O intercâmbio, realizado em São Luís, reuniu, ao longo de dois dias, representantes de seis povos para refletir sobre as potencialidades da comunicação indígena com base nos territórios
por Andressa Algave, do Cimi Regional Maranhão
Temas como ancestralidade, identidade e resistência guiaram o Encontro de Comunicadores Indígenas, promovido pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi) Regional Maranhão nos dias 28 e 29 de março, em São Luís. Durante a formação, 11 comunicadores de seis povos — Akroá Gamella, Apanjêkra Canela, Pyhcop Catiji Gavião, Guajajara, Krikati e Tremembé — debateram diversos aspectos da comunicação popular, como narrativa visual e semiótica, produção em áudio, narrativas estratégicas e os desafios cotidianos de fazer comunicação a partir dos territórios.
O encontro faz parte de um trabalho contínuo de formação que vem sendo desenvolvido pelo regional do Cimi no Maranhão desde 2022, com o objetivo de desenvolver habilidades de comunicação de jovens indígenas. O programa visa fortalecer os coletivos de comunicação indígena e promover a defesa das comunidades por meio do incentivo à troca de experiências entre seus territórios.
“A partir do momento que compartilhamos nossas experiências, compartilhamos cultura, memória e ancestralidade. O que aprendemos aqui, levamos para o território”
Na formação, estiveram presentes integrantes dos coletivos Mídia Apanjêkra Canela, Tremembé Kaúra, Coletivo Tremembé do Engenho, Mídia Krikati, Coletivo Pihyy e Mídia Pyhcop Catiji Gavião. A programação incluiu debates sobre fotografia como narrativa visual, oficinas de produção de conteúdo em áudio e dinâmicas de diagnóstico coletivo, nas quais cada grupo mapeou forças, limites e potencialidades da comunicação em seu território.
As dinâmicas priorizaram a construção de um espaço de troca mútua, com trabalhos em grupo e momentos de fala e escuta entre quem tem desafiado a narrativa colonizadora e produzido conteúdos transformadores. “A partir do momento que compartilhamos nossas experiências, compartilhamos cultura, memória e ancestralidade. O que aprendemos aqui, levamos para o território”, conta Denisvaldo Guajajara, comunicador da TI Rio Pindaré.
“Eu acredito muito nessa comunicação popular, nessa comunicação ancestral, que nasce da vivência no próprio território. É assumir esse lugar de protagonismo, de poder contar a própria história a partir das nossas ferramentas”
Comunicar para dentro e para fora
Durante a programação, os participantes também compartilharam suas experiências em uma dinâmica de diagnóstico dos coletivos. Entre os desafios identificados nos territórios estão a ameaça de madeireiros e caçadores e o avanço de empreendimentos imobiliários, além dos impactos da poluição e da pulverização de venenos. Diante dessas violências, os comunicadores reconheceram na colaboração, na organização, na espiritualidade e nos saberes ancestrais suas principais forças.
Ao longo desse processo formativo contínuo, os coletivos vêm consolidando uma comunicação enraizada nos territórios, que articula denúncia, memória e autonomia. A timidez inicial evoluiu para o desenvolvimento de jovens comunicadores e ativistas que produzem conteúdos em formatos variados e utilizam plataformas digitais para divulgar a luta pela demarcação, a defesa de políticas públicas e as expressões culturais dos povos. Paralelamente, os coletivos fortalecem ações de comunicação interna, com a formação de novos comunicadores nos territórios, estruturando uma comunicação feita e conduzida pelos próprios indígenas.
Para Rosa Tremembé, do coletivo Tremembé Kaúra, o encontro evidenciou que a produção dos coletivos é simultaneamente voltada para dentro e para fora dos territórios. “Aqui partilhamos o que já temos como experiência e também recebemos aprendizados de outros companheiros que fazem comunicação em seus territórios. Essa comunicação deve ser feita não somente para fora, mas também para dentro.”
Uma das palestras do encontro, conduzida por Raimundo José, o “Medonho” da Rádio e TV Quilombo, abordou justamente a importância da comunicação como um olhar para dentro, para aquilo que sustenta a luta, o senso de coletividade e a memória viva dos territórios.
Raimundo destacou as semelhanças entre a comunicação quilombola e indígena na luta pelos territórios. “Eu acredito muito nessa comunicação popular, nessa comunicação ancestral, que nasce da vivência no próprio território. É assumir esse lugar de protagonismo, de poder contar a própria história a partir das nossas ferramentas. Foi uma satisfação muito grande poder trocar experiências com outros comunicadores que, assim como a gente, buscam fortalecer a comunicação como estratégia de defesa e proteção dos territórios”.
Durante o encontro, os/as jovens também debateram sobre o jornalismo hegemônico no Maranhão, que frequentemente inviabiliza pautas de territórios tradicionais, reforçando o entendimento sobre a importância de uma comunicação de base política, bem como o papel do comunicador indígena na defesa de seu território.
O Cimi Maranhão reafirma o compromisso de dar continuidade a esse trabalho, apoiando comunicadores/as, promovendo espaços de formação e fortalecendo uma comunicação que nasce e responde aos territórios, à coletividade e à luta pelos direitos dos povos indígenas.




