Livro articula investigação em Filosofia do Direito a imersão rigorosa no pensamento indígena, para pensar sobre o mundo por um fio. Elabora bricolagens distópicas. Analisa novas formas de poder. E, em diálogo com Kopenawa, vislumbra alternativas ao niilismo ocidental
Por Carlos Leite, em Outras Palavras
Após um período em que parte considerável da filosofia renunciou a seguir sua “paixão pela totalidade”, isto é, deixou de se comprometer com a criação de sistemas filosóficos que desejassem dizer o real, o próprio campo filosófico viu-se confrontado com a magnitude e o emaranhamento das transformações e crises contemporâneas, como os evidentes desenvolvimentos tecnológicos e a tragédia ecológica, que passaram a exigir um olhar menos “específico”. Essa demanda, no entanto, não implicava um retorno ao sistema teórico moderno, mas demandava articulações que deveriam tender à compreensão do conjunto de acontecimentos em sua complexidade expansiva1. Dessa maneira, surgiram teorias contemporâneas voltadas a desdobrar o sentido, a forma e a força das relações que fundamentam as crises. Parte dessas teorias é analisada no mais recente livro de Renan Porto, Nas brechas de futuros cancelados, que resenhamos aqui.
Renan Porto tem desenvolvido uma pesquisa que articula investigação em filosofia do direito, etnografia e uma imersão consequente e rigorosa no pensamento dos povos indígenas, entre outros elementos. Seu livro mais recente, aqui resenhado, é fruto desse percurso – trata- se de seu terceiro trabalho lançado no Brasil, desta vez pela sempre cuidadosa Editora N-1. A obra reúne seis ensaios escritos entre 2017 e 2023: Um passeio pelo aceleracionismo, Sociedades de controle, Antagonismos biopolíticos, Bricolagens distópicas, Ecologia sob a queda do céu e Da entropia moderna à recomposição ecológica. Alguns desses ensaios foram anteriormente publicados sob outros títulos, enquanto outros foram reestruturados entre si para compor os capítulos desse novo livro.
Uma das principais forças do conjunto de escritos reside na busca pela justa medida entre a intervenção em uma conjuntura específica e o entrelaçamento especulativo com conceitos de correntes teóricas contemporâneas relevantes. Cada ensaio pode ser lido de forma independente, sem prejuízo de compreensão; contudo, defendemos que a leitura em conjunto, e na ordem proposta, não apenas amplia as possibilidades desenvolvidas em cada texto como também confere sentido a limites e especulações que, isoladamente, não se evidenciariam. Ademais, os ensaios estabelecem um arco simultaneamente dramático e contextual entre diferentes propostas diante das rápidas e incessantes transformações do capitalismo contemporâneo, que colocam em risco não apenas a qualidade de vida humana, mas também as próprias condições de sobrevivência na Terra.
Da aposta na aceleração do desenvolvimento tecnológico ao chamado ao envolvimento cosmopolítico com o mundo, o livro constrói um panorama das respostas oferecidas à profunda crise que atravessamos. Nesse sentido, pode-se dizer que o aceleracionismo de Nick Land, além de ser criticado por suas limitações internas, adquire contornos de um fatalismo autofágico, projetado a partir de determinada forma de compreender a relação entre humanos e não humanos – radicalmente oposta à prática teórica da diplomacia cosmológica, tal como desenvolvida pelo pensamento indígena mobilizado por Porto em outros capítulos.
Exemplos adicionais poderiam ser apresentados nessa direção, mas, por ora, basta compreender que, para além do que está explicitamente formulado em cada ensaio, é na leitura do conjunto que a articulação entre eles emerge como uma potente força interpretativa. Em diversos momentos, essa articulação permite, inclusive, projetar elementos analisados para além dos quadros específicos aos quais inicialmente se referem, numa bricolagem – termo caro ao livro – que desdobra novos sentidos para os elementos que a constituem. Assim, este trabalho adquire relevância ao descrever, analisar e criticar as teorias em questão, com vistas a estruturar um quadro no qual a cosmopolítica indígena se configure como estratégia diplomática consequente na constituição de um espaço de luta pela sobrevivência dos seres da Terra.
Antes de tratar dos capítulos, cabe um aceno a certas características gerais do texto. Frequentemente, Porto escreve em primeira pessoa, como em um diário situado no interior de uma engrenagem longa, viva, singular e, ao mesmo tempo, qualquer. A voz que narra surge a partir de seu entrelaçamento com as redes de produção do capital, dos corpos e das subjetividades, ao descrever as formas emergentes pelas quais a agência do corpo social desenrola suas figuras de recusa e respiro diante do maquinário capitalista e de suas conformações identitárias. Desse modo, o autor descreve seu próprio lugar quando este se configura como ponto nevrálgico de uma rede tensa de sobrevivência, invenção e exploração. Os conflitos são sentidos em seu entorno e na superfície da pele. No ensaio Ecologia sob a queda do céu, por exemplo, alguns de seus familiares ou antigos vizinhos aparecem como elos de um vasto mecanismo de apropriação e exploração – inseridos na circulação do cacau no mercado mundial do chocolate –, mas também como articuladores imanentes de formas coletivas de sobrevivência e desvio, num emaranhado nada inocente que esboça a construção coletiva das condições de possibilidade da autonomia dos povos que vivem da terra. Trata-se de uma colagem conceitual que vai da autoetnografia à diplomacia (cosmopolítica) urgente e estratégica, possível apenas após a “queda do céu”2, como veremos.
Passaremos, a partir de agora, a expor as linhas gerais de cada capítulo. O primeiro, Um passeio pelo aceleracionismo – que receberá uma análise mais detida, uma vez que, a nosso ver, é a partir do posicionamento em relação ao debate nele proposto que as contraposições serão desdobradas, além de que nele são mobilizados conceitos que reaparecem nos demais capítulos como potenciais de análise e descrição –, inicia-se com a ideia de um vírus mortal vindo do futuro, isto é, o advento da autonomização da lógica do avanço tecnológico, tal como formulada no aceleracionismo de Nick Land3. Porto argumenta que, para o pensador inglês, os fluxos de reprodução do capital são tomados como a única forma realmente existente de comandar e desenvolver a sociedade, em uma busca frenética por um futuro regido diretamente pela racionalidade que constitui a realidade do capital, a saber, sua força de metamorfose e expansão contínua, a qual encontra na transformação tecno-capitalista sua forma acabada e supostamente imparável. Para Land, caberia somente intensificar tais fluxos, dado que estamos submetidos à persistente plasticidade das relações capitalistas, capazes de forjar sociabilidades que lhe sejam úteis e de submeter e explorar as alternativas que tentam se opor a elas. Assim, mais do que uma lógica econômica, tratar-se-ia do desenvolvimento de uma inteligência cuja força principal está em aumentar suas possibilidades de interação, conflituosa ou não, com todos os entes existentes, de modo que, em dado momento, até mesmo o capitalismo tal como o conhecemos seria substituído por algum sistema no qual o ser humano seria fundamentalmente obsoleto. Talvez seja possível dizer que, nessa distopia, a exploração do homem pelo homem chegaria ao fim, uma vez que os mecanismos dessa superinteligência submeteriam todos a ela. Outrossim, a superação do capitalismo seria uma mera questão de “quando”, sendo impossível desviar do fluxo que a “inteligência alienígena”, como Land a nomeia, intensifica. Sem entrar nos pormenores da promessa distópica de Land, importa ressaltar a forte característica pós-humana de sua visão, dada a abordagem presente no ensaio. Como já ficou claro, com o avanço da tecnologia, os seres humanos e sua força de trabalho, inteligência e criatividade tornam-se irrelevantes para o sujeito da aceleração. Ao mesmo tempo, o desdobramento desse fluxo implica, desde já, a aceitação de que não há mundo para todos. Porto deixa claro, portanto, como tal pós- humanismo investe, já na atualidade, suas garras algo fascistas para modular sociabilidades e governos, ao pressupor uma disputa fratricida entre os entes existentes pelo tempo e pelos recursos ainda disponíveis aos humanos, visto que, em síntese, não há mundo para todos.
Da mesma tradição deriva o aceleracionismo de esquerda, corrente que busca desfazer vínculos supostamente necessários entre os fluxos do capital e o processo de desenvolvimento tecnocientífico, acreditando ser possível se contrapor à autorreprodução do vírus por meio do jogo entre desterritorialização e reterritorialização. Grosso modo, seus defensores entendem que a produção resultante da inteligência coletiva não deve simplesmente retornar ao fluxo econômico, por não estar necessariamente ligada a ele, mas às diversas formas produtivas que dizem respeito a outras racionalidades e práticas. Com isso, os autores ligados a essa corrente acreditam na criação de uma clivagem no desenvolvimento tecnológico que permitiria um horizonte de reorganização produtiva e política no interior de nossas sociedades. Segundo Porto, os autores do manifesto do Aceleracionismo de esquerda (2013), Nick Srnicek e Alex Williams – que, junto a Mark Fisher, também inglês, são os principais expoentes dessa corrente teórica –, tentam compor um novo prometeísmo, no qual haveria espaço para formas alternativas de racionalidade e, em alguma medida, de mundos. Ou seja, longe do absolutismo da “inteligência alienígena” de Land, uma espécie de inteligência coletiva4 deveria disputar as promessas e narrativas de futuro a partir de projetos nos quais a automatização, a criatividade e um renovado antagonismo de classe caminhariam juntos, tanto em relação ao ganho econômico que se reverteria para a sociedade, quanto em relação às formas mais democráticas de governança. É com essa dupla de autores que, pela primeira vez no livro, surge a ideia de racionalidades e processos temporais alternativos à modernidade hegemônica. Contudo, mesmo nesse caso, a aposta em uma formalização demasiadamente moderna, ou seja, de alguma maneira, interna ao vírus, acaba por submeter tal desvio a oposições tradicionais e controladas. Os autores defendem que a necessidade de enfrentar problemas cuja resolução demanda a articulação entre diferentes escalas de poder ganhe centralidade contra localismos e horizontalismos (supostamente) impotentes, o que, segundo Porto, reproduz modelos estruturados em oposições modernas entre Estado e mercado, por exemplo.
É importante destacar que, em ambos os casos, a dinâmica de funcionamento do capital é analisada a partir de redes alimentadas pela circulação tecno-social de afetos, desejos e pensamentos codificados como bits informacionais, cujas entradas formalizam saídas determinadas pela programação desenvolvida pela máquina social, numa interface que utiliza positivamente a excitação e a modulação dos diferentes agentes com os quais interage. Essa dinâmica, analisada nesse mesmo ensaio, diz respeito ao modelo cibernético que Porto capta com precisão. Tal modelo, já tendencialmente majoritário na década de 1990, leva nosso autor a criticar a aposta nas oposições modernas como formas de apreender o estado de coisas atuais e suas redes disseminadas e moleculares5.
Ainda nesse ensaio, discute-se o Manifesto Ciborgue, texto que enaltece o hibridismo entre seres humanos e máquinas como forma de repensar o sujeito moderno submetido às relações sociais e ao familismo capitalista. Assim, o debate em torno do prometeísmo tecno- social – seus conflitos internos, limites, distopias e promessas não cumpridas – recebe atenção considerável. Para aquele que consideramos o propósito central do livro, a saber, demonstrar as características da nova forma de funcionamento das redes de antagonismo político, produção econômica, racionalidades, práticas de controle e desejos de alternativas, o ensaio se mostra exitoso nas escolhas dos elementos que investiga.
O segundo ensaio, Sociedades de controle, busca, justamente, compreender as consequências da nova forma de poder designada pelo próprio título, significando, portanto, a caracterização da sociedade nesses termos. O conceito advém de um texto breve, porém influente, do filósofo francês Gilles Deleuze (1990) e visa descrever como o poder passou a se efetivar como uma teia de relações descentralizadas, atuando diretamente sobre as formas de desejar e de projetar a autoprodução dos indivíduos, em estreita relação com as formas cibernéticas, que se tornaram uma espécie de dispositivo organizador dos fluxos que permeiam os processos capitalistas atuais. Por isso, como reclama Porto, as dicotomias modernas já não são capazes de abarcar nem as formas de poder mais efetivas nem os conflitos realmente existentes, disseminados pelo social. Nessa nova configuração, as forças de fuga e invenção para além da máquina capitalista – ainda que sufocadas pela precariedade do cotidiano e do mundo do trabalho, realidade que o autor nos faz experimentar em um percurso angustiante pelas condições laborais e jurídicas das sociedades atuais, inclusive no norte global – disputam o mesmo espaço, ocupando a mesma modulação da própria máquina capitalista.
Como o autor defende já no primeiro capítulo em que aborda o tema, as novas relações sociais “se organizam por microconflitualidades e pela porosidade e flexibilidade crescentes entre diferentes segmentos sociais”, nas quais “as formas e funcionamento dos agentes que compõem o Estado e o mercado são moldados” (p. 36). Ou seja, de um lado, os grandes sujeitos, como Estado e mercado, seguem existindo; do outro, já não demandam sujeitos constituídos pela modulação identitária da modernidade; antes, desenvolvem estruturas de exploração da produção coletiva a partir de processos moleculares que forjam a forma majoritária de exploração. Nesse cenário, Porto reencontra o empobrecimento radical do horizonte de emancipação e imaginação, do qual emerge a imagem de “esgotamento e cancelamento do futuro”. Importa ressaltar que o futuro que se esgota é aquele concebido nos termos pensados pela modernidade. Persistem, ainda, focos atomizados de resistências particulares que, por diversos motivos, não conseguem conter a dispersão desmobilizante – e, em certa medida, depressiva – da multidão, cujo porvir se converte em mero efeito de um sequenciamento pormenorizado e calculável. O tempo passa a ser encarado como gestão, cálculo de probabilidade econômica e investimento libidinal gerenciado, configurando uma forma de controle profundamente distante da ilusão de livre iniciativa ou de qualquer noção semelhante. Não por acaso, uma análise da literatura de Franz Kafka e de leituras dele feitas por Mark Fisher, por exemplo, povoam parte desse ensaio. É o próprio Mark Fisher quem, segundo Porto, observa que, na atividade política, sempre nos encontramos acompanhados pelos fantasmas do tempo – das lutas e das derrotas que marcam conflitos e rebeliões fracassadas. No entorno da autonomia abortada, para além de Fisher, vigoram temporalidades estranhas, habitadas por entes da nova configuração social – imigrantes, feministas, grupos negros e indígenas etc. –, cuja consistência e identificação vacila, abrindo certas brechas que parecem instaurar um espaço puro sem horizonte, vazio e, talvez por isso mesmo, fundamental. É a esse tipo de brecha que o livro parece se dirigir: uma relação atual com o passado de lutas e de sonhos fracassados que, ainda assim, persistem. Nessa insistência, torna- se invisível que o percurso de luta pela sobrevivência da Terra e pela emancipação dos seres passa, necessariamente, por um desencontro com o futuro tal como concebido pelos modernos. Com efeito, esse entrelaçamento entre certa modernidade vacilante, falha ou fantasmática e outras formas de tempo e de ser constitui um dos dispositivos fundamentais da construção teórica desenvolvida no livro. De um lado, a tragédia ambiental impõe tal processo, pois o mundo que está por um fio é aquele compartilhado por todos os seres. De outro, esse encontro só pode se produzir em uma relação estranha, insólita e imprópria, isto é, em termos que não coincidem com os da modernidade hegemônica. Portanto, mais uma vez, temos a menção à importância fundamental da relação com outras formas ontológicas.
No entanto, o quadro do antagonismo vacilante gera, sem dúvida, descrença em relação às forças efetivamente existentes dos projetos alternativos ao capital; por isso, Porto insiste em apontar a fragilidade constitutiva do cenário descrito. Se, de um lado, há um rastro de microconflituosidades dispersas pelo campo tecno-social; de outro, solidariedade, liberdade e as estruturas necessárias à ação comum falham estrondosamente. Dessa maneira, o autor nos convoca a um investimento libidinal intenso na produção do comum, ou seja, na produção daquilo que será o espaço em que o antagonismo pode voltar a engendrar novos sujeitos e coletividades para além do capital e de suas relações com os grandes sujeitos modernos. Trata-se da defesa de “uma estratégia que não é articulada em reação às posições do governo, mas em relação às condições concretas que nos permitem ou não agir e construir uma experiência compartilhada dos modos de produzir nossa vida.”
Seguindo essa leitura, não podemos deixar de mencionar nosso único ponto de discordância com o autor. Estamos no capítulo Antagonismos biopolíticos, no qual Porto analisa o populismo e o (neo)desenvolvimentismo como formas contemporâneas utilizadas por governos para aprofundar a precariedade laboral e impulsionar projetos que intensificam a tragédia ecológica, entre outras ações problemáticas. É fundamental reconhecer os ataques que as diferentes formas de vida minoritárias sofrem diante de todos os projetos políticos que navegam pelo capitalismo; no entanto, parece-nos igualmente importante atentar para as dinâmicas que operam nos espaços ambíguos possíveis, tensionando as formas de exploração e violação existentes. Para tanto, é necessário apreender adequadamente as estratégias em jogo, bem como os sujeitos envolvidos e o campo de conflitos políticos em que se inscrevem. Nesse sentido, entendemos que conceitos como populismo e (neo)desenvolvimentismo merecem uma atenção crítica mais cuidadosa, sobretudo por evidenciarem certa indeterminação quantos aos diferentes momentos históricos que pretendem abarcar, segundo o autor.
Esquematicamente, no que diz respeito ao populismo, pode-se afirmar que, desde que a obra de Ernesto Laclau passou a circular entre nós6, o termo – geralmente empregado de modo depreciativo por jornalistas para nomear estratégias governamentais que escapavam aos modelos estabelecidos pelos centros de poder – adquiriu outra densidade, próxima de um método de leitura sociopolítica que considera as relações entre instituições políticas e a sociedade para além dos modelos liberais vigentes, ao identificar uma rede de estratégias materiais voltadas à apreensão de demandas, desejos e insatisfações, articulando esses elementos em torno de um discurso pragmático que busca se converter em programa de governo combativo, orientado à produção de mudanças sociais por meio de embates que movimentam os arranjos da democracia representativa. Já o (neo)desenvolvimentismo7, após um breve histórico apresentado no início do ensaio, é definido como uma política econômica governamental que privilegia as empresas nacionais por meio de medidas como desonerações fiscais, subsídios a setores estratégicos, entre outras, com o objetivo de transformá-las em potências internacionais e fomentar o crescimento do emprego formal. Nosso ponto é que o entrelaçamento desses conceitos e a extensão temporal que visam abarcar indicam um problema de leitura acerca de diferentes momentos dos governos das últimas décadas. À luz da definição de populismo mencionada, fica evidente que tal arranjo é parte de um momento específico, o da chamada “nova matriz econômica”, quando o governo federal da época assumiu uma posição que ficou conhecida como “agenda FIESP”8, adotando as medidas já mencionadas e outras correlatas, além de mobilizar um discurso nacionalista que encobria uma série de violações em nome dos progressos necessários para tornar o “Brasil um país de classe média”, como se afirmava à época. Ao generalizar essa relação para além do contexto em que ela de fato ocorreu, incorre-se não apenas em imprecisão conceitual – uma vez que a conceituação discutida não se encontra adequadamente aplicada no texto –, mas também no enfraquecimento da análise, que perde de vista formas alternativas , ainda que limitadas, de estabilização de mudanças sociais e políticas que se mostraram efetivas. Como se sabe, o populismo pode ser tanto uma política de esquerda quanto de direita. É possível que o uso do termo no livro dialogue com a leitura proposta por Vladimir Safatle sobre o esgotamento da estratégia de poder dos governos petistas9. De toda forma, acreditamos que ainda seria uma generalização.
Seguindo o debate, nota-se que foi mencionado acima o programa de distribuição de renda como uma forma de reforçar o ganho dos trabalhadores. Ora – e aqui voltamos a concordar com a leitura do autor em questão –, ao conceder o benefício a famílias que não precisam comprovar vínculo de emprego formal, colocando-as na base da ação, opera-se um reconhecimento da população como força de trabalho em si ou, mais precisamente, como força produtiva. A despeito de discursos voluntariosos e caridosos em torno do programa, o fato é que, não por acaso, ele ocorre em paralelo a uma mudança radical no mundo do trabalho, como argumenta Porto. É nesse ponto que o conceito de biopolítica passa a operar, reconhecendo o deslocamento da produção do valor do trabalho industrial para a metrópole10 e atravessando o corpo coletivo no qual as novas formas de geração de renda e exploração se desenvolvem. Colocando em perspectiva o “Brasil grande” da “nova matriz econômica” e o solo produtivo da biopolítica e de seus empreendedores, percebe-se a dimensão do equívoco de leitura política que ocorreu naquele momento11, algo que o ensaio evidencia de forma contundente.
Dito isso, passemos ao penúltimo capítulo, intitulado Ecologia sob a queda do céu, que é, a nosso ver, o ponto alto do livro. Defendemos que o ensaio anterior, Bricolagens distópicas, funciona como uma abertura à cosmopolítica que será aprofundada nesse ensaio. É certo que Bricolagens não se esgota nessa função, ao explorar relações entre a ciência moderna e o pensamento indígena e, sobretudo, ao desenvolver o conceito e a prática da bricolagem – entendida como uma forma de articular elementos díspares em uma estrutura da qual derivam não apenas conhecimentos, mas também novas formas de organização que consideram sentidos não previamente atribuídos a esses elementos. Entretanto, do nosso ponto de vista, o que é elaborado nesse ensaio ganha força justamente ao se articular com o que se desenvolve em Ecologia sob a queda do céu, constituindo uma espécie de demonstração prática de bricolagem bem-sucedida. Isso se torna evidente, por exemplo, no tratamento do conceito de diplomacia. A riqueza de possibilidades do termo e de sua prática é amplificada pela leitura do capítulo anterior, o que reforça a consistência do trabalho editorial na disposição dos capítulos.
Em Ecologia sob a queda do céu, observa-se uma potente articulação com o pensamento dos povos indígenas, sobretudo com Davi Kopenawa e seu livro, escrito em parceria com Bruce Albert, A queda do céu (2015). Inicialmente, Porto aponta alguns pormenores sobre a problemática recepção da obra, mostrando como a possibilidade de apreensão do núcleo especulativo, epistemológico e mesmo metafísico do pensamento indígena torna-se praticamente inviável quantos tais pensadores são enquadrados na concepção de “outro”, o que obstrui a estruturação de pensamentos complexos. Para esses “outros”, restam meras projeções místicas ou míticas, cuja validade é, no máximo, relativizada e tratada como algo genérico ou exótico. O ensaio, porém, evidencia que se trata de uma espécie – não tradicional, mas muito efetiva – de realismo ecológico e político e, por isso, mais uma vez, ressaltamos a importância do conceito de diplomacia. Tal perspectiva recebe o nome de “contra-antropologia”, isto é, um pensamento que, diferentemente da especulação ocidental tradicional, não comete as simplificações e violações em relação a quem analisa, mostrando, antes, os limites que os próprios seres se impõem em sua destrutiva paixão por si mesmos e em sua suposta superioridade intelectual.
Outro ponto relevante do ensaio é a imersão no sentido profundo da imanência radical projetada por Kopenawa, perceptível na descrição de um universo rico em entes – humanos ou não –, todos, porém, ontologicamente singulares e relevantes. Isso se manifesta nos conceitos e elaborações cosmológicas, como “terra-floresta” ou “uhiri” (p. 95), bem como no ataque à ilusão humanista de progresso infinito, que busca salvaguardar o ser humano por meio da colonização de outros territórios ou da tentativa de reverter a finitude da Terra. Dessa maneira, o ensaio nos apresenta os “povos da mercadoria”, como são chamados os brancos, identificando-os como aqueles que criam diferentes relações de produção e sociabilidade regidas por uma economia de propagação incessante de mercadorias, além de processos de identificação e normalização que buscam inviabilizar os projetos de luta pelo bem viver.
Neste ponto, cabe ressaltar que a imersão imanente proposta por Kopenawa também se configura como um passeio pelo universo, pois, uma vez lançados sobre o frágil manto da Terra, percebemos que acima de nós não há somente um céu a ser explorado, mas um cosmo em relação ao qual não somos seres exteriores. Do mesmo modo, delineia-se uma maneira de “explicar a natureza” derivada de “diferentes povos que também precisam criar alianças entre eles” (p. 96). A essa aliança deve corresponder um tipo de política que esteja à altura dos compromissos necessários à manutenção da nossa existência, bem como da forma com que diferentes povos e entes trabalham na construção de soluções. Trata-se da cosmopolítica, uma forma de nomear um trabalho em andamento, uma prática na qual convergem pragmatismo, ética e estratégia.
Em muitas situações, os entes não humanos têm importância igual ou superior à dos humanos, de modo que as soluções passam a depender de um tipo de diálogo interespécies, sem o qual a Terra sucumbirá. É esse diálogo que recebe o nome de diplomacia, uma forma singular que não se limita ao uso instrumental para a construção de consensos, mas recorre a verdades pragmáticas que atravessam e fazem mundos convergir. Assim, na análise dessas correntes teóricas, emerge uma sociedade na qual entes não humanos se entrelaçam e coproduzem formas de vida cuja consistência não responde necessariamente às determinações exteriores do capital e, por isso, seus desdobramentos permanecem abertos às disputas políticas.
Com efeito, como tratar de maneira consequente dos limites da Terra – ou das próprias condições de possibilidade da existência dos seres vivos – e, ao mesmo tempo, lançar, como faz Kopenawa, uma convocação política constante à ação pela Terra? Ou, mais precisamente, como pensar o convite a uma atividade distinta da concepção tradicional de ação, considerando o interminável trabalho de uma ecologia política que seja, ela mesma, a composição do cuidado com o infinito no qual estamos inseridos – nós, que aqui permanecemos por tão pouco tempo? Em suma, como equalizar essas duas frentes e conferir sentido a uma ação voltada à preservação de um território finito?
Segundo Porto, o encontro com Kopenawa permite vislumbrar uma alternativa ao niilismo ocidental diante da finitude radical que se impõe. Trata-se de reconhecer a tragédia descrita sem sucumbir ao desespero e, sobretudo, de apreender a forma distinta de se relacionar com o entorno. Se, por um lado, a Terra é finita; por outro, essa finitude não deve ser concebida como estranha ou exterior à nossa própria constituição. Em uma fuga urgente do humanismo, caberia intensificar projetos diplomáticos interespécies que reconheçam a pluralidade ontológica e de mundos na qual estamos inseridos enquanto habitamos a Terra. Só assim poderá emergir um programa pragmático e ecologicamente consequente, à altura das possibilidades ainda existentes de viver bem neste planeta.
No último capítulo, Da entropia moderna à recomposição ecológica, Porto continua a analisar como o presente foi transformado, de um lado, em um espaço vinculado a um futuro controlado pelo capital – ou, mais precisamente, a um tempo sem alterações – e, de outro, em um momento no qual o desespero diante da tragédia ecológica, somado a outras crises, nos lança em uma situação na qual não há mundo para todos, convertendo-se no elemento que põe em funcionamento a engrenagem da sociabilidade em geral. A própria trajetória acadêmica do autor entra na análise da economia política cotidiana do capitalismo do nosso tempo, cujo funcionamento visa produzir uma sociedade em guerra consigo mesma pela sobrevivência diária, bombardeada “por uma enxurrada de informações e estímulos que o cérebro é incapaz de processar”. Trata-se de uma espécie de estratégia que paralisa por meio do sofrimento psíquico, da precarização e da descrença na busca por autonomia ou mesmo por um corpo saudável. Segundo Porto, a despeito da disseminação dessa dinâmica, conceitos como o de necropolítica12endossam o caráter indissociável dessa análise em relação aos recortes de raça e gênero, que intensificam violações e desestruturam redes de solidariedade.
Nesse desdobramento, surge uma referência ao trabalho do filósofo Marco Antônio Valentin, trata-se da antropia, conceito que busca nomear o processo pelo qual a ação humana se transforma em força de desestabilização geral das leis fundamentais do planeta, produzindo o desequilíbrio que põe a Terra em risco. Porto apresenta, então, um breve histórico do debate em torno do Antropoceno – entendido como um novo momento ecológico que busca descrever a configuração da Terra a partir da antropia –, bem como de suas variações, como Capitaloceno, Negroceno etc., e de suas implicações. Refazer esse percurso permite evidenciar não só a multiplicidade de formulações conceituais, mas também que, na variedade de perspectivas, há um ponto de convergência: foi durante a modernidade capitalista que se intensificou, de maneira decisiva, a atividade que hoje nos coloca em risco.
Ademais, as diversas formas de nomear o Antropoceno apontam para o sujeito moderno como o dispositivo central da engrenagem capitalista, responsável por processo de submissão e violação da natureza. Nesse sentido, Porto faz um ajuste de contas com os desdobramentos neorracionalistas surgidos nos debates em torno dos diferentes aceleracionismos. Trata-se de um conjunto de autores que busca reabilitar aspectos do Iluminismo para erigir uma estrutura geral baseada na inteligibilidade dos elementos que compõem os problemas apresentados, como se, em última análise restasse algum sentido racional fundamental a ser reativado como princípio de resolução transversal às diferentes escalas, mantendo-se fiel à sua própria forma. Em outras palavras, trata-se da já conhecida estratégia de estender as alternativas até a racionalidade que está na base do universalismo. Assim, o racionalismo etnocêntrico que fundamenta as formas de submissão epistemológica e existencial dos territórios não brancos reaparece, paradoxalmente, como horizonte de solução. Em oposição a essa tentativa de reabilitação, elenca-se uma série de autores e de seus respectivos trabalhos que não reproduzem o gesto do universalismo ocidental. Desde Eduardo Viveiros de Castro e Débora Danowski até Yuk Hui, passando por Milton Santos, Anna Tsing, Ailton Krenak e Bruno Latour, surgem diversos projetos de racionalidades alternativas, bem como concepções singulares de tempo e de mundo. Em comum entre eles, nos diz Porto, está o fato de levarem a sério, até as últimas consequências, o que mostram os diferentes seres com os quais os respectivos trabalhos dialogam, sobretudo, no que diz respeito às formas destrutivas atuais que o “povo da mercadoria” insiste em replicar, mas também – e isso é fundamental – às possibilidade de aprendizado com seres que já vivem o fim de seus mundos há muito tempo.
Assim, delineiam-se visões cosmotécnicas e cosmopolíticas, isto é, sistemas de pensamento que se reconhecem como parte de um universo cuja composição não é modulada pelo universalismo etnocêntrico dos modernos e de seus seguidores e que, por isso mesmo, exigem outras formas relacionais e descritivas. A técnica deixa de estar submetida à forma econômica hegemônica, assim como à separação entre natureza e cultura que a concebe como algo exterior aos seres. Do mesmo modo, a política não deve se restringir ao desenvolvimento do progresso humano e à satisfação de desejos modulados pelo capital. (Co)movida pelo universo, deve, antes, abrir mão do futuro para acessar as brechas do tempo que invocam um repertório existencial derivado da complexidade colaborativa da natureza, cuja organização não passa pela exploração e destruição do ambiente em que se insere. Mais uma vez, a articulação com os fantasmas torna-se um dispositivo fundamental, ao partir do aprendizado que consiste em apreender formas de envolvimento com o mundo – de cuidado, sobrevivência e produção – que não se encaixam na linearidade ocidental, atualizando práticas e saberes estranhos – e por vezes incômodos – ao presente.
Por fim, sem apelar a promessas fáceis de uma vida mais autêntica, o livro defende a persistência de certas formas de vida não só como alternativas sociais e políticas, mas também como alternativas temporais disponíveis ao nosso redor, nas brechas. Trata-se de um convite à experimentação e à criação de possibilidades para uma vida cuja finalidade não é impor controle e exploração sobre outros seres, mas abrir campos nos quais alteridades se encontrem e produzam mundos em conjunto. Dessa maneira, as brechas revelam-se mais próximas do que poderíamos supor. No entanto, como mencionado, não apresentam horizonte definido, nem reproduzem as setas do tempo e da configuração do estado de coisas vigente. Talvez por isso sejam ignoradas, com todos os riscos que isso pode acarretar. O trabalho do livro consiste, assim, em nos lembrar não apenas a existência dessas brechas, mas também em alertar para a urgência de intensificar sua travessia.
1 Sobre algumas das possibilidades de leitura dessa nova complexidade, ver: Bensusan, Hilan. O realismo especulativo e a metafísica dos outros. Revista Eco-Pós, Rio de Janeiro, v. 21, n. 2, 2018, p. 94 -110.
2 Sobre a maneira singular como a “queda do céu” é abordada por Kopenawa e Albert, ver: VALENTIM, Marco Antônio. A vastidão do vazio – Lucrécio, Kant, Kopenawa. Revista de Filosofia Moderna e Contemporânea, Brasília, v. 9, n. 3, dez. 2021, p. 273-292.
3 Teoria que, hoje, encontra ressonância entre alguns dos participantes do movimento MAGA (Make America Great Again), encabeçado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e voltado à promoção de um suposto retorno a um país absolutista e triunfante. Tal projeto articula a pretensão de submeter países e empresas estrangeiras a estratégias de controle de recursos naturais com uma expansão política ancorada na aceleração da amálgama entre tecnologias de segmentação e modulação de comportamentos, políticas de controle e economia extrativa, numa fusão entre big techs e Estado reacionário, os quais, em conjunto, apostam na produtividade/imprevisibilidade de uma inteligência artificial capaz de tornar os seres humanos obsoletos. Sobre isso, ver: https://jacobin.com.br/2025/07/o-iluminismo-das-trevas-esta-moldando-a-estrategia- trumpista-inclusive-no-ataque-ao-brasil/; https://jacobin.com.br/2025/01/esqueca-steve-bannon-a-nova-figura-chave-de- trump-e-peter-thiel/; https://www.estadao.com.br/link/empresas/criticos-da-ia-sao-o-anticristo-o-que-o-bilionario-peter-thiel- diz-em-suas-palestras-secretas/?srsltid=AfmBOoraC1H2_gKzlFCx7TQUsy0OMsjbuqF6Wjwm7yy8coZdBwcdaJXq.
4Não podemos deixar de mencionar a referência feita à ideia de generalintellect, desenvolvida por Marx nos Grundrisse (2011, p. 587-589).
5Conceito utilizado por Gilles Deleuze e Félix Guattari para descrever formas de funcionamento do desejo, bem como certas estratégias do capital na tentativa de capturar e vampirizar os fluxos livres do desejo e das relações sociais que ainda não entraram nas modulações da axiomática capitalista, com seus valores e identidades. Ver, entre outros, de Deleuze e Guattari: DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Micropolítica e segmentariedade. In: DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Milplatôs. São Paulo: Editora 34, 1999. v. 3.
6Só para citar uma espécie de marco, lembramos que, em 2013, o filósofo Vladimir Safatle já escrevia, em sua coluna no jornal FolhadeSãoPaulo, uma espécie de verbete sobre o populismo, em um contexto no qual a produção acadêmica sobre o tema já estava em curso e seguiu se expandindo posteriormente. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/99301-populista.shtml. Acesso em: 3 abr. 2026.
7A obra da economista Laura Carvalho é especialmente relevante neste debate. A autora critica as escolhas associadas à chamada “nova matriz econômica”, sobretudo por sua adesão à agenda FIESP, e se posiciona contra as críticas simplificadoras às políticas econômicas dos primeiros governos petistas, que privilegiaram o mercado interno e a distribuição de renda. Essa distinção abre caminho para uma visão mais complexa das decisões dos diferentes governos e das formas pelas quais mercado interno e indústria nacional foram articulados nas políticas econômicas do país.
8 Não foram poucos os analistas que identificaram, na adoção da chamada “agenda da FIESP”, um fator decisivo para a morte política do segundo governo de Dilma Rousseff. Não se pode deixar de mencionar a misoginia e o reacionarismo escancarados na votação do impeachment, mas seria equivocado ignorar os efeitos da recessão econômica e a forma como o governo respondeu a ela. Entre outras medidas, promoveu-se um ajuste fiscal que implicou corte de gastos e desonerações tributárias para empresas.
9Os exemplos nos quais o filósofo destaca seu ponto de vista podem ser encontrados com facilidade. Citamos aqui esta entrevista por apresentar um desdobramento um pouco mais extenso: SAFATLE, Vladimir. Entrevista de Vladimir Safatle concedida a Frederico Lyra. CriseeCrítica,v. 2, n. 2, 2019. Disponível em: https://criseecritica.com/wp-content/uploads/2021/07/008-V2-N2-2019-CC.pdf. Acesso em: 3 abr. 2026.
10 A referência clara, embora não única, em relação a este debate é o pensador italiano Antônio Negri. Ver, por exemplo: NEGRI, Antônio. Dispositivo metrópole. A multidão e a metrópole. LugarComum, n. 25-26, p. 201- 208.
11 Acreditamos que as Jornadas de 2013 são, entre outras coisas, resultado desse erro. Sobre o tema, ver: CAVA, Bruno; COCCO, Giuseppe. Amanhãvaisermaior: o levante da multidão no ano que não terminou. Rio de Janeiro: Annablume, 2014.
12Termo cunhado pelo pensador camaronês Achille Mbembe (2018) para designar um conjunto de estratégias que têm a morte como força central, seja no ato em si que produz genocídios ou chacinas, seja no esgotamento sistemático das condições de vida de determinadas populações.




