Será que os direitos humanos continuarão sendo um princípio universal quando se trata de Israel?

UPAL

Em uma rara mudança política nos Estados Unidos, as posições do prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, marcaram um momento revelador na profunda crise moral da política americana em relação à Palestina. Suas declarações não foram chocantes por serem extremas, mas por romperem com uma regra não escrita que governa o cenário político há anos: Israel é um Estado excepcional, acima de críticas e acima da responsabilização.

Desde que tornou públicas suas posições, uma campanha organizada foi desencadeada para acusá-lo de “antissemitismo” e “ódio aos judeus”, o rótulo automático usado contra qualquer um que ouse questionar as políticas da ocupação. No entanto, a associação deliberada da religião judaica com um governo que pratica políticas de ocupação, repressão e genocídio constitui, em si, uma forma de chantagem política e moral. Criticar um Estado não significa atacar uma fé, e exigir responsabilização não é sinônimo de ódio.

A decisão de Mamdani de recusar a renovação de um contrato com uma empresa de tecnologia de drones que utilizou drones durante a última guerra em Gaza não é um gesto simbólico, mas sim uma postura ética consistente com os princípios do direito internacional humanitário. O mundo testemunhou uma das guerras mais sangrentas da era moderna, que deixou dezenas de milhares de vítimas civis e uma devastação generalizada, afetando tanto pessoas quanto infraestrutura. Qualquer instituição pública que continue associada a ferramentas utilizadas em contextos sob investigação por crimes de guerra torna-se cúmplice na normalização de tais violações.

Sua recusa em direcionar fundos de pensão e investimentos públicos para títulos ou empréstimos que beneficiem a economia de um Estado acusado de graves violações constitui uma reafirmação fundamental do princípio da responsabilidade fiduciária. O dinheiro dos pensionistas não deve ser usado para financiar aventuras militares ou como garantia financeira para um sistema de ocupação. A imposição de requisitos de investimento exclusivos que favorecem Israel, e nenhum outro país, revela claramente os padrões duplos que caracterizam a política externa dos EUA há décadas.

Sua terceira medida — o levantamento das restrições ao boicote a Israel — reafirma que a liberdade de expressão é indivisível. Apelos a boicotes, desinvestimentos ou revisões das relações econômicas são ferramentas civis e pacíficas historicamente reconhecidas na própria tradição americana, desde o movimento pelos direitos civis até a luta contra o apartheid na África do Sul. Criminalizar essas ferramentas, quando aplicadas especificamente a Israel, constitui uma contradição direta aos princípios constitucionais dos EUA.

O que tem incomodado os que detêm o poder não é uma decisão administrativa isolada, mas o receio de que essa postura possa abrir precedente para outras cidades e estados com tendências progressistas e grandes comunidades árabes e muçulmanas. É por isso que ameaças legais e pressão política começaram a ser exercidas para destituí-lo do cargo, num cenário que expõe a fragilidade do discurso democrático quando este se choca com interesses particulares.

A União Palestina da América Latina (UPAL) considera este um momento decisivo:

  • Os direitos humanos continuarão sendo um princípio universal ou serão relativizados quando se trata de Israel?
  • O direito internacional será uma referência vinculante para todos ou uma ferramenta seletiva usada apenas contra os mais vulneráveis?

Enquanto alguns regimes árabes se apressam rumo à normalização e à coordenação de segurança, abandonando até mesmo o compromisso moral mais básico com o povo palestino, surge um representante eleito no coração dos Estados Unidos que levanta, mais uma vez, a questão da justiça. O paradoxo não é religioso ou sectário, mas ético: quem respeita a lei e quem aquiesce à sua violação?

A batalha de hoje não é entre identidades ou religiões, mas entre um projeto de imunidade permanente para um Estado que pratica a ocupação e um projeto de responsabilização que exige igualdade perante a lei.

Aqueles que hoje se posicionam ao lado da justiça, apesar de todas as pressões, estão inscrevendo seus nomes no lado certo da história.

União Palestina da América Latina – UPAL
28 de fevereiro de 2026

Faixa de Gaza. A fome usada por Israel como arma de guerra contra os habitantes de Gaza. Imagem: Mahmoud Issa / Médicos do Mundo

 

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