“Os dados mostram que o Brasil conseguiu retornar a um nível de insegurança alimentar semelhante ao registrado em 2014, ano em que o país saiu do mapa da fome da ONU”. Entrevista especial com Lucas Moura

“Esse debate se torna ainda mais importante em um ano eleitoral, porque é fundamental assegurar que os resultados positivos no combate à fome sejam preservados, independentemente de qual governo esteja no poder, seja de direita, seja de esquerda ou centro”, afirma o especialista

Por: Luana de Oliveira, em IHU

insegurança alimentar é um fator tanto recorrente da fome, quanto da má alimentação de uma sociedade que muitas vezes opta por se alimentar de ultraprocessados e produtos mais acessíveis, devido ao superfaturamento de muitos alimentos saudáveis.

Tratar desse fenômeno é falar das diversas dimensões de desigualdades sociais que causam a fome e a má alimentação, tais como a falta de saneamento básico nas periferias, os inúmeros humanos que adormecem nas ruas, a mortalidade infantil e inúmeras situações que assolam o mundo.

Partindo desse pressuposto de entender a insegurança alimentar sobre diversas perspectivas, o professor do departamento de nutrição da Universidade de São Paulo (USP), Lucas Moura, junto de outros pesquisadores desenvolveu um índice que quantifica a insegurança alimentar no Brasil com uma análise multidimensional.

De acordo com Lucas, o índice denominado MUFII, além de informar a população, o estudo visa “estimular uma articulação mais ampla entre diferentes setores da administração pública. Se um gestor da área de segurança alimentar e nutricional identifica problemas relacionados ao acesso à água, por exemplo, será necessário dialogar com os responsáveis pela produção e gestão desses dados em outras secretarias. Dessa forma, a ferramenta busca fortalecer uma discussão territorial e sistêmica sobre a insegurança alimentar, incentivando a integração entre diferentes áreas da gestão pública”.

Em entrevista ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU via chamada de vídeo, o pesquisador afirma também que “com a pandemia de Covid-19, essa situação ficou apenas mais evidente. Durante esse período, houve uma série de agravantes que contribuíram para o aumento da fome, especialmente porque muitas dessas políticas públicas já estavam comprometidas anteriormente. Infelizmente, tivemos um período de governo que não priorizou o combate à fome como uma agenda central”.

Lucas Moura é Professor no Departamento de Nutrição da FSP-USP. Pós-doutorado em Nutrição. Doutor em Nutrição em Saúde Pública (USP), com período sanduíche na Queen’s University Belfast – Reino Unido, e Mestre em Modelagem Estatística Aplicada à Saúde (UFPB). Pesquisador no Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Combate à Fome (INCT Combate à Fome) e membro do comitê científico do Observatório sobre Segurança Alimentar e Nutricional do Município de São Paulo (ObSANPA).

Confira a entrevista.

IHU – Fale um pouco da sua pesquisa sobre insegurança alimentar. No que ela se diferencia de outros índices relacionados à fome?

Lucas Moura – Essa pesquisa nasceu no contexto da pandemia e do pós-pandemia, quando passamos a ter um quadro de crescimento da insegurança alimentar no país, impulsionado tanto pelo contexto pandêmico quanto pelo que já vinha acontecendo anteriormente, com o desmonte de políticas públicas importantes para a garantia da segurança alimentar da população.

Também partimos do entendimento de que a fome e as demais expressões da insegurança alimentar não ocorrem de maneira isolada, ou seja, não se explicam apenas pela falta de alimentos, mas se relacionam com diversos outros fatores, justamente aqueles que buscamos abarcar no nosso índice.

Aspectos como escolaridade, infraestrutura das escolas, saneamento básico, mortalidade infantil, trabalho informal entre mulheres e pobreza compõem as diferentes dimensões desse fenômeno que é a insegurança alimentar.

Buscamos construir o índice a partir dessa perspectiva, pensando em uma ferramenta multidimensional, capaz de abarcar simultaneamente as diferentes dimensões da fome, olhando para a insegurança alimentar de forma sistêmica. Além disso, queríamos possibilitar uma análise comparativa ao longo dos anos.

Existem outros indicadores que procuram fazer análises semelhantes, mas a maioria deles utiliza dados de períodos diferentes, combinando, por exemplo, indicadores do Censo de 2010 com dados mais recentes das pesquisas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Isso dificulta estabelecer a relação entre esses indicadores e o panorama específico de cada ano analisado.

Optamos por incluir, nos anos analisados — em 2018 e 2022 —, indicadores disponíveis especificamente para cada um desses períodos. Os dados utilizados no índice foram selecionados justamente por estarem efetivamente calculados e disponíveis tanto para 2018 quanto para 2022.

Além de abarcar essa perspectiva multidimensional, o índice tem a vantagem de trabalhar com informações atualizadas para cada ano analisado, permitindo sua reprodução nos anos seguintes e possibilitando comparações mais consistentes ao longo do tempo.

IHU – Quais os 12 fatores que compõem o índice multidimensional (MUFII) da pesquisa e que integram os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU?

Lucas Moura – O índice, de fato, também busca trazer essa dimensão do desenvolvimento sustentável e trazemos isso pensando em duas perspectivas. Primeiro buscando entender como a fome é colocada dentro da agenda 2030 para um desenvolvimento sustentável. Essa análise é feita principalmente através da sua inserção como um dos objetivos do desenvolvimento sustentável, que é a superação da fome. Então, esse é o que norteia o objetivo, mas o primeiro que é a superação da pobreza também está muito relacionado a isso. 

A partir dessa pesquisa nos concentramos em seguir na busca por indicadores que compõe esses objetivos de desenvolvimento sustentável, já que para cada objetivo vamos ter um conjunto de metas que precisam ser atingidas para que esse objetivo seja concomitantemente atingido.

A partir dessa pesquisa nos concentramos em seguir na busca por indicadores que compõem esses objetivos de desenvolvimento sustentável, já que para cada objetivo vamos ter um conjunto de metas que precisam ser atingidas para que esse objetivo seja concomitantemente atingido. Para cada uma dessas metas, a agenda estabelece indicadores que os países devem desenvolver e mensurar de acordo com suas realidades. Para construir um índice que pudesse ser replicado em diferentes contextos — inclusive em outros países, e não apenas no Brasil —, concentramos nossa análise principalmente nesses indicadores, justamente por fazerem parte de uma metodologia internacional.

Como mencionei anteriormente, além desse critério, precisávamos que esses indicadores estivessem atualizados para os anos que nos propusemos a analisar. Após a aplicação desses filtros, chegamos a um conjunto de 12 indicadores que nortearam a construção do índice. Entre esses indicadores estão: a proporção da população vivendo abaixo da linha da pobreza internacional; a mortalidade associada à falta de saneamento e ao acesso inadequado à água entre crianças de até 4 anos de idade; a taxa de emprego informal entre mulheres; a taxa de desemprego; e o indicador “nem-nem”, que se refere aos jovens que não estão trabalhando, estudando nem participando de qualquer treinamento formal. Esse, inclusive, foi um dos indicadores observados em resultados recentes da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), mostrando que, infelizmente, esse índice voltou a crescer no país.

Também temos um índice sobre números de homicídios intencionais, pensando nele como uma expressão das violências, já que a violência também é um fator que contribui para a insegurança alimentar. Quando pensamos, por exemplo, em áreas mais violentas, como favelas, comunidades e regiões dominadas pelo tráfico, percebemos que as pessoas têm mais dificuldade de acessar locais para a aquisição de alimentos, principalmente alimentos saudáveis.

Além disso, consideramos a mortalidade de crianças nascidas precocemente, que é a mortalidade neonatal; o número de crianças nascidas de mães adolescentes; o acesso inadequado à água; o rendimento por hora de trabalho; a taxa de conclusão dos níveis de educação, do ensino fundamental ao ensino médio; e a infraestrutura escolar, pensando principalmente na estrutura alimentar das crianças, já que essa infraestrutura é importante para que elas consigam se manter na escola.

IHU – Como o mercado capitalista influencia o custo da comida básica e como isso impossibilita a chegada de alimentos de qualidade para todos?

Lucas Moura – Podemos abordar isso de diversas perspectivas, mas acredito que a principal seja a do mercado. Sabemos que ele influencia o acesso à alimentação saudável em todas as etapas do sistema alimentar. Desde a produção até o consumo, há uma interferência muito forte nas formas como os alimentos são produzidos, regulados e distribuídos. Essa influência aparece, principalmente, por meio do lobby da indústria alimentícia e da agricultura em larga escala, que impactam diretamente a regulação e o preço dos produtos, além da maneira como chegam à população. Temos exemplos recentes de situações em que produtores preferiram descartar mercadorias a comercializá-las por preços mais baixos, priorizando apenas o lucro. Nos últimos anos, houve casos de descarte de leite, frutas e verduras justamente para manter determinados valores de mercado.

Quando avançamos um pouco mais na cadeia produtiva, percebemos que essa influência continua presente. Há, inclusive, um alinhamento político entre setores da indústria alimentícia e do transporte, buscando benefícios para a categoria de transportes, o que também acaba afetando diretamente nos preços dos alimentos.

Quando chegamos nas indústrias e isso fica expresso de uma maneira ainda mais explicita. Quando a gente pensa, por exemplo, na indústria de alimentos ultraprocessados que visam ali o lucro excessivo em detrimento do aumento do preço dos alimentos mais saudáveis, in natura e minimamente processados. Temos tido esforços contínuos de busca da regulamentação do preço desses alimentos, e, apesar de alguns avanços recentes e de algumas conquistas recentes, a gente ainda não consegue reduzir como deveria o preço desses alimentos altamente industrializados para que a gente consiga dar prioridade a uma alimentação mais saudável. E aí, isso acaba impossibilitando o acesso das pessoas a alimentação de qualidade, principalmente quando esse alimento que é ultraprocessado acaba tendo um preço mais baixo do que o alimento saudável. Isso já vinha seguindo uma tendência no país, mas no período da pandemia e pós pandemia, isso ficou muito mais evidente.

Quando chegamos às indústrias, isso fica expresso de maneira ainda mais evidente. Ao pensarmos, por exemplo, no setor de alimentos ultraprocessados, percebemos uma lógica voltada ao lucro excessivo, muitas vezes em detrimento dos alimentos saudáveis, in natura e minimamente processados. Existem esforços contínuos para ampliar a regulamentação desses produtos e reduzir seus impactos, e, apesar de alguns avanços e conquistas recentes, ainda não conseguimos enfrentar essa questão da forma necessária para priorizar uma alimentação mais saudável.

Na prática, isso dificulta o acesso da população a uma alimentação de qualidade, principalmente porque os alimentos ultraprocessados frequentemente apresentam preços mais baixos do que os alimentos saudáveis. Essa já era uma tendência observada no país, mas durante e após a pandemia ela se tornou ainda mais evidente, aprofundando desigualdades no acesso à alimentação adequada.

IHU – O que explica a piora da insegurança alimentar entre 2018 e 2022? O Brasil estava preparado para lidar com a crise alimentar pós-pandemia?

Lucas Moura – Temos visto, tanto durante o período pandêmico quanto posteriormente, estudos que analisam essa situação a partir de uma perspectiva principalmente política. Essas análises mostram que boa parte dos fatores que contribuíram para o aumento da insegurança alimentar no período anterior, durante e após a pandemia já vinha se desenvolvendo muito antes da emergência sanitária causada pela Covid-19.

O país já enfrentava contextos de desmonte e subfinanciamento de políticas públicas importantes, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), além de mudanças nas políticas de trabalho e de apoio aos trabalhadores. Todo esse cenário contribuiu tanto para a redução e o comprometimento da renda da população, quanto para o enfraquecimento de políticas sociais já consolidadas, como ocorreu com as alterações no Cadastro Único e no próprio Bolsa Família ao longo desse período.

Com a pandemia de Covid-19, essa situação ficou apenas mais evidente. Durante esse período, houve uma série de agravantes que contribuíram para o aumento da fome, especialmente porque muitas dessas políticas públicas já estavam comprometidas anteriormente. Infelizmente, tivemos um período de governo que não priorizou o combate à fome como uma agenda central. Posteriormente, passamos a vivenciar as consequências desse processo, já que, mesmo após o fim da emergência sanitária declarada no Brasil, os impactos da insegurança alimentar continuaram presentes na vida da população.

Sobre o país estar preparado ou não para enfrentar essa crise, é importante lembrar que o Brasil já possuía um histórico relevante de avanços nas políticas de combate à fome antes da pandemia. A saída do país do mapa da fome da ONU, em 2014, demonstra que o caminho para enfrentar esse problema já era conhecido. No entanto, essas políticas acabam sendo muito sensíveis às mudanças governamentais. Ou seja, embora existam programas consolidados e eficazes no combate à fome em nível nacional, tais iniciativas frequentemente são colocadas em xeque conforme mudam as prioridades políticas e institucionais de cada governo.

Assim, o Brasil sabia quais estratégias poderiam enfrentar a insegurança alimentar, mas, em virtude das mudanças ocorridas naquele período, acabou não estando preparado para lidar com a crise da forma necessária. Nesse contexto, a retomada posterior dessas políticas foi fundamental para que o país voltasse a reduzir os índices de insegurança alimentar, como demonstraram os dados publicados nos anos seguintes.

IHU – O Brasil já saiu e voltou ao Mapa da Fome diversas vezes. O que isso revela? Qual é a situação do país na atualidade?

Lucas Moura – Hoje, os dados mostram que o Brasil conseguiu retornar a um nível de insegurança alimentar semelhante ao registrado em 2014, ano em que o país saiu do mapa da fome da ONU pela primeira vez. Tanto que, o Brasil deixou novamente o mapa da fome em 2025. É importante destacar, porém, que embora tenha ocorrido essa redução da insegurança alimentar, os estudos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e da ONU utilizam um indicador específico para essa avaliação: o de Prevalência de Subnutrição (POU), que mede os níveis de subnutrição da população. Esse indicador está mais relacionado às formas mais graves de insegurança alimentar do que a outros níveis, como os quadros leves e moderados.

Nesse sentido, o país conseguiu superar o aumento da insegurança alimentar grave, que cresceu e mais do que triplicou durante a pandemia, período em que a fome se tornou ainda mais evidente. No entanto, ainda existe um desafio importante: avançar no enfrentamento dos níveis leve e moderado de insegurança alimentar. Isso não significa que a situação grave tenha deixado de ser relevante, mas mostra que permanece o desafio de garantir uma alimentação adequada e saudável para toda a população, já que esses outros níveis refletem justamente as dificuldades contínuas de acesso e qualidade alimentar.

As pessoas estão tendo um acesso mínimo à alimentação, mas esse acesso ainda é insuficiente, tanto em quantidade quanto, principalmente, em qualidade. Atualmente, grande parte da população não possui uma alimentação baseada majoritariamente em alimentos saudáveis e promotores de saúde. Por isso, apesar de o país ter saído novamente do mapa da fome, isso não significa que a situação esteja totalmente resolvida. Precisamos garantir que esses avanços sejam mantidos ao longo do tempo, independentemente das transições governamentais.

Esse debate se torna ainda mais importante em um ano eleitoral, porque é fundamental assegurar que os resultados positivos no combate à fome sejam preservados, independentemente de qual governo esteja no poder, seja de direita, seja de esquerda ou centro – Lucas Moura

 Esse debate se torna ainda mais importante em um ano eleitoral, porque é fundamental assegurar que os resultados positivos no combate à fome sejam preservados, independentemente de qual governo esteja no poder, seja de direita, seja de esquerda ou centro. As políticas públicas voltadas à segurança alimentar precisam continuar existindo e sendo fortalecidas para que os avanços conquistados não sejam interrompidos.

Além de reduzir a fome, o grande desafio atual é garantir uma alimentação adequada e saudável para toda a população, incluindo as pessoas que vivem em níveis leve e moderado de insegurança alimentar. Inclusive, estar em situação de segurança alimentar não significa necessariamente que alguém esteja se alimentando bem, mas apenas que possui acesso regular à alimentação. Portanto, o desafio agora vai além do combate à fome: envolve também promover qualidade alimentar e saúde para toda a sociedade.

IHU – O sistema econômico global favorece ou prejudica o combate à fome? Que mudanças estruturais seriam necessárias para erradicar a fome no mundo?

Lucas Moura – Isso é algo muito importante de ser mencionado, principalmente porque temos, no contexto brasileiro, uma população em situação de rua muito grande, que infelizmente passou por um período de crescimento. Ao mesmo tempo, quando olhamos para o cenário global, vemos conflitos e guerras que obrigam milhares de pessoas a se deslocarem e buscarem outros locais para viver. Nessas situações, essas populações acabam enfrentando níveis extremamente altos de vulnerabilidade alimentar.

Primeiro, precisamos pensar em um sistema econômico global que não associe fome e insegurança alimentar apenas à falta de alimentos. Em contextos como o das pessoas em situação de rua ou de populações afetadas por conflitos territoriais, a insegurança alimentar não ocorre somente porque falta comida. Ela também está relacionada à ausência de moradia, ao acesso inadequado à água, à saúde, à educação e às condições mínimas de sobrevivência. Muitas dessas pessoas sequer possuem estrutura adequada para preparar a própria alimentação, já que não têm acesso a uma cozinha ou a um espaço seguro para viver.

 Por isso, é necessário adotar uma visão mais ampla e sistêmica sobre essa problemática. Não se trata apenas de fornecer alimentos, mas de garantir todo um aparato social que permita a essas pessoas viverem com dignidade. Somente com condições adequadas de moradia, renda, saúde e acesso a serviços básicos é possível assegurar uma alimentação realmente adequada e saudável.

Isso acaba entrando nessa segunda questão, que é a das mudanças estruturais, porque essas transformações precisam considerar todos esses fatores de forma integrada. Quando pensamos em retirar as pessoas da insegurança alimentar, precisamos olhar para esse contexto amplo e sistêmico, entendendo como diferentes elementos se relacionam entre si. A moradia, a ausência de uma estrutura adequada para cozinhar, a falta de acesso à água e ao saneamento básico fazem parte de um mesmo conjunto de fatores que influenciam diretamente a ocorrência da insegurança alimentar.

Portanto, é necessário incorporar essa visão mais ampla na formulação das políticas públicas. Na gestão pública, por exemplo, não adianta uma secretaria de segurança alimentar promover ações de acesso à alimentação saudável se, ao mesmo tempo, não houver políticas de infraestrutura que garantam água potável e saneamento adequado para a população. Essas áreas precisam atuar de maneira integrada para que as políticas tenham resultados efetivos.

 Nessa perspectiva, também é importante reforçar que, da mesma forma que a fome é tratada como uma questão crítica de saúde pública, a água precisa ser compreendida como um elemento essencial para a sobrevivência humana. Afinal, a água também é um alimento e talvez o mais primordial deles. Por isso, problemas estruturais relacionados à falta de acesso à água, que tendem a se agravar ainda mais com as mudanças climáticas, precisam ser tratados como uma questão central para a garantia da vida e da segurança alimentar da população.

IHU – Como os gestores públicos podem aplicar esse novo índice na prática e quais políticas públicas poderiam reduzir os índices apresentados?

Lucas Moura – Esse índice foi desenvolvido com o objetivo de informar a população, contribuir para a pesquisa e servir como instrumento de apoio à gestão pública. Por se tratar de um índice multidimensional, reúne indicadores de diferentes áreas, como saúde, questões sociais, emprego e economia. A ferramenta é composta por dados de acesso aberto, disponíveis para toda a população, mas especialmente úteis para gestores públicos, já que muitos desses dados são produzidos e utilizados diretamente pelos próprios órgãos governamentais.

 A proposta é que esse recurso funcione como um apoio à gestão justamente porque esses profissionais estão mais próximos das informações e possuem maior facilidade de acesso aos dados. Além disso, trata-se de uma ferramenta flexível e adaptável às diferentes realidades locais. Um gestor pode analisar os indicadores disponíveis para sua região e identificar quais apresentam os piores desempenhos. Pode ser um indicador relacionado ao acesso à água, à população em situação de pobreza, à estrutura escolar ou a outros aspectos sociais.

A partir dessa análise, a intenção é estimular uma articulação mais ampla entre diferentes setores da administração pública. Se um gestor da área de segurança alimentar e nutricional identifica problemas relacionados ao acesso à água, por exemplo, será necessário dialogar com os responsáveis pela produção e gestão desses dados em outras secretarias. Dessa forma, a ferramenta busca fortalecer uma discussão territorial e sistêmica sobre a insegurança alimentar, incentivando a integração entre diferentes áreas da gestão pública.

 Dentro do contexto das políticas públicas, essa perspectiva contribui para fomentar ações não apenas no campo da alimentação e nutrição, mas em todas as áreas influenciadas pelos indicadores que compõem o índice.

IHU – Como cortes em programas sociais impactam os índices da fome?

Lucas Moura – Os cortes impactam em diferentes dimensões e de maneiras distintas quando falamos de programas variados. No caso das políticas voltadas ao fortalecimento da agricultura familiar, observa-se uma redução dos incentivos a esses agricultores e, consequentemente, da produção de alimentos que compõem majoritariamente a dieta brasileira e que, em geral, possuem maior capilaridade local. São, em sua maioria, produtores de alimentos tradicionais da alimentação brasileira, cuja produção acaba sendo diretamente afetada. Como resultado, o acesso a esses alimentos pela população tende a se tornar mais difícil e os preços podem aumentar.

Esse cenário contribui para a concentração da oferta de alimentos em grandes distribuidoras e grandes comerciantes, em comparação com circuitos mais curtos de comercialização, como mercados locais e feiras livres. Em outra dimensão, quando se observam os cortes em programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, há um comprometimento direto da renda das famílias e, consequentemente, da qualidade da dieta, já que isso impacta o acesso aos alimentos, especialmente aos alimentos mais saudáveis.

Mais do que cortes pontuais, o que se observa é um processo de subfinanciamento. Mesmo quando há avanços no apoio à agricultura familiar, esse segmento ainda recebe menos recursos do que a agricultura de larga escala. Isso gera desigualdades importantes em termos de acesso à tecnologia, insumos, contratação de trabalhadores e expansão da produção.

Da mesma forma, o subfinanciamento de programas sociais como o Bolsa Família e o Benefício de Prestação Continuada (BPC), que apoia principalmente pessoas idosas e pessoas com deficiência ou condições de saúde específicas, também compromete o acesso à alimentação adequada e contribui para o aumento dos índices de fome.

 Dentro do contexto do índice proposto, isso é especialmente relevante por sua natureza multidimensional. Esses cortes ou subfinanciamentos não afetam apenas o acesso aos alimentos, mas repercutem em todos os indicadores que compõem o índice: acesso à água, renda, condições de saúde, informalidade do trabalho feminino, taxas de pobreza, entre outros. Trata-se, portanto, de um impacto sistêmico, e não apenas restrito à dimensão alimentar.

IHU – Qual o papel da escola no combate à fome, visto que muitos alunos têm como sua refeição principal a que recebem na instituição?

Lucas Moura – A escola, principalmente no contexto brasileiro, sem dúvidas tem um papel fundamental no combate à fome. Não é à toa que o PNAE é uma referência internacional, especialmente no contexto da América do Sul e da América Latina, por garantir, em primeiro lugar, que crianças tenham pelo menos uma refeição diária e que essa refeição seja pautada no Guia Alimentar para a População Brasileira, o que incentiva uma alimentação adequada e saudável. Nos últimos anos, isso tem tido uma importância substancial, sobretudo pela priorização da inserção de alimentos da agricultura familiar e pela redução da oferta de alimentos ultraprocessados na alimentação escolar. Assim, para além de prover uma refeição diária, busca-se assegurar uma alimentação de qualidade.

 Ainda existem desafios relacionados ao cumprimento dessas diretrizes em todo o território brasileiro, pois, ao analisar a implementação da política, observa-se que, em alguns locais, ainda há uma elevada oferta de alimentos ultraprocessados para as crianças. Isso se relaciona a questões de gestão e à própria condução da política em nível local. No entanto, de maneira geral, o papel da escola é justamente garantir uma alimentação minimamente adequada e saudável, conforme previsto na política, contribuindo de forma direta para o desenvolvimento nutricional das crianças e, de forma indireta, para o seu desenvolvimento educacional, já que uma educação adequada depende, também, de uma nutrição adequada.

IHU – Como os agrotóxicos presentes nos alimentos, não apenas nos ultraprocessados, mas também em produtos provenientes da produção em larga escala da grande indústria, podem impactar a qualidade da alimentação e contribuir para o aumento da insegurança alimentar?

Lucas Moura – A utilização de agrotóxicos em larga escala é um importante problema de saúde pública, pois tem sido associada ao desenvolvimento de diversas doenças, além da contaminação de mananciais de água e do solo. Esses impactos se estendem por toda a cadeia do sistema alimentar, afetando desde a produção até o consumo.

 Na etapa produtiva, uma das principais consequências é a degradação do solo, que pode se tornar progressivamente inviável para o uso agrícola. Isso leva à necessidade de expansão constante das áreas de cultivo, o que pode intensificar processos de desmatamento. Algumas culturas específicas ilustram bem essa dinâmica, como a soja, que demanda grandes extensões de terra e, em muitos casos, amplia a pressão por novas áreas de produção.

 Já na indústria e no consumo, estudos têm identificado resíduos de agrotóxicos em diferentes tipos de alimentos, desde ultraprocessados até produtos minimamente processados e in natura. Embora ainda existam debates científicos sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde humana, há evidências de maior incidência de determinadas doenças, incluindo alguns tipos de câncer, em populações expostas a essas substâncias, especialmente em regiões de produção agrícola intensiva.

 Além disso, a dispersão de agrotóxicos por pulverização aérea, inclusive com uso de drones e máquinas agrícolas, amplia o alcance da contaminação, afetando comunidades próximas às áreas de cultivo, pequenos produtores vizinhos e fontes de água. Isso contribui não apenas para o adoecimento humano, mas também para a degradação ambiental.

 Dessa forma, trata-se de um problema que atravessa toda a cadeia alimentar e exige uma discussão mais aprofundada sobre regulação, impactos na saúde pública e segurança dos alimentos, bem como sobre o nível de evidência científica já disponível acerca da relação entre exposição a agrotóxicos e o desenvolvimento de doenças.

IHU – Qual o próximo passo dos pesquisadores após a criação do índice?

Lucas Moura – Temos a pretensão de avançar nesta pesquisa, primeiramente aplicando esse índice a anos subsequentes. A ideia é atualizar o índice para os anos mais recentes, conforme a disponibilidade dos indicadores que o compõem. Para o segundo semestre deste ano, está previsto o lançamento de um dashboard que disponibilizará os resultados desse índice de forma interativa. A ferramenta está em fase final de desenvolvimento e, em breve, será lançada.

Também será realizado um webinário para apresentar esse lançamento. Já deixo o convite tanto para o Instituto Humanitas Unisinos – IHU quanto para os leitores da matéria para acompanharem a apresentação do dashboard, que será divulgada pelas redes da Faculdade de Saúde Pública e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) Combate à Fome.

Além disso, pretendemos avançar em análises mais amplas, utilizando esse índice em articulação com outras metodologias baseadas em abordagens sistêmicas e em sistemas complexos. Essa também é uma perspectiva com a qual venho trabalhando, no sentido de associar os resultados do índice a essas abordagens, ampliando a leitura multidimensional para uma compreensão mais sistêmica e complexa dos fatores incorporados na análise. Dessa forma, o trabalho seguirá em continuidade, com novos desdobramentos e aprofundamentos em pesquisas futuras.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

4 × 5 =