O cálculo de Caiado e Kassab

Aparente fragmentação da direita revela algo a mais. Centrão aposta em reorganizar a direita e se libertar dos Bolsonaro, pensando em 2030. No curto prazo, busca ampliar bancada, projetar candidato próprio e testar sua força – para negociar, com Lula ou Flávio, o segundo turno

Por Glauco Faria, em Outras Palavras

No final de janeiro, o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, anunciou sua saída do União Brasil e, em seguida, sua filiação ao PSD. A justificativa foi o fato de sua hoje ex-legenda, dentro da recém-formada e ainda não oficializada federação União Progressista, inviabilizar sua possível candidatura à Presidência da República.

A principal resistência viria do novo partido parceiro do União Brasil, o PP. O presidente nacional da sigla, Ciro Nogueira, um dos principais aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), tentou por meses fazer com que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), fosse o candidato que unificasse o campo da direita/extrema direita. Faltou combinar com o antigo ocupante do Palácio do Planalto, hoje condenado e preso por seu envolvimento na trama golpista, que decidiu não abrir mão de seu capital político em torno de promessas a favor de uma incerta anistia ou indulto.

Com a consolidação da pretensão presidencial do senador Flávio Bolsonaro, o sonho de uma chapa que unisse radicais e o Centrão desmoronou. Agora, a estratégia anunciada por parte desse segmento seria lançar mais de um nome na corrida, e a receita de sucesso seria o que aconteceu na disputa do Chile, onde o campo da direita se dividiu no primeiro turno e se aglutinou em torno de José Antonio Kast no segundo, para garantir sua vitória. Contudo, a conta não é tão simples e o contexto brasileiro é bem diferente do chileno. Diversos interesses, partidários e regionais, vão entrar em conflito no processo de sucessão e nem todos se sentem confortáveis com uma solução que não foi negociada, demonstrando uma divisão que vai além dos imediatos objetivos eleitorais e alcança o que algumas legendas pretendem se tornar no futuro.

O recado dos radicais

Um exemplo da insatisfação veio à tona de forma caricatural, como se caracterizam inúmeras performances políticas dos extremistas. Nesta terça-feira (3), o deputado estadual paulista Gil Diniz (PL) decidiu incluir o sobrenome “Bolsonaro” à sua identificação na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), reafirmando sua pré-candidatura ao Senado. A “homenagem”, segundo ele, serve ainda ao propósito de “marcar posição de que defende o presidente Bolsonaro e sua família”.

“Aos oportunistas que foram eleitos lá atrás surfando na onda Bolsonaro, quando eram pequenininhos se arrastavam, eram ‘bolsonaristas de corpo e alma’. Alguns chegavam a dizer que ‘eram mais Bolsonaro que os próprios filhos do presidente Bolsonaro’ e que hoje se escondem, não falam nada, não dão apoio público à indicação do presidente Bolsonaro. Tá todo mundo vendo, seus covardes”, disse ele, aliado ferrenho do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro dentro da sigla, em seu discurso no plenário da Casa.

O recado tem múltiplas funções. Verbaliza um incômodo da base mais estritamente ligada a Bolsonaro com figuras políticas que hesitam em prosseguir na barca do ex-presidente e acena para seu ainda forte eleitorado, buscando lucrar eleitoralmente em outubro. É ainda uma tentativa de pressionar politicamente o ex-ministro de Bolsonaro, cria política sua, Tarcísio de Freitas. Uma pressão que visa reforçar seu compromisso público com o clã e a candidatura de Flávio, mas também uma espécie de “resgate”, para que ele volte a servir de forma plena ao bolsonarismo, deixando de hesitar entre os radicais e a influência das legendas do Centrão.

Com uma vaga do Senado na chapa do governador e candidato à reeleição destinada ao PP, na composição que tem o ex-secretário de Segurança Pública e deputado federal Guilherme Derrite como postulante, o PL paulista pleiteia algo que vá além da outra vaga, mirando o cargo de vice na chapa, ocupado hoje pelo ex-prefeito de São José dos Campos, Felicio Ramuth, do PSD.

A articulação não é escondida, sendo anunciada publicamente pelo presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, que trabalha pela indicação do atual presidente da Assembleia Legislativa do estado, André do Prado. “O partido e a bancada vão trabalhar pelo André”, aponta Valdemar ao jornal Folha de S. Paulo. Enquanto o dirigente partidário dava aparência de uma negociação tradicional na esfera política, Diniz mostrava a outra faceta do segmento, ironizando uma declaração de Tarcísio na qual afirmava que seria positivo mais de um candidato do campo da direita se lançar à Presidência da República, já que todos se uniriam contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em um eventual segundo turno.

“Essa mesma lógica vale para o governo de São Paulo? Porque, se vale para o governo de São Paulo, vale a pena o Partido Liberal ter um candidato também, porque ajuda a chapa de [deputado] estadual, ajuda a chapa de [deputado] federal. O Partido Liberal é o maior partido do estado de São Paulo e o maior partido do Brasil”, ameaçou o parlamentar. Embora a afirmação sobre a grandeza do PL possa ser questionada em muitos aspectos, a legenda tem as maiores bancadas na Câmara dos Deputados e na Alesp, sendo fundamental para a vitória de Tarcísio em votações mais acirradas na Casa.

Entre o histrionismo e a velha negociação

A dupla tática do PL, de transitar pela política tradicional e fazer, ao mesmo tempo, o jogo performático histriônico característico das redes sociais, representa o que hoje é o ethos do partido, que acolheu o bolsonarismo após o desentendimento do ex-presidente com o PSL e a frustrada tentativa de fundar uma nova sigla. De uma agremiação típica do Centrão, que já havia ocupado a Vice-Presidência da República no primeiro mandato de Lula, tornou-se o refúgio preferencial da extrema direita, o que lhe rendeu crescimento em termos de importância e também as maiores fatias dos fundos partidário e eleitoral. Valdemar Costa Neto enxergou um nicho lucrativo e o abraçou.

Porém, para outros partidos do campo da direita/centro-direita, a aproximação com o campo delimitado pelo clã do ex-presidente limita sua atuação. Não é à toa que parte desse grupo via em Tarcísio uma saída para seu dilema, uma espécie de distanciamento saudável do extremismo sem perder seus votos. Além de ser mais confiável nas tratativas políticas do que seu instável ex-chefe, o governador paulista ganhou a simpatia da Faria Lima ao promover privatizações e traduzir a retórica liberal em prática, sem as perturbações usuais de seu mentor. Ainda que tenha nascido e se formado politicamente no seio do extremismo, sua imagem suavizada permite que trilhe caminhos típicos da direita radicalizada em áreas como a Segurança e a Educação, com a adoção, por exemplo, do modelo cívico-militar em unidades de ensino, mas se passando por “moderado”.

Foi o sonho dessa candidatura presidencial que embalou o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab. Com a recusa do governador em assumir uma pretensão que não seria encampada pelo clã Bolsonaro, o ex-prefeito da capital paulista, na maioria do tempo discreto e afeito a negociações de bastidores, falou de forma velada, mas nem tanto, sobre uma eventual “submissão” do governador ao bolsonarismo, algo rebatido publicamente por Tarcísio. “É fundamental que ele [Tarcísio] tenha a sua identidade. Uma coisa é gratidão, reconhecimento, lealdade. Outra coisa é submissão. E acredito que ele pensa assim também”, disse, em entrevista ao portal UOL.

Poucos fariam tal comentário a respeito do próprio chefe de forma tão aberta – Kassab é secretário de Relações Institucionais do governo paulista –, mas o fato é que o dirigente pretendia ter uma posição de destaque na campanha malograda ao Planalto, como uma espécie de copiloto de um projeto que escantearia ou colocaria em segundo plano o bolsonarismo. Frustrada a tentativa, agora o objetivo é outro.

Para entender a movimentação do PSD, o que inclui a manobra de acolher Ronaldo Caiado, é preciso resgatar as origens da legenda. Tido como um hábil negociador, que sabe para onde o vento da política sopra, Kassab se aproximou do PT após ser seu principal rival na cidade de São Paulo, quando derrotou Marta Suplicy nas eleições municipais de 2008. Rompeu com seu antigo partido, o DEM (ex-PFL, mais tarde fundido ao PSL para formar o União Brasil), para criar, em 2011, o PSD.

Com a nova sigla, virou uma legenda governista na ocasião e promoveu uma diáspora de oposicionistas rumo à gestão da então presidenta Dilma Rousseff. Em 2014, o partido oficializou seu apoio à reeleição da presidenta e foi o último a desembarcar do governo antes da votação da abertura do processo de impeachment na Câmara dos Deputados. Ao pedir demissão, em carta pública, de seu cargo de ministro, alegou que se tratava de uma decisão partidária em prol do impedimento da presidenta. “Diante disso [decisão do PSD], minha permanência à frente do Ministério das Cidades é insustentável, conflita com a decisão do meu partido e me leva a abrir mão do cargo, independentemente do resultado da votação do próximo domingo”, afirmou. “Como V.Exa. já reconheceu, há necessidade premente de um pacto nacional para que o País possa superar suas dificuldades políticas e retomar seu desenvolvimento. O PSD não apenas concorda, mas apoia e lutará com todas as suas forças por esse consenso.”

Isso foi em 17 de abril de 2016. Já em 12 de maio do mesmo ano, menos de um mês após sua saída, a vontade do “consenso” expressa por Kassab se materializava em sua posse como ministro das Comunicações do governo de Michel Temer, pasta que incorporava ainda as atividades do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. A característica fisiológica e a flexibilidade, por assim dizer, apresentadas pela sigla e por seu maior dirigente ilustravam que se tratava de um partido típico do chamado Centrão, só que maior. Já havia nascido com mais de 50 parlamentares e constituía, eleição após eleição, uma agremiação com maior poder na arena institucional, chegando a ser a sigla com maior número de prefeitos eleitos em 2022.

Mesmo assim, desde seu nascimento o partido não contou com candidatos à Presidência da República. Depois de Dilma, apoiou Geraldo Alckmin, então no PSDB, em 2018, acreditando ainda na força do principal opositor do PT até àquela altura, sem perceber que o polo de oposição ao centro e à direita havia caminhado para o extremo. Em 2022, optou pela neutralidade, o que facilitou as alianças estaduais ora para um lado, ora para outro. Agora, a desistência de Tarcísio empurra a legenda, e parte do Centrão, para um dilema.

O cálculo do PSD

Quando Caiado migra para o PSD, afirma que busca o abrigo de uma legenda que tenha o que chamou de “projeto nacional”. Se seu objetivo real fosse garantir, a todo custo, uma candidatura ao Palácio do Planalto, seu destino seria o Solidariedade, de Paulinho da Força, que havia prometido o posto ao governador goiano, ou o Podemos. Contudo, seriam legendas menores, que brigam para superar a cláusula de barreira e não têm estrutura para viabilizar uma postulação real. E ele sabe o que é entrar em uma disputa presidencial em uma sigla com pouca visibilidade, já que foi candidato em 1989 por outra “encarnação” pessedista, ocasião em que obteve singelos 0,68% dos votos válidos.

Em sua nova legenda, Caiado tem uma estrutura a seu dispor para manter o controle de sua própria sucessão em Goiás, como também desfruta de uma posição melhor do ponto de vista nacional. Se não for o presidenciável do PSD — o que é bem provável, já que sai atrás do governador do Paraná, Ratinho Jr., que tem a simpatia de Kassab –, garante um papel de protagonismo na agremiação, algo que lhe foi negado na federação União Progressista. Além disso, não fica a reboque do bolsonarismo, com quem já andou às turras durante a pandemia e também na eleição para a prefeitura de Goiânia, em 2024, quando ele e Jair Bolsonaro trocaram insultos publicamente.

Por seu lado, Kassab tem a perspectiva de ganhar mais um governo estadual para seu partido, aumentando também sua bancada no Legislativo. A filiação do governador de Rondônia, também ex-União Brasil, caminha nesse sentido, fortalecendo o horizonte eleitoral da agremiação. Com uma possível candidatura à Presidência, o PSD demarca ainda uma distinção em relação a legendas do seu campo e ao que foi sua própria trajetória até aqui.

Mesmo não chegando a um eventual segundo turno, um candidato que alcance dois dígitos ou percentual similar poderia ser decisivo na definição do vencedor, assegurando maior importância à legenda em uma nova gestão. Mesmo no caso de uma postura independente em função de disputas estaduais em curso, os pessedistas sairiam fortalecidos e com um nome bem colocado para 2030. Este seria um ganho político importante: a construção de um nome de visibilidade nacional para um pleito que não contaria com a concorrência de Lula, em caso de reeleição.

Enquanto isso, a federação União Progressista, atrasada em suas proposições por conta de discordâncias nos estados e pela longa espera das definições no campo do ex-presidente, vê seu papel no tabuleiro político reduzido, assim como outras siglas relevantes desde a redemocratização, casos do MDB e do PSDB, também passam a se ver à margem no processo político-eleitoral. Nesse cenário, a movimentação do PSD revela menos uma ruptura e mais uma tentativa de reorganização da direita fora da órbita direta do bolsonarismo, sem romper completamente com ele. O resultado desse cálculo não depende apenas do desempenho eleitoral em 2026, mas de quem conseguirá, ao fim do processo, definir os contornos e a identidade política da direita no pós-Bolsonaro.

Foto: Antonio Augusto/ Ascom TSE

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