A operação militar conduzida pelos Estados Unidos contra a Venezuela, na madrugada de 3 de janeiro de 2026, ultrapassou em muito os limites de uma intervenção regional. Ela se impôs como um ponto de inflexão da geopolítica global na atualidade, devendo ser compreendida não como um episódio isolado, mas como o primeiro teste concreto da chamada “ordem mundial multipolar”. O sequestro do presidente Nicolás Maduro, sob o pretexto de “combate ao narcoterrorismo”, representou a aplicação prática de uma nova e agressiva doutrina de segurança norte-americana para o Hemisfério Ocidental. Trata-se de um marco que redesenha não apenas o equilíbrio regional na América Latina, mas os próprios limites da soberania, do direito internacional e da autonomia latino-americana.
As consequências dessa ação são multifacetadas e vão desde tentar reafirmar a hegemonia estadunidense até a tentativa de constrangimento estratégico de potências como China e Rússia. Para compreender a profundidade desse evento, é necessário dissecar a anatomia da operação, suas táticas, seus discursos justificadores e, sobretudo, suas motivações reais, e, a partir daí, entender como esse choque se articula com a Doutrina Trump, com o reposicionamento global dos Estados Unidos e com a resposta, ambígua e limitada, do governo Lula como liderança na América Latina.
A chamada operação “Absolute Resolve” revela, em sua execução e em suas narrativas, os contornos da nova doutrina de segurança de Washington. A escolha da data não foi aleatória. O dia 3 de janeiro remete diretamente à captura de Manuel Noriega, no Panamá, em 1990, reforçando a percepção de um padrão histórico de intervencionismo norte-americano na região. Descrita como “rápida” e “cirúrgica”, a operação teria sido executada em cerca de uma hora, com alto grau de planejamento e o emprego intensivo de tecnologia avançada, supostamente neutralizando as defesas venezuelanas antes que qualquer resposta coordenada fosse possível. A ofensiva começou com um ataque cibernético de grande escala que derrubou parte do sistema elétrico de Caracas, silenciou os radares do país e tornou vulneráveis as baterias antiaéreas, inclusive os sistemas S-300 de fabricação russa.
Na sequência, comandos de elite, como a Força Delta e o 160º Regimento de Aviação de Operações Especiais, os “Night Stalkers”, lideraram a incursão terrestre e aérea. Uma força-tarefa composta por cerca de 150 aeronaves concentrou seus ataques no Forte Tiuna, o maior complexo militar de Caracas e sede da residência presidencial, e na base aérea de La Carlota. Com a defesa aérea neutralizada, helicópteros atacaram diretamente a residência, resultando no sequestro de Maduro e da primeira-dama, Cília Flores, que foram extraídos para o USS Iwo Jima, no Caribe e, posteriormente, levados para Nova York. Apesar da narrativa inicial de operação sem confronto, houve resistência em terra, sobretudo no Forte Tiuna, e os combates teriam resultado de acordo com as informações divulgadas em cerca de quarenta soldados cubanos mortos, entre militares e civis. Ao que tudo indica há muitas suspeitas de cooperação interna e vazamento de informações nas linhas de comando no exército venezuelano.
A Casa Branca procurou justificar o ataque por uma narrativa jurídica específica, enquadrando o governo Maduro como “Narcoterrorista” e a ação como operação antiterrorismo. Essa manobra teria permitido ao governo Trump contornar a exigência constitucional de aprovação do Congresso para uma declaração formal de guerra, alegando ameaça direta à segurança nacional dos Estados Unidos. No entanto, esse pretexto encobre imperativos geopolíticos mais profundos. O primeiro é o controle de recursos estratégicos, em especial as maiores reservas de petróleo do mundo, além de vastas jazidas de gás e ouro. O segundo é a reafirmação da hegemonia regional por meio de uma atualização explícita da Doutrina Monroe, rebatizada como “Doutrina Don-Roe”, cujo objetivo central é isolar a América Latina da influência de competidores comerciais não hemisféricos. O terceiro é conter a presença chinesa e russa no “quintal” norte-americano, neutralizando investimentos chineses (rota da seda) e sinais de presença militar russa (defesa antiaérea).
Contrariando as expectativas dos EUA, a captura de Maduro não teria provocado um colapso imediato do Estado venezuelano. Pelo contrário, o chavismo demonstrou resiliência institucional. Seguindo um roteiro previamente estabelecido, a vice-presidente Delcy Rodríguez assumiu tarefas presidenciais, enquanto as Forças Armadas Nacionais Bolivarianas, sob a liderança do ministro da Defesa Vladimir Padrino, e o Tribunal Superior de Justiça reafirmaram a legitimidade de Maduro como presidente, ainda que sequestrado. Essa continuidade garantiu a coesão do núcleo dirigente, embora a ascensão de Rodríguez introduza tensões internas, pois sua liderança, vista como mais pragmática e potencialmente inclinada a negociar com os Estados Unidos, reabre a disputa entre resistência e acomodação forçada.
Em paralelo, a fragilidade da defesa venezuelana durante o ataque tornou-se objeto de controvérsia e muitas suspeitas internas. A hipótese predominante atribui o fracasso à superioridade cibernética norte-americana, capaz de cegar radares e desarticular sistemas antiaéreos, expondo uma defasagem crítica na guerra tecnológica. A hipótese alternativa, amplamente explorada pela imprensa norte-americana e ocidental, sugere colaboração interna, com relatos sobre recrutamento de informantes e uso de recompensa milionária para subornar oficiais. Autoridades venezuelanas, contudo, negam indícios de traição nas altas esferas.
No plano internacional qual é o cenário?
No plano internacional, a operação coloca em questão a própria ideia de multipolaridade. China e Rússia reagiram de modo duro no plano diplomático, mas não intervieram militarmente. A China declarou considerar ataques a parceiros estratégicos como ameaças a seus interesses, enquanto Moscou limitou-se à condenação política. Ambos revelaram constrangimentos estratégicos: a Rússia absorvida por seu entorno imediato, sobretudo a Ucrânia, e a China concentrada em seu projeto de desenvolvimento de longo prazo. Ficou evidente que suas parcerias estratégicas não constituem um guarda-chuva de segurança comparável ao da OTAN. A percepção de abandono, sintetizada pela frase atribuída a Maduro, “nós estamos por nossa conta”, reforça o caráter desmoralizante do episódio para o BRICS+.
Mais grave ainda foi o impacto sobre o direito internacional. A ação unilateral dos Estados Unidos foi interpretada como o momento em que as normas globais e a Carta da ONU deixaram de operar de forma efetiva, sendo substituídas de vez pela lógica do “mais forte” e do “cada um por si”. Esse precedente abre espaço para que outras potências adotem comportamentos semelhantes em suas esferas de influência, oferecendo à Rússia maior margem de manobra na Ucrânia, à China maior viabilidade percebida para ações contra Taiwan e a Israel a ação contra o Irã e em Gaza.
E a América Latina nisso tudo?
Na América Latina, as consequências são ainda mais diretas. A operação foi lida como recado inequívoco para toda a região, reativando a Doutrina Monroe em sua forma mais crua. O temor expresso por um diplomata mexicano, “se a Venezuela cair, nós somos os próximos”, sintetiza a percepção de vulnerabilidade generalizada. Países que busquem maior autonomia estratégica ou aprofundem relações com China e Rússia passam a se ver como potenciais alvos, sendo forçados a escolher lados como na Guerra Fria. As projeções apontam para um futuro marcado por instabilidade e por um processo de “gendarmerização” das forças armadas latino-americanas, convertidas progressivamente em forças de segurança interna, esvaziadas de capacidades ofensivas reais. O ataque à Venezuela funcionou como prova de conceito dessa estratégia. A mensagem é clara: a busca por soberania militar convencional torna-se fútil, empurrando os países para um papel subordinado de controle interno alinhado aos interesses dos EUA.
A Doutrina Monroe, revisitada em uma chave atualizada, aparece então como barreira estratégica contra a penetração econômica, tecnológica e política chinesa. A pressão sobre infraestruturas estratégicas, como no caso do Canal do Panamá, exemplifica a combinação de coerção e reconfiguração econômica sem necessidade de invasão em larga escala. Ao lado disso, o interesse por recursos naturais e cadeias de abastecimento críticas fortalece uma lógica neoextrativista, na qual a América Latina é tratada como reserva de insumos essenciais à segurança industrial e tecnológica norte-americana, e países como o Brasil, com grandes reservas de terras raras, tornam-se peças relevantes nesse tabuleiro.
Para operacionalizar essa doutrina, os EUA mobilizam um repertório de guerra que combina demonstração de força, presença militar, coerção econômica, intervenção política e apoio a mudanças de regime. A “diplomacia das canhoneiras” reaparece simbolizada por porta-aviões no Caribe e por exercícios militares; operações justificadas pelo combate ao narcoterrorismo funcionam como mecanismos permanentes de pressão; e a disposição de apoiar forças locais para promover mudanças de regime permanece como alternativa concreta. A aplicação dessas ferramentas varia conforme a postura dos países: aliados ideológicos recebem apoio financeiro e político, adversários enfrentam sanções, bloqueios e desestabilização, enquanto países com maior peso regional, como Brasil e México, são tratados por uma combinação de pressão e negociação. Um elemento distintivo é a centralidade da afinidade ideológica, traduzida em apoio explícito a forças conservadoras e em intervenções abertas em processos políticos e eleitorais. Ainda assim, essa aposta ideológica comporta risco: em certos contextos, a interferência pode fortalecer lideranças que se apresentam como defensoras da soberania nacional, revelando limites e contradições dessa própria estratégia.
É dentro desse cenário que pode ser lida a posição do governo Lula no Brasil. Sua resposta à operação contra a Venezuela expressa contradições estruturais da diplomacia brasileira: limites objetivos, ambições estratégicas e uma margem estreita de manobra em um sistema internacional que opera agora explicitamente pela coerção. Desde o início, Lula adotou uma postura de condenação diplomática formal, reafirmando princípios clássicos da política externa brasileira, como soberania, não intervenção e solução pacífica de conflitos. O Itamaraty classificou a ação norte-americana como violação grave da ordem internacional e alertou para o risco de desestabilização regional. No entanto, essa condenação permanece no plano discursivo e institucional, sem se traduzir em ações concretas de contenção, mediação eficaz ou liderança regional ativa. É a tentativa de preservar autonomia retórica sem romper com a arquitetura real de poder: o Brasil condena, mas não confronta; critica, mas não organiza resistência; defende o direito internacional, mas reconhece, na prática, sua erosão.
Princípios sem poder: a resposta ambígua do Brasil
No plano regional, o governo Lula buscou articular respostas por fóruns latino-americanos, como CELAC e UNASUL, mas encontrou um cenário profundamente fragmentado, atravessado por governos de orientações divergentes, muitos deles alinhados direta ou indiretamente aos interesses dos EUA. Isso impediu qualquer resposta coletiva robusta e revelou que o Brasil, embora possua peso histórico, hoje carece de base regional para sustentar posição mais assertiva. Ao mesmo tempo, o governo evitou gestos que pudessem ser interpretados como alinhamento automático a Caracas. Reconheceu a gravidade do sequestro de Maduro, mas mantém distância política do chavismo, ciente de que uma defesa explícita poderia ser explorada internamente e externamente para desgastar o governo e o projeto de Lula que é a reeleição em 2026, sobretudo junto às elites econômicas nacionais, à mídia internacional e aos Estados Unidos. Assim, opta por uma posição intermediária: condena a ação, mas não transforma a invasão da Venezuela como um exemplo de futuro problema estratégico de segurança nacional.
Esse comportamento não se explica apenas por prudência, mas por falhas estruturais de diagnóstico e estratégia na política externa brasileira para a América Latina. Um primeiro possível equívoco do governo Lula 3 foi superestimar o prestígio histórico acumulado nos governos anteriores, operando como se o Brasil ainda fosse automaticamente o líder natural da América do Sul. O cenário em 2026 é outro, mais polarizado, menos integrado e fortemente penetrado por interesses externos. Liderança, agora, exige coordenação material, incentivos econômicos, instrumentos de pressão e disposição para assumir custos. O governo Lula 3 apostou no capital simbólico, mas não reconstruiu mecanismos concretos de liderança.
O segundo possível erro foi insistir em tratar atualmente organismos regionais geopoliticamente esvaziados como instrumentos eficazes. Diferente de 2003 a 2015, atualmente a UNASUL e a CELAC funcionam mais como arenas de retórica do que como instrumentos de poder, e a crise venezuelana expôs brutalmente essa limitação. O terceiro possível equívoco foi manter uma diplomacia excessivamente normativa em um mundo regido pela força. O governo insistiu na defesa abstrata do direito internacional e da não intervenção como se ainda fossem limites efetivos às grandes potências, quando a intervenção na Venezuela mostra que, no Hemisfério Ocidental, essas normas já não operam como freios reais. O quarto possível erro foi a política sistemática de evitação de conflito. Ao não sinalizar custos políticos relevantes para ações unilaterais, o Brasil perdeu capacidade dissuasória e reforçou a percepção de que a América Latina é um espaço politicamente dócil. Por fim, com a postura ambígua diante da Venezuela ao longo dos últimos três anos, o governo Lula 3 transformou a Venezuela em problema incômodo a administrar, e não em caso-limite que redefine os parâmetros da soberania latino-americana.
Junto aos aspectos diplomáticos isso se soma a negligência diante da dimensão militar e tecnológica do Brasil diante da nova dinâmica geopolítica. A política externa brasileira segue dissociada da política de defesa, ignorando que soberania hoje depende de inteligência, guerra cibernética, tecnologia e dissuasão. Sem essas capacidades, a diplomacia torna-se exercício retórico sem lastro estratégico, incapaz de oferecer alternativas regionais de cooperação em segurança ou proteção da autonomia latino-americana. Por fim, além da falta de um projeto popular e soberano de país por parte do governo Lula 3, permanece a ausência de um projeto próprio para a América Latina. O governo Lula 3 buscou equilibrar relações com EUA e com a China, mas não construiu uma proposta regional capaz de reduzir dependências estruturais. Sem um projeto econômico, tecnológico e político comum, os países tendem ao alinhamento bilaterais com grandes potências, enfraquecendo a ação coletiva e ampliando a vulnerabilidade da América Latina.
Em síntese, a operação dos Estados Unidos contra a Venezuela não apenas está testando os limites da ordem multipolar, mas expôs suas fragilidades. Ao dissolver, na prática, normas do direito internacional e reafirmar a “Doutrina Monroe 2.0” pela força, EUA e o governo Trump inauguram de vez uma nova fase da geopolítica no século XXI, na qual a superioridade tecnológica, sobretudo cibernética, se consolida como instrumento central de imposição hegemônica. Nesse contexto, o governo Lula segue reafirmando princípios com base no discurso e notas oficiais, mas sem capacidade de transformá-los em poder. Há de se parar com crenças pequeno burguesas progressistas, pois o episódio da Venezuela demonstra que, no novo ciclo geopolítico global, o pragmatismo, o vício conciliatório e a governabilidade usada como dogma de uma vez por todas não garantem proteção, nem liderança.
Organização popular em um mundo onde as regras já não protegem
Além de Cuba, Nicarágua, Colômbia e Groenlândia estarem correndo sérios riscos de ataque dos EUA a curto prazo no xadrez geopolítico global, também temos que prestar muita atenção em relação as ofensivas sobre o Irã. Sigamos essa prosa atentos e fortes, e que enquanto forças populares a gente consiga se organizar, pois vamos precisar.
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