Passei cinco dias na prisão do deserto de Israel. Por David Adler

Juntei-me a uma flotilha para entregar ajuda humanitária a Gaza. Depois que as forças israelenses tomaram nosso barco, passei cinco dias na prisão de Al-Naqab, testemunhando a crueldade do sistema prisional israelense.

Na Jacobin

O co-coordenador-geral da Internacional Progressista, David Adler, foi libertado da prisão israelense. Neste relato exclusivo, ele descreve a violenta interceptação da Flotilha Global Sumud pelas forças de ocupação israelenses e relata como seus integrantes foram submetidos a abusos durante a detenção, incluindo espancamentos; confinamento solitário; privação de comida, água e medicamentos; e abuso psicológico. Embora o calvário seja insignificante em comparação com a brutalidade sistemática enfrentada por milhares de reféns palestinos todos os dias, ele oferece um vislumbre da impunidade institucionalizada com a qual o regime israelense opera.

Esta é uma transcrição de um áudio que foi editada levemente para maior clareza.


Aqui é David Adler, agora em Amã, na Jordânia, tendo sido recentemente libertado de um campo de concentração no deserto de Naqab, onde fiquei preso com centenas de outros participantes da Flotilha Global Sumud por cinco dias em condições horríveis que ainda não foram relatadas.

Fomos interceptados ilegal e violentamente pelas forças navais israelenses. Muitas dessas interceptações foram flagradas por câmeras de segurança. Outras não, como o caso do nosso Ohwayla, que foi alvo de uma barcaça que tentou destruir e afundar nosso barco. Nossos pertences e barcos foram roubados. Fomos sequestrados, despidos, amarrados com abraçadeiras de nylon, vendados e enviados para um campo de concentração, em uma van da polícia, sem acesso a comida, água ou apoio jurídico. Nos cinco dias seguintes, intermitentemente, fomos torturados psicologicamente.

Pessoas eram retiradas individualmente de suas celas e regularmente espancadas, algemadas, com tornozelos presos e deixadas em confinamento solitário. Isso acontecia muitas vezes ao longo de muitos dias. Nos eram negadas as coisas mais básicas, como o acesso essencial à insulina para os detentos diabéticos que faziam parte da flotilha. Em suma, éramos tratados como terroristas, exatamente como o ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, havia prometido.

Desde o primeiro momento em que pisamos em terra após a interceptação, fomos violentamente forçados a nos ajoelhar em posições de submissão. Os dois judeus da flotilha foram pegos pelas costas e arrancados do grupo para uma sessão de fotos com Ben-Gvir — olhando para a bandeira do Estado de Israel e sendo provocados por seus capangas. Assim começou um pesadelo de cinco dias de violações em série e sistemáticas dos nossos direitos mais básicos. Os relatos variavam de acordo com os diferentes blocos de celas. Mas um relato consistente é que a todos nós foi negado comida e água. Em todos os momentos, tivemos o acesso a medicamentos negado com base nos caprichos de cada policial que trabalhava nos diferentes turnos.

Quaisquer pedidos de atendimento médico foram negados ou adiados por tempo indeterminado. Não tivemos acesso a advogados ou representação legal. Os serviços consulares não conseguiram nos comunicar nenhuma informação sobre nossa condição. É evidente que outros instrumentos de guerra psicológica foram utilizados contra nós.

Os trabalhadores humanitários que faziam parte da flotilha não foram levados para uma prisão comum. Foram levados para o deserto de Naqab, perto da fronteira com o Egito. Ouvíamos F-16 e F-35 sobrevoando Gaza todas as noites. Ouvíamos latidos de cães que nos ameaçavam diariamente. Todos os dias, grupos de choque vinham às nossas celas com gás lacrimogêneo, equipamentos antimotim e pastores alemães para nos aterrorizar.

Essas não eram condições prisionais normais. É claro que tudo isso não chega perto do tratamento que os palestinos recebem diariamente. Onze mil deles estão em detenção por tempo indeterminado neste momento, inclusive no mesmo campo de concentração onde fomos mantidos por Israel como terroristas.

Mas o que não foi relatado até agora é a forma como os trabalhadores humanitários foram tratados. Nunca nos disseram que havíamos cometido um crime. Nunca vimos um juiz com um advogado e um promotor. Vimos um juiz que perguntou: “Vocês querem ir para casa?” E nós dissemos: “Claro que queremos ir para casa. Não pedimos para vir para cá. Fomos capturados, sequestrados e enviados para cá ilegalmente.”

Portanto, é fundamental analisar como são as condições normais neste campo. Quem foi mantido naquele campo? Por que fomos enviados para lá? O que as pessoas neste campo sofrem? Nossa detenção revela o quão desonesto o Estado de Israel se tornou em seu total desrespeito ao direito internacional humanitário básico que deveria nos proteger.

Essa é a mensagem crucial que estamos tentando enviar agora, da delegação estadunidense e de outros que acabaram de ser liberados hoje, no caso da delegação estadunidense, com absolutamente nenhuma mobilização consular. Chegamos à fronteira com a Jordânia e o cônsul-geral dos EUA disse: “Não somos suas babás. Vocês não têm comida, nem água, nem dinheiro, nem telefone, nem avião, nem visto. Vamos levá-los direto para o aeroporto, e vocês estão por conta própria. Não somos suas babás.” Repetiram isso quatro ou cinco vezes, como se precisássemos que nos dissessem.

Este é o tipo de pesadelo Ben-Gviriano-Trumpiano que temos vivido nos últimos dias. No final, Ben-Gvir conseguiu o que queria com este grupo de ativistas, professores, enfermeiros, médicos e pessoas do mundo todo que estavam apenas tentando entregar essa ajuda — fomos tratados como terroristas.

David Adler é economista político e coordenador geral da Internacional Progressista.

Imagem: Artistas palestinos pintam grafites representando a Flotilha Global Sumud na parede de um prédio para dar suporte à iniciativa, que tentou levar ajuda humanitária a Gaza, em Deir al-Balah, Gaza, em 3 de outubro de 2025. (Abdalhkem Abu Riash/Anadolu via Getty Images)

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