A pequena política ficou menor. Por Mauro Iasi

Eis que estamos de volta a 2026, às vésperas de uma nova eleição. Então, nos perguntamos: qual é o projeto? 

No blog da Boitempo

”Eu devo estar encolhendo novamente.” 
— Alice no país das Maravilhas, Lewis Carroll

Há sete anos, neste mesmo blogue, escrevi um texto sobre a pequena política e nossas ambições, lembrando a feliz expressão de Carlos Nelson Coutinho segundo a qual estaríamos vivendo “a hegemonia da pequena política”. Nosso querido camarada se surpreenderia com o quando a estatura da política segue diminuindo, ao que parece, em razão diretamente proporcional ao tamanho de seus principais sujeitos. 

Naquele momento em que publiquei o artigo, vivíamos sob o governo do miliciano golpista, e as intrigas no “interior de uma estrutura estabelecida” — para usar a definição de pequena política feita por Gramsci  nos  Cadernos do cárcere — expressavam uma disputa que se agravaria durante o mandato entre facções das classes dominantes, que divergiam sobre manter ou não o paspalho no governo. A classe trabalhadora, atingida pela reforma trabalhista, por mais uma reforma da previdência, pelos ataques contra os serviços públicos e o desmonte das universidades públicas e, depois, também pela brutal pandemia, voltava seus olhos em direção às tarefas imediatas e de sobrevivência. 

Como afirmei naquela época, a pequena política não se define, necessariamente, pelas ações imediatas e cotidianas, muitas delas essenciais, mas pela articulação destas dimensões táticas com os objetivos de manter ou superar as estruturas políticas, sociais, econômicas e culturais que sustentam uma determinada ordem. Por isso, Gramsci articula a definição de pequena política ao que chama de ambições das classes e frações de classe

Bom, de lá para cá, o desgoverno de Bolsonaro acabou, foi tentado um golpe, Lula foi eleito presidente para seu terceiro mandato e os golpistas foram condenados e presos. Entretanto, para surpresa daqueles que pouco entendem da política e do Brasil, em pleno 2026 o quadro conjuntural se apresenta como uma reedição do contexto de 2022, com as preferências eleitorais dividindo o país ao meio1 entre lulistas e bolsonaristas,  stes agora representados por Bowzer Junior.  

A grande mídia corporativa e seus esforçados “comentaristas” insistem na definição da “polarização” entre extremos e lamentam a ausência de um candidato de centro, ao mesmo tempo que atribuem os índices de rejeição ao atual governo (52%) ao desempenho da economia, ao aumento do preço dos alimentos e ao crescimento vertiginoso do endividamento das famílias.  

Interessante notar que o governo anterior foi catastrófico, inclusive para a economia capitalista, enquanto o atual arrumou a casa de forma responsável, satisfazendo os interesses de seus aliados de classe (vide o arcabouço fiscal, os vários subsídios e auxílios a setores do capital monopolista, o controle da inflação, a garantia de autonomia do Banco Central e sua política de juros altos etc.). Mesmo assim, os efeitos dessas medidas são atribuídos ao presidente e seu governo, e não aos que deram a ordem.

Ocorre que, mais uma vez, as turbulências evidentes na superfície escondem um fato determinante: é interesse da grande política “tentar excluir a grande política do âmbito interno da vida estatal e reduzir tudo a pequena política” (Gramsci, 2017, p. 21). Me explico. Todos discutem o aumento do preço dos alimentos e sua relação com a guerra imposta ao Irã; indagam se a delação do Vorcaro vai atingir os juízes do STF e se Alexandre (o pequeno) sabia que sua esposa ganhou oitenta milhões ou eles teriam contas separadas; especulam se o desfile da escola de samba ajudou ou atrapalhou Lula, porque 49% dos católicos o apoiam enquanto 61% dos evangélicos desaprovam; se perguntam se Neymar será ou não convocado por Ancelotti, ou ainda se a lei contra a misoginia não seria um preconceito contra os red pills. Até outubro, todos vamos debater sobre quem subiu ou desceu um ponto na corrida eleitoral, se o Bowzer Junior é mesmo mais moderado que seu pai (que está preso na casa da princesa), se podemos considerar o Caiado como um cara de centro e Zema um cara sério. Alguns vão se preocupar, com razão, com um possível governo da quadrilha alinhado com os EUA, e tudo isso anula o primeiro turno: teremos dois “segundos turnos” entre o governo que temos e o que tínhamos. 

O mais interessante é que tudo isso será discutido nos telejornais, acompanhado de gráficos bonitinhos, com a opinião de especialistas, mostrando repórteres lá em Brasília e outros nos “bastidores”, alguém de casaco em Whashington, e vão chamar tudo isso de cobertura “política”. 

A pequena política venceu. Mas o que ele esconde? O que seria a “grande política”?  

A concentração de riquezas no Brasil aumentou. O 1% mais rico concentra entre 37% e 48% da riqueza nacional, os 10% mais ricos (que tinham 51% da riqueza no final da década de 1990 e 74,2% em 2014) hoje concentram algo próximo de 80% e os 50% mais pobres, de 0,4% a 2,4%. Entre as dez empresas que tiveram lucro líquido acima de 1 bilhão de reais no segundo trimestre de 2025, cinco são bancos. A concentração de terras aumentou, 1% dos proprietários tem quase 50% das terras, enquanto os pequenos têm juntos 2,3%. A remessa de lucros das empresas para o exterior somou 18 bilhões de dólares, a maior desde 1995. 

No final de 2024, o Brasil tinha 48,9 milhões de pessoas abaixo ou na linha da pobreza (ainda que, entre 2023 e 2024, 8,6 milhões tivessem saído da condição de pobreza e, dentro desse total, 1,9 milhão deixado a de miséria). Segundo o IBGE, cerca de 40 milhões podem estar sem cobertura previdenciária, algo em torno de 54,3% da força de trabalho ocupada.  

O déficit habitacional em 2023-2024 foi de 5,97 milhões de moradias (o menor da série histórica), mas o número de moradias precárias aumentou em mais de 1 milhão em 2025, chegando a 27,6 milhões. Cerca de 46% das residências no Brasil sofre com problemas de saneamento, e mais de 1,2 milhão de famílias ainda moram em residência sem banheiro. Moradores das grandes cidades perdem, em média, 21 dias por ano presos no transporte, o que representa uma perda de R$ 264 bilhões.  

A violência policial mata 17 pessoas por dia, mais de 6 mil por ano; o feminicídio cresceu 14,5% nos últimos cinco anos. Jovens negros são 73% das vítimas da violência, mulheres negras ganham cerca de 40% a menos do que os homens e 70% da população carcerária brasileira (a terceira maior do mundo) é negra.

O desmatamento na Amazônia, que havia caído em 2024, volta a crescer 91% em maio de 2025, o que equivale a 960 km2. Em 2019, 36% dos focos de incêndio na floresta foram causados por manejo agropecuário. O setor mineral brasileiro faturou R$ 77,9 bilhões no primeiro trimestre de 2026, registrando crescimento de 6% em relação ao mesmo período do ano anterior, produzindo grande impacto ambiental na poluição das águas, desmatamento e tragédias como as de Brumadinho e Mariana. 

Não se trata apenas de um amontoado de dados, para os quais o governo e a oposição têm respostas variadas, uns apontando dados de melhora pontuais, outros torturando os números até provarem o que desejam. A questão essencial que fica obscurecida pela pequena política são as causas desse quadro desastroso, e isso se liga aos projetos para o Brasil. 

Octavio Ianni, em seu livro Estado e planejamento econômico no Brasil, apontava que entre os anos de 1930 e 1970 podemos identificar quatro grandes projetos: o nacionalismo getulista, o desenvolvimentismo de Juscelino Kubitschek, o socialismo do PCB e o projeto da ditadura após 1964. Getúlio Vargas, principalmente no seu segundo governo (1951-1954), pensava um desenvolvimento industrial de base nacional através de empresas estatais como a Eletrobrás e a Petrobras, fábricas de motores, portos, ferrovias, siderúrgicas. Elas comporiam o setor de base para o futuro desenvolvimento de uma indústria nacional, projeto interrompido por seu suicídio em 1954 e pela pressão das famosas “forças ocultas”. Reivindicando a herança getulista e eleito com o apoio dos dois partidos criados por Getúlio, Juscelino Kubitschek implementou um modelo econômico oposto, chamado de desenvolvimentista, no qual a indústria de base serviria para atrair empresas transnacionais que ocupassem o setor de bens de consumo duráveis, incentivando o latifúndio exportador na esperança de um rápido crescimento – os famosos cinquenta anos de progresso em cinco de governo. A crise esperada desse modelo baseado em crescimento da dívida externa, inflação, inchaço das cidades e aumento da dependência levou ao governo de João Goulart e à proposta das Reformas de Base de seu ministro Celso Furtado.  

Vamos nos deter um pouco nas Reformas de Base. Ao identificar os pontos críticos da crise do modelo em vigor (perda de divisas, crise urbana, concentração de terras, dívida e outros) propuseram-se várias reformas: reforma agrária, reforma bancária, reforma urbana, reforma universitária, lei de remessa de lucros etc. Nada que um golpe não resolvesse, impondo autoritariamente a manutenção do modelo graças ao forte aporte de recursos do imperialismo, o que potencializou e agravou as suas contradições, fazendo com que entrasse em colapso no final dos anos 1970. 

O projeto socialista do PCB, que tinha por objetivo um governo operário e camponês e o início de uma transição socialista, passava pela consagrada “teoria das etapas”, segundo a qual o socialismo não seria possível imediatamente, supondo uma revolução democrática em aliança com a burguesia nacional para desenvolver o capitalismo. Daí que, no que diz respeito ao plano imediato, os comunistas tenham se aproximado tanto do nacionalismo getulista como, principalmente, do desenvolvimentismo. A Estratégia Democrática Nacional do PCB foi igualmente interrompida em 1964, quando seus míticos aliados de uma suposta e inexistente burguesia nacional cerraram fileiras com o imperialismo e o latifúndio para desfechar o golpe e aprofundar o modelo de dependência e subordinação ao imperialismo. 

A crise da ditadura e a chamada transição democrática não alteraram as bases do modelo econômico, que entra em crise acentuada nos anos 1980. Em um diagnóstico perverso, as classes dominantes culparam o Estado pela crise, acusando-o de gigantismo, burocracia e demasiados gastos sociais diante do que se chamava de “explosão de demandas”. Em contrapartida, propuseram o saneamento financeiro do Estado, as privatizações e os cortes nas políticas públicas. Chegava aqui o projeto neoliberal de Pinochet e Thatcher. 

A crença, bem expressa pelos governos de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), era de que as privatizações, o controle dos gastos públicos, o controle da inflação e a prioridade do setor financeiro levariam a um crescimento sustentável, o que não ocorreu, funcionando de fato como uma gambiarra para manter o pagamento das  dívidas  externa e interna, apoiando-se em um modelo que apresentava as mesmas e potencializadas contradições (concentração de terras, crescimento desordenado das cidades, aumento da dependência etc). 

O PT, que emerge dos movimentos de resistência da classe trabalhadora contra os efeitos desse modelo, se apresenta inicialmente com uma proposta socialista baseada na constatação de que o crescimento econômico capitalista desenvolveu o Brasil sem resolver suas principais contradições, deixando tarefas democráticas em atraso (reforma agrária, democratização do Estado, diminuição das desigualdades sociais e regionais etc). Inicialmente, também critica a visão etapista do PCB e afirma que não é possível uma aliança com a burguesia para realizar uma “etapa democrática popular do capitalismo”. Propõe, dessa forma, um programa antilatifundiário, antimonopolista e anti-imperialista que seria possível pela combinação de duas frentes: um forte movimento de massas de caráter anticapitalista e a ocupação de espaços institucionais, culminando com a conquista da Presidência da República. 

Ocorre que a vitória eleitoral em 2002 se apresentou sem que esse acúmulo de forças na sociedade tivesse alterado a correlação de forças, forçando uma Estratégia Democrática e Popular que pensasse a continuidade do acúmulo de forças ocupando o governo federal, rebaixando o programa e ampliando as alianças primeiro ao centro e, depois, à direita. O programa anticapitalista e de perspectiva socialista é substituído por um programa democrático e antineoliberal, que na sucessão de governos foi se tornando um projeto de desenvolvimento econômico como condição para programas sociais de transferência de renda focalizados e fragmentários, a fim de combater a miséria absoluta. Uma trajetória interrompida, apesar das concessões, pelo golpe parlamentar, jurídico e midiático de 2016. 

A crise do lulismo, que subordinou o próprio petismo, abriu caminho para a extrema direita e para a vitória de Bolsonaro em 2018, com seu projeto de desmonte do Brasil a golpes de ultraliberalismo, fundamentalismo religioso e moral, entreguismo absoluto e rendição total ao capital monopolista em todas as suas feições (“eu vim para destruir, não para construir”, dizia o miliciano com pretensões fascistas no Planalto). Numa espécie de saudosismo anacrônico, o golpista sonha com a ditadura de 1964 e tenta um golpe depois de perder as eleições para Lula em 2022. 

Eis que estamos de volta a 2026, às vésperas de uma nova eleição. Então, nos perguntamos: qual é o projeto? 

Para os amantes da pequena política e seus sacerdotes, trata-se de definir entre Lula, defensor da democracia, e Flávio Bolsonaro (Bowzer Junior), defensor da ditadura e da volta à idade das trevas, agora mais moderado. Essa pode ser, e provavelmente será, a triste alternativa do segundo turno que acontece em novembro, e não em outubro.  

Quando trazemos a discussão do projeto, e não de programas eleitorais como peças oportunistas de publicidade, estamos nos esforçando para apontar para além da pequena política. Quais os problemas do Brasil, suas causas profundas e, portanto, as possibilidades de resolução?

Mesmo sabendo que vamos incomodar os adictos da pequena política (que gostam de textos e vídeos curtos) vamos fazer de conta que a discussão é séria e os interlocutores não são totalmente oportunistas. 

Nós, comunistas do PCB, acreditamos que o rol de problemas enfrentados pela classe trabalhadora e a maioria da população se articula em quatro crises, que em seu conjunto pertencem a uma crise maior. Vejamos. 

Em primeiro lugar, temos a crise do trabalho, derivada de uma profunda alteração no padrão de acumulação, chamado ideologicamente de flexível, que veio se sobrepor ao fordismo (para pensar com Ricardo Antunes em Os sentidos do trabalho). Tal alteração, profundamente ancorada no esforço de valorização do capital, intensificação e poupança de força de trabalho, teve um forte impacto sobre as condições de trabalho, contratos e perfil da classe trabalhadora. O resultado foi a desconcentração da classe, sua fragmentação e dispersão, gerando um quadro intenso de precarização e superexploração. 

A segunda crise se dá pelo crescimento do capital monopolista no campo e pela transformação do antigo latifúndio em monopólio capitalista da terra, eufemisticamente chamado de “agronegócio”. Esse processo aumentou a concentração de terras, a expropriação no campo e, da mesma forma que no setor industrial urbano, intensificou a exploração sobre os trabalhadores agrícolas, precarizando suas condições de trabalho. 

A combinação dessas duas crises fundamentais desdobra-se para outras duas crises: a urbana e a ambiental. 

A combinação da expropriação no campo com o novo padrão de acumulação na indústria urbana agrava sobremaneira a formação de uma superpopulação relativa e o crescimento desordenado das cidades, com todos os problemas que daí derivam: moradia, saneamento, violência urbana, gentrificação, precariedade de serviços de educação, saúde, transporte e de acesso à cultura, entre tantos outros. Se Lefebvre (1999) falava da cidade do capital, agora ela é a cidade da crise do capital. 

Da mesma forma, a interação entre as crises do trabalho e do monopólio capitalista no campo culmina na crise ambiental. Estamos mais acostumados a ver seus efeitos no desmatamento, nas consequências deletérias da mineração e na expansão da agropecuária. No entanto, a cidade da crise do capital é uma expressão explosiva da crise ambiental, como uma ferida purulenta na pele do planeta para a qual não há antibiótico de medidas superficiais que dê conta (não é culpa sua, que toma banhos longos e insiste em sair do supermercado com saquinhos plásticos). A crise ambiental é a expressão, seja no seu terreno urbano, da cobertura vegetal ou das nascentes, cursos de água e oceanos, da crescente deterioração dos recursos naturais em nome da valorização do capital. 

É por isso que estamos convencidos de que existe uma quinta crise, que engloba e determina as quatro anteriormente citadas: a crise do capital. O capital em crise, como já nos ensinaram Marx, no Livro III de O capital, e depois Mandel (1990), apresenta-se como superprodução e superacumulação que leva, tendencialmente, à queda das taxas de lucro. As medidas do capital para tentar contrarrestar essa tendência são a intensificação da exploração, a diminuição dos salários, o aumento da superpopulação relativa, o barateamento dos elementos do capital constante (insumos, máquinas, prédios, estrutura urbana etc), abertura de novos mercados e o capital portador de juros. Lênin, em Imperialismo, estágio superior do capitalismo, agregaria a essa lista a exportação de capitais, a partilha do mundo e a guerra. 

Ora, o capital em crise se expande e intensifica a exploração, destruindo ciclicamente meios de produção, seres humanos e recursos naturais numa escala cataclísmica. Se a cidade do capital e a natureza em chamas são as feridas purulentas desta civilização, a crise do capital é a bactéria que as provocou. Prova disso encontramos quando nos perguntamos sobre aquelas classes e segmentos de classe que se apresentam com seus interesses no interior dessas crises. Por trás de cada uma destas crises encontramos um setor do grande capital monopolista: nas grandes fábricas e empresas transnacionais, no monopólio das sementes transgênicas e defensivos agrícolas, nos monopólios da construção civil e empreiteiras, no monopólio das grandes mineradoras e companhias petrolíferas,  no monopólio capitalista da terra, nos grandes conglomerados de mídia, nas empresas de saúde e educação, no monopólio financeiro e bancário, que surgem como uma praga em todo o tecido econômico, social e cultural da civilização do capital. 

Se nós desenvolvemos a economia capitalista, desenvolvemos todos esses problemas e suas inevitáveis consequências, dando razão a Theotônio do Santos quando afirmou que o desenvolvimento em um país dependente é o desenvolvimento do subdesenvolvimento. Por isso, é necessário afirmar um programa  anticapitalista e anti-imperialista, não por saudosismo de consignas, mas porque é impossível enfrentar qualquer problema de nossa formação social sem encarar pela frente um dos representantes do monopólio capitalista – e esses representantes já são articulados e submissos à ordem do capital imperialista (independentemente da cor de sua bandeira). Por isso, a revolução brasileira deve ter um horizonte estratégico socialista.  

Por óbvio são necessárias mediações táticas, mas não aquelas que nos afastam da estratégia em vez de caminhar em sua direção. Apresentamos tais mediações nos programas de minha candidatura presidencial em 2014, da camarada Sofia Manzano em 2022 e agora com a pré-candidatura de Edmilson Costa. Basta pensar em algumas propostas por nós apresentadas para ver como certos problemas que aqui foram descritos poderiam ter tido uma história bem diferente, tais como a estatização do sistema financeiro, o fim da polícia militar, a reforma agrária e uma nova política agrícola, a estatização dos recursos minerais, uma reforma urbana radical, a radical reversão da política contra os direitos da classe trabalhadora (previdenciários, trabalhistas, sindicais etc), o enfrentamento sério da crise ambiental contra os verdadeiros algozes da natureza e do planeta, a urgente e necessária desmercantilização da vida. 

Mas tudo isso é sonho, não é? Nada disso dialoga com a realidade, nossos problemas e suas determinações. O melhor é continuar discutindo as taxas de juros e a necessidade de atrair alguém do agronegócio para a posição de vice-governador em São Paulo, ao lado do pai do Arcabouço Fiscal. Melhor pensar em nomes do que em projetos políticos. De outro lado, podemos tentar colocar uma camiseta que diz “pai de filhas meninas” no filhote do Cruz-Credo para ele parecer menos machista e fascista visando o voto feminino ou, ainda, se lançar candidato mesmo que isso signifique abandonar tudo o que falou até agora seu partido e sair como o flautista de Hamelin, antiga forma dos influencers, guiando seus seguidores para o abismo. 

Mas isso são coisas de uma política ainda menor. É certo, temos que ser pragmáticos e atuar na realidade existente. Sobre este ponto, eu indicaria um texto de Lukács (que os seguidores de youtubers não gostam porque escreve “textões”), significativamente denominado “Tática e ética”, no qual afirma o seguinte: “Se existe um movimento histórico para o qual a Realpolitik é nefasta e sinistra, esse movimento é o socialismo”(Lukács, 2005). 

Notas

  1. Segundo as pesquisas do DataFolha (Lula 46% e Flávio 45% no segundo turno) e  Quaest  (Flávio 42% e Lula 40%). 

Referências 

ANTUNES, R. Os sentidos do trabalho. São Paulo. São Paulo: Boitempo, 1999. 

GRAMSCI, A. Cadernos do cárcere. Volume 3. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. 

IANNI, O. Estado e planejamento econômico no Brasil. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 2004. 

LEFEBVRE, H. A cidade do capital. Rio de Janeiro: DP&A, 1999. 

LENIN, V. I. Imperialismo, estágio superior do capitalismo. São Paulo: Boitempo, 2021. 

LUKÁCS, G. Tática y ética: escritos tempranos. Buenos Aires: El cielo por assalto, 2005. 

MANDEL, E. A crise do capital. Campinas: Ed. Unicamp; São Paulo: Ensaio, 1990. 

MARX, K. O capital. Livro III. São Paulo: Boitempo, 2017. 


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Mauro Iasi professor aposentado da Escola de Serviço Social da UFRJ, professor convidado do programa de pós-graduação em Serviço Social da PUC de São Paulo, educador popular e militante do PCB. É autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil e György Lukács e a emancipação humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente. Na TV Boitempo, apresenta o Café Bolchevique, um encontro mensal para discutir conceitos-chave da tradição marxista a partir de reflexões sobre a conjuntura.

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