Anatomia de “Pedagogia do Abandono”. Como o documentário serve-se de imagens fragmentadas, trilha sonora sutil e suspense para difundir o medo diante da escola. O que isso revela sobre as novas estratégias da ultradireita para a “guerra cultural”
Por Fernando Henrique Ferreira*, em Outras Palavras
Durante décadas, a educação ocupou um lugar relativamente consensual no debate público brasileiro. Divergia-se sobre métodos, investimentos ou políticas educacionais, mas raramente se questionava sua legitimidade social. Discutia-se como melhorar a escola pública, ampliar o acesso, valorizar professores e garantir o direito constitucional à educação assegurado em 1988. A educação era vista como problema nacional, mas nunca como ameaça.
Esse cenário mudou profundamente na última década. No Brasil e em diversas partes do mundo, a educação deixou de ser um campo de políticas públicas e passou a ocupar o centro das chamadas guerras culturais. O que antes mobilizava debates sobre financiamento, acesso e qualidade passou a ser atravessado por acusações moralistas, teorias da conspiração e campanhas sistemáticas de deslegitimação das instituições formativas.
Escolas e universidades passaram a ser retratadas como espaços de doutrinação ideológica, disseminação da chamada “ideologia de gênero” e formação política da esquerda. Nesse ambiente, consolidou-se nas redes sociais discursos segundo os quais a educação pública não seria um direito social, mas um perigo para a família, para a religião e para a ordem social tradicional.
É nesse contexto que emerge a produtora audiovisual Brasil Paralelo, que rapidamente se transformou em uma das principais articuladoras simbólicas da nova extrema direita brasileira. Com alta qualidade técnica e ampla circulação digital, seus conteúdos combinam documentários, cursos e entrevistas que reconstroem acontecimentos históricos e sociais a partir de uma perspectiva marcada pelo revisionismo histórico, pelo negacionismo científico e pela crítica sistemática ao pensamento progressista.
Nas últimas semanas, a produtora voltou ao centro do debate público ao divulgar o documentário “Pedagogia do Abandono”, gravado em uma unidade da rede municipal de ensino da cidade de São Paulo. O material apresenta a escola pública como espaço de manipulação ideológica infantil, sugerindo que crianças seriam introduzidas a uma “ideologia de gênero”, cujo objetivo seria atacar os valores familiares sob influência de educadores e políticas pedagógicas inspiradas, sobretudo, no pensamento de Paulo Freire.
O episódio inaugural do documentário “Pedagogia do Abandono” disponibilizado na internet não funciona apenas como apresentação temática. Ele opera como síntese do fenômeno que atravessa o debate educacional contemporâneo: a transformação da escola em ameaça política e moral.
Desde os primeiros minutos, a narrativa é organizada para produzir atenção constante e mobilização emocional. O roteiro constrói seu discurso por meio de argumentos de autoridade com especialistas, dados e pesquisas citados de forma fragmentada, combinados a uma montagem marcada pelo suspense. A sucessão rápida de entrevistas, cortes visuais e mudanças de cenário cria a sensação de que o espectador está diante de uma revelação progressiva, como se tivesse acesso a uma verdade ocultada pelas instituições oficiais.
A trilha sonora quase imperceptível, a alternância entre imagens jornalísticas, registros escolares descontextualizados e depoimentos cuidadosamente selecionados produzem um efeito familiar às técnicas contemporâneas de propaganda política, pois não se busca demonstrar os argumentos, mas provocar sensações. O excesso de informações substitui a argumentação sistemática. Diante do bombardeio imagético, o espectador não é convidado a refletir, mas a reagir.
O ponto de partida do episódio parece, à primeira vista, inofensivo: a obrigatoriedade da escolarização na primeira infância. Parte-se de um consenso amplamente aceito da importância da educação nos primeiros anos de vida, para, em seguida, deslocar o debate. Experiências internacionais, especialmente o caso canadense, são associadas rapidamente a imagens de violência escolar, conflitos juvenis e desorganização social. Estudos são mencionados sem contextualização metodológica, seguidos por cenas que insinuam relações causais entre escolarização precoce e problemas complexos como gravidez na adolescência, uso de drogas ou comportamentos considerados desviantes.
A operação discursiva é sutil: não se afirma diretamente que a escola produz tais fenômenos, mas constrói-se um ambiente narrativo no qual essa conclusão parece inevitável. Assim surgem as perguntas que estruturam o documentário:o que as escolas estão imprimindo nas mentes das crianças? O que acontece quando o Estado ocupa o espaço da família? Embora as perguntas sejam apresentadas como parte de uma investigação neutra, elas já carregam pressupostos e valores que delimitam antecipadamente as respostas possíveis.
Gradualmente, o debate sobre educação infantil converte-se em denúncia das formas de domínio político. O Estado passa a aparecer como agente interessado em controlar a infância, enquanto a escola é apresentada como aparelho ideológico responsável pela manipulação moral das novas gerações. Paralelamente, o documentário reforça uma concepção específica de família, marcada pela centralidade do cuidado materno exclusivo e pela naturalização de papéis sociais rigidamente definidos.
Nesse enquadramento, a educação pública deixa de ser instituição social complexa e transforma-se em ameaça civilizacional. A recorrente referência a uma suposta “política de gênero” funciona como elemento agregador do medo: a escola seria o espaço privilegiado de um projeto estatal destinado à relativização da verdade, do bem e do belo. A conclusão implícita é direta: o sistema educacional é um dos pilares da destruição social.
A eficácia desse modelo reside menos na veracidade dos argumentos e mais na administração do medo. Imagens selecionadas, narrativas alarmistas e simplificações extremas transformam problemas sociais complexos em ameaças imediatas e personalizadas. O medo converte-se, assim, em tecnologia política.
Nesse contexto, a escola pública torna-se alvo privilegiado. Em vez de espaço de formação intelectual e convivência democrática, ela passa a ser apresentada como perigo físico, moral e cultural. Pais e responsáveis são convocados não a enfrentar desigualdades estruturais ou a precarização educacional, mas a proteger seus filhos da própria educação.
A pedagogia do abandono revela, portanto, algo mais profundo do que um desacordo pedagógico: evidencia a emergência de uma pedagogia do medo, na qual a desconfiança substitui o debate público e a educação deixa de ser direito social para tornar-se inimigo político.
Este documentário não é uma estratégia isolada. O episódio inaugural estabelece o tom mais amplo que se articula a outras produções da mesma produtora, como Pátria Educadora e Unitopia, nas quais a educação aparece reiteradamente como espaço de disputa civilizacional.
A pedagogia do medo
Para compreender esse fenômeno, é útil recorrer às análises de Theodor W. Adorno sobre propaganda e psicologia social. Ao investigar os mecanismos de mobilização do fascismo no século XX, Adorno demonstrou que a propaganda autoritária não busca convencer racionalmente, mas produzir identificação emocional. Ela opera através do medo, da simplificação extrema dos problemas sociais e da criação de um inimigo comum capaz de unificar seguidores.
A eficácia desse modelo reside menos na veracidade dos argumentos do que na organização dos afetos. Imagens cuidadosamente selecionadas, trilhas sonoras dramáticas, recortes visuais específicos e narrativas alarmistas produzem uma sensação permanente de ameaça. O objetivo não é informar, mas mobilizar.
Nesse sentido, a escola pública torna-se alvo privilegiado. Ao invés de ser apresentada como espaço de formação intelectual e social, ela é convertida em símbolo de perigo físico e moral. O medo passa a funcionar como tecnologia política, pois pais, mães e responsáveis são convocados a proteger seus filhos não das desigualdades sociais ou da precarização educacional, mas da própria educação.
Por que o combate a Paulo Freire?
Não é coincidência que o educador brasileiro Paulo Freire apareça como figura central nesses ataques. Neste contexto, Freire tornou-se menos um autor pedagógico e mais um símbolo político dos ataques da extrema direita.
Sua concepção de educação parte da ideia de que ensinar não significa apenas transmitir conteúdo como propunha a educação tradicional, mas, sobretudo, possibilitar a leitura crítica e a transformação do mundo. A educação, nesse sentido, constitui processo de conscientização histórica e transformação social: permite que sujeitos compreendam as estruturas sociais que moldam suas vidas e reconheçam possibilidades para a ação e transformação destas.
É justamente essa dimensão emancipadora que provoca os ecos da reação reacionária. Quando a educação estimula reflexão, diálogo e autonomia intelectual, ela deixa de reforçar o imobilismo das hierarquias tradicionais e passa a questioná-las. Combater Freire, portanto, não é discutir métodos pedagógicos, mas é disputar o tipo de sujeito que a sociedade deseja formar. Portanto, a crítica dirigida ao educador revela menos um debate educacional e mais uma disputa sobre a própria democracia.
O currículo como campo de disputas
O fenômeno educacional e curricular como campo de tensões não se restringe ao Brasil. O pesquisador Michael W. Apple demonstra que, nas últimas décadas, consolidou-se internacionalmente uma coalizão conservadora empenhada em redefinir o papel da escola. Essa aliança reúne interesses de mercado, movimentos religiosos, grupos políticos ultraconservadores e agendas neoliberais que buscam controlar currículos, materiais didáticos e práticas pedagógicas.
Nesse cenário, a educação torna-se campo estratégico de disputa cultural. Não se trata apenas de melhorar resultados escolares, mas de decidir quais conhecimentos são legítimos, quais histórias podem ser contadas e quais identidades devem ser reconhecidas.
A escola deixa de ser espaço público, plural e democrático, passando a ser pressionada a reafirmar valores previamente definidos por determinados grupos tradicionais. Desse modo, o conflito educacional revela, portanto, disputas mais amplas sobre vivências, memórias, culturas e poder. Ou seja, para os grupos tradicionais, busca-se definir quais sujeitos são possíveis de existir, quais memórias devem ser conservadas, quais culturas devem ser ensinadas e quem deve ter acesso ao poder.
Quando a educação vira inimiga
A transformação da educação em ameaça simbólica revela uma inversão histórica significativa. Instituições criadas para ampliar o acesso ao conhecimento passam a ser acusadas de destruir valores sociais. Professores são retratados como adversários morais, as universidades transformam-se em centros conspiratórios da esquerda, as crianças viram as vítimas de uma suposta engenharia ideológica.
Esse deslocamento não ocorre por acaso. Em contextos de crise social, econômica e política, a construção de inimigos culturais funciona como mecanismo de coesão política de grupos que visam se estabelecer no poder. A educação torna-se alvo justamente porque carrega potencial crítico: ela questiona tradições naturalizadas, expõe desigualdades e amplia horizontes interpretativos. Em resumo, a escola incomoda porque carrega a capacidade de transformação social ao possibilitar a formação de sujeitos críticos capazes de transformar a realidade.
Walter Benjamin afirma, nas teses sobre o conceito de história, a necessidade constante de retomar o passado histórico para reconhecer os tempos de perigo, pois nem o presente, tampouco o passado são neutros, mas revelam disputas profundas sobre memória e verdade.
Os ataques contemporâneos à educação pública devem ser compreendidos nesse horizonte. Não se trata apenas de divergências pedagógicas ou de debates sobre políticas educacionais. O que está em jogo é a própria finalidade das instituições de ensino, quem deve ter o acesso, quais conhecimentos devem ser ensinados e quais devem ser excluídos. Trata-se de uma seleção de valores éticos, estéticos e políticos, cuja finalidade é arquitetar sujeitos previamente idealizados pelo modelo tradicional.
Quando a educação passa a ser tratada como inimiga, o risco não é apenas o enfraquecimento da escola, mas o empobrecimento democrático da sociedade. Defender a educação pública, nesse contexto, não significa proteger uma instituição burocrática, mas preservar a possibilidade de formação de sujeitos livres, capazes de interpretar sua realidade e transformá-la.
Referências:
ADORNO, Theodor. Ensaios sobre psicologia social e psicanálise. São Paulo: Ed. Unesp, 2015
APPLE, Michael. Educando à direita: mercados, padrões, Deus e desigualdade. São Paulo: Cortez: Instituto Paulo Freire, 2003.
___________, Doing the work of God: home schooling and gendered labor, p. 145-154. In: Apple; Ball and Gandin. The Routledge International Handbook of the Sociology of Education. New York, 2010.
BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas: Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1993.
BRASIL PARALELO. Pedagogia do Abandono – Parte 1. 2026. 1 vídeo (70min). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=-tFRaF1Se0k . Acesso:22/04/2026
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 69 ed. São Paulo: Paz e Terra, 2019.
*Pesquisador de Pós-doutorado na Faculdade de Educação da Unicamp. Doutor em Educação pela UFSCar Sorocaba, mestre e graduado em Filosofia pela Unifesp. Professor de Filosofia na Secretaria da Educação do Estado de São Paulo. Seu trabalho de pesquisa concentra-se na filosofia da educação, abordando temas como teorias educacionais, políticas públicas, epistemologia e currículo.




