Seminário na Fiocruz debate protagonismo das mulheres negras

Mario Ferreira Junior, Cedipa/Fiocruz

A Fiocruz promoveu o seminário Julho das Pretas: Equidade, Mulheres Negras e Poder, reunindo trabalhadoras da Fundação, representantes do poder público e ativistas do movimento negro. O evento marcou reflexões sobre o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, comemorado nesta sexta-feira (25/7), mesma data dedicada ao Dia Nacional de Tereza de Benguela, símbolo da resistência negra no Brasil. O encontro está disponível no canal da VideoSaúde no YouTube.

A abertura reforçou o caráter histórico da data, que destaca a luta e o papel da mulher negra na sociedade. Representantes do Eixo de Enfrentamento Étnico-Racial da Cedipa, Luciane Vicente e Maurillia Azevedo, e da jornalista Rita Vasconcelos, da Fiocruz Pernambuco, apresentaram um panorama histórico e social da luta das mulheres negras no Brasil e na Fiocruz, ressaltando a ancestralidade como força de resistência e os avanços conquistados ao longo do tempo. O Julho das Pretas foi promovido pela Coordenação de Equidade, Diversidade, Inclusão e Políticas Afirmativas (Cedipa/Fiocruz) e teve o apoio da Fiocruz Pernambuco, do Comitê Pró-Equidade de Gênero e Raça, da Vice-Presidência de Pesquisa e Coleções Biológicas, do Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos/Fiocruz), do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz), da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz) e do Sindicato dos Trabalhadores da Fiocruz (Asfoc-SN).

Dados do Ministério da Igualdade Racial (2023) indicam que as mulheres negras somam 60,6 milhões de pessoas, representando 28% da população brasileira, mas continuam enfrentando desigualdades estruturais marcadas pela interseção entre raça e gênero. “O movimento de mulheres negras tem sido fundamental para impulsionar conquistas e garantir avanços. Esse encontro é espaço de fortalecimento coletivo e de reafirmação do compromisso com a equidade”, explica a integrante do Comitê Pró-Equidade de Gênero e Raça da Fiocruz, Luciana Lindenmeyer.

Primeira mulher negra a assumir a direção de uma unidade da Fiocruz no Rio de Janeiro, Mychelle Alves ressaltou o pioneirismo de servidoras negras que ocuparam cargos de liderança na instituição, como Marilda Gonçalves, ex-diretora da Fiocruz Bahia (2017–2025), e Zélia Profeta, ex-diretora da Fiocruz Minas (2013–2021).  “Embora nossa instituição tenha uma trajetória centenária, só recentemente começamos a observar mudanças significativas na composição dos espaços de decisão. Hoje, liderar uma unidade representa não apenas uma conquista pessoal, mas um compromisso coletivo com a promoção da equidade”, destacou.

A vice-presidente de Pesquisa e Coleções Biológicas da Fiocruz, Alda Maria da Cruz, defendeu ampliar a representatividade, incluindo pessoas LGBTQIA+ e com deficiência. “A Fiocruz tem dado passos importantes, mas o compromisso deve ser contínuo. Não basta não ser racista, é preciso ser antirracista”, enfatizou.

Ainda na manhã, a coordenadora da Cedipa, Hilda Gomes, celebrou a presença expressiva de mulheres negras e trans e defendeu que “essa representatividade seja naturalizada como fruto de uma construção coletiva”, disse. Ela também convidou o público para um minuto de silêncio em homenagem à artista Preta Gil e ao servidor Adilson Sampaio, da Fiocruz Bahia, que faleceram na última semana.

15 anos do Estatuto da Igualdade Racial

A conferência 15 anos do Estatuto da Igualdade Racial: memórias de lutas coletivas, avanços e desafios foi apresentada pela diretora do Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial do Ministério da Igualdade Racial, Tatiana Dias Silva. Ela lembrou que o Estatuto, criado pela Lei 12.288/2010, garantiu marcos como a Lei de Cotas (12.711/2012) e a reserva de vagas em concursos públicos para pessoas negras (Lei 12.990/2014), além da criação do ODS 18 – Igualdade Étnico-Racial, anunciado pelo Brasil na ONU em 2023.

“Apesar dos avanços, as desigualdades raciais persistem em áreas como educação, renda e mercado de trabalho. Precisamos pensar igualdade racial em todas as políticas: transporte, economia, reforma tributária. Toda ação pública pode reduzir desigualdades ou reproduzi-las”, avaliou.

Tatiana também citou desafios contemporâneos como racismo ambiental, racismo algorítmico e a necessidade de um orçamento sensível à raça, além de instrumentos de monitoramento que assegurem efetividade. “Não basta ter gestores comprometidos; é preciso garantir que orçamento, avaliação e monitoramento incorporem a perspectiva racial”, concluiu.

Ocupando espaços de poder 

Na mesa Mulheres negras movendo estruturas: poder, justiça e bem-viver, mediada por Roseli Rocha, da Cedipa, e Luciana Lindenmayer, do Comitê Pró-Equidade de Gênero e Raça da Fiocruz, a coordenadora do Movimento Negro Unificado (MNU), Rosa Negra, destacou a importância das mobilizações nacionais, como a Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial e a Marcha das Mulheres Negras, que ocorrerá em novembro. “Bem-viver é ter segurança, alimentação, saúde e educação de qualidade em um país sem racismo. Onde estivermos, precisamos falar de racismo”, destacou. Ela também citou a filosofia Ubuntu: “Eu sou porque nós somos. Uma sobe e puxa a outra. Representatividade e acolhimento importam”.

A deputada estadual Renata Souza (PSOL-RJ), autora da Lei 9.847/2022, que incluiu o Julho das Pretas no calendário do Rio, ressaltou: “A presença das mulheres negras na política desafia estruturas históricas e exige enfrentamento à violência política de gênero e racial. Seguimos ocupando esses espaços e lutando por políticas que promovam transformação real”.

A vice-presidente de Educação, Informação e Comunicação da Fiocruz, Marly Cruz, compartilhou sua trajetória de vida. Nascida no Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) e vindo de uma família em situação de pobreza, foi a primeira a chegar à universidade. “Ocupar espaços de poder exige mais do que competência; significa enfrentar racismo institucional, ausência de letramento racial e tensões permanentes. Poder não está só no cargo, mas na capacidade de influenciar e transformar”, ressaltou.

Marly destacou que a presença de pessoas negras em cargos estratégicos ainda é insuficiente. Ela apresentou dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), segundo os quais apenas 6,6% dos postos de liderança no Brasil são ocupados por pessoas negras, embora elas representem a maioria da população. “O número cresce, mas continua sendo muito pequeno. E não se trata apenas de quantidade, mas da forma como nos inserimos e transformamos esses espaços para que sejam, de fato, democráticos e justos”, completou.

Luta em movimento

A programação contou ainda com uma roda de jongo, manifestação cultural afro-brasileira que combina música e dança e reafirma identidade e memória coletiva. O encontro foi encerrado com um chamado à mobilização para a Marcha Nacional das Mulheres Negras, que será realizada em 27 de julho, no Rio de Janeiro, e em 25 de novembro, em Brasília, reafirmando que a luta por equidade racial e direitos permanece como pauta essencial para o fortalecimento da democracia no país.

Imagem: A programação contou também com uma roda de jongo, manifestação cultural afro-brasileira que combina música e dança e reafirma identidade e memória coletiva (Foto: Cedipa/Fiocruz)

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