo social constitui. E o sionismo se constitui materialmente como um projeto colonial na Palestina. Portanto, os sionistas são colonizadores, queiram eles ou não. Essa questão tem que ficar clara, e o movimento judaico antissionista busca evidenciá-la. É por isso que o movimento rejeita o sionismo e essa identidade que constitui o judeu como um colonizador.

Nós rejeitamos o colonialismo, somos anticolonial, porque esse é um compromisso de luta contra todas as opressões e busca resgatar, em certo sentido, essa forma de judaísmo, essa identidade judaica que é fundada na convivência, na solidariedade, na coexistência e no respeito ao outro. Construir essa coexistência da Palestina, uma coisa que precisa ser verdadeira, que a Palestina precisa ser uma exceção na experiência judaica ao redor do mundo. Porque o único lugar em que os judeus vivem em conflitos acirrados no mundo atualmente é na Palestina, por causa do sionismo.

Nosso objetivo é impedir que esse conflito permaneça e que seja possível construir formas harmoniosas e saudáveis de convivência. É o que muitos querem, nem todos. Divergimos das formas de como alcançar isso em relação a grupos sionistas progressistas, por exemplo. Essa é a importância da voz desses grupos sociais, nos quais me incluo.

IHU – Na última sexta-feira, Netanyahu aprovou o plano de ataque à cidade de Rafah, sul da Faixa de Gaza, onde vivem cerca de 1,5 milhão de palestinos refugiados. No domingo, o primeiro-ministro de Israel declarou que não recuaria do ataque, mesmo diante da pressão internacional. Como avalia essas situações? É possível dimensionar o que está por vir?

Bruno Huberman – Se Israel fizer algum ataque total a Rafah e Netanyahu fizer o que está prometendo, chamaremos 2024 de “a segunda Nakba”, a segunda grande catástrofe palestina. Isso é o que parece que eles desejam. Eu sempre me perguntei como podemos viver e como foi viver uma Nakba, como o mundo deixou isso acontecer? E estamos vendo isso a olhos nítidos, como o mundo está permitindo acontecer uma nova Nakba, um novo genocídio. O ataque a Rafah significa isso: uma grande catástrofe, uma grande tragédia, a destruição de Gaza, completa.

Foto: Anadolu Agency

 

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