Sequestradores e sequestrados nas redes bolsonaristas

Uma parte da militância bolsonarista está rendida aos algoritmos. Alguém os conduz – e levanta alto o muro do cativeiro? Mas mesmo estes não controlam toda a narrativa. E examinar sua ação não significa perder de vista os erros cometidos pela esquerda

Por Thiago Turibio, em Outras Palavras

Um homem de boné derrama em sua boca um líquido branco pastoso de dentro de uma embalagem de detergente Ypê. Ele está num carro. A cena é registrada aos risos do banco ao lado. São dois goles longos e prazerosos. Ainda com restos nos lábios, ele se volta para a câmera e levanta o dedo médio: “aqui para você, petista”. Que os psicanalistas nos expliquem os abismos sexuais que atravessam a performance.

O vídeo viralizou, óbvio. Rapidamente, nos comentários, de especialistas às caixas das redes sociais, o diagnóstico foi reposto:

– bolsonarista maluco.

– É uma seita.

Logo então internautas se divertem lembrando das rezas para pneus, patriota no caminhão, marcha soldado à la Trapalhões, comunicações luminosas com ETs. São doidos mesmo.

Visto e revisto, Leonardo Rodrigues, o homem que bebe “detergente” em defesa da Ypê, não parece fora do controle.1 Há uma pós-ironia no vídeo que denota consciência do que está fazendo. Mais tarde, esclareceu que se tratava de iogurte de coco. Ao publicar o vídeo, Leonardo estimula outras pessoas a não levarem a sério a interdição da Anvisa e, eventualmente, a replicarem o mesmo comportamento. Há, portanto, perversidade, menos que loucura.

Uma parte da militância bolsonarista realmente está sequestrada pelos algoritmos. Muitos não conseguem discernir no renovado e intenso fluxo de mensagens truncadas um fio contextual que estabilize um campo mínimo de factualidade, que é substituído por enquadramentos fantasiosos, retirados do infinito caudal conspiracionista da extrema direita.2 Uma vez ali, não há portas fáceis de saída.

Mas se há sequestrados, deve haver sequestradores. Leonardo é um sequestrador. Sinaliza com uma piscadela para aquela parte da militância que já não habita este mundo. Ganha, com isso, likes, dá uma lacrada, gargalha bastante. Ao perceber o risco de responsabilização jurídica, disse se tratar apenas de um meme, sem qualquer intenção política.

Michelle Bolsonaro, nesse registro, é uma sequestradora de alto gabarito. Em meio à interdição, ela postou uma foto do detergente em sua rede: “por aqui só usamos Ypê”. Se Leonardo ganha likes, Michelle ganha militantes, votos e levanta ainda mais alto os muros do cativeiro. Por sua vez, o vice-prefeito de São Paulo lava louça com o detergente. Repete o jingle comercial, o mesmo da Michelle. Depois então Jojo Todynho posta vídeo com o detergente vermelho na mão dizendo que passa mal se não lavar a louça com Ypê. Em seguida, foi a vez do Veio da Havan, que disse entender bem de perseguição, já que era um dos maiores perseguidos do Brasil. O algoritmo faz seu trabalho: distribui, bomba, viraliza. Pronto. Está feito o do dia.

Lá embaixo, na várzea, um homem afirma que quando não tem xampu, usa detergente neutro, circulando a embalagem sobre a cabeça: “faz mal não, sô. Fica dando ouvido para esse povo, não. Esse povo tá, ó, desparafusado da cabeça”. Em seguida se apresenta como pré-candidato do PL. Ele já não parece ter tanto controle do que diz. Mas sabe exatamente o que quer com o vídeo.

Em diferentes níveis, todos ganham ou pretendem ganhar alguma coisa.

Já um dos vídeos aponta para outra direção. Neste, um homem aparentando ter algo em torno de 60 anos, com uniforme do trabalho (talvez atue na coleta de lixo), joga detergente pelo corpo, repetindo em voz alta o estribilho: “olha bactéria aqui, ó. Olha a bactéria, ó, ó”. Ao final, esfrega o produto químico por toda a cara. Eis um sequestrado. Ele está claramente fora de controle. Os vídeos e fotos descritos acima eram para ele. O homem de uniforme não tem canal no YouTube, não vai monetizar ou ser candidato a deputado estadual. Ele vai votar e defender a extrema direita. O que lhe sobra é a exposição ao ridículo, paranoia e sofrimento psíquico.

Que parte dos bolsonaristas esteja sob sequestro algorítmico, não significa que a ascensão da extrema direita se explique apenas pela chave da manipulação e lavagem cerebral. Há razões materiais, ideológicas e culturais profundas que lhe conferem poder de convencimento e mobilização. Reduzi-la a um simples resultado de teorias da conspiração é sedutor porque dispensa pensar no que o campo progressista tem errado. No entanto, é igualmente verdadeiro que há uma dinâmica conscientemente conduzida pelos próprios bolsonaristas para manter parte de seus aliados presos em um enquadramento do mundo que os torna incapazes de discernir o verdadeiro do falso e estimula comportamentos violentos e, por vezes, sacrificiais.

Isso não significa que sequestradores estão totalmente imunes às dinâmicas das redes algorítmicas. Vítimas das suas próprias maquinações, por vezes dosam mal a força e poder de controle de que realmente dispõem. A condução da pandemia é um destes momentos em que o enquadramento deriva, escapa e ricocheteia de volta. Bolsonaro achou que poderia controlar a narrativa reatualizando o eixo populista entre elite global esquerdista e povo oprimido impedido de trabalhar, mas o grande número de mortes intrometeu uma variável que dificilmente poderia ser conduzida sem um alto grau de conflito. Sua derrota eleitoral, em boa medida, foi forjada ali.

Em um ensaio acadêmico sobre a campanha da extrema direita contra o filme Marighella, logo entendi que os vídeos apenas repetiam as mesmas alegações, quase sempre na mesma ordem.3 Como todo comunista, Marighella seria um sujeito monstruoso, violento, obcecado por instalar uma ditadura no Brasil. O filme, por sua vez, foi dirigido pelo vermelho Wagner Moura com recursos da lei Rouanet para exaltar um terrorista e estimular a divisão racial num país que, por definição, não é racista. Para criticar o filme, não precisava tê-lo visto. A disputa não se desenrola ao nível dos fatos e muito menos da experiência estética. Não interessa, por exemplo, que Wagner Moura não tenha usado um centavo sequer da lei Rouanet. O importante é que, ao final, o enquadramento que conforma a extrema direita como um campo em guerra contra uma elite gramscista instalada no poder seja repetido e renovado. A extrema direita não pretende demonstrar a verdade factual sobre este ou aquele objeto. A luta é pelo enquadramento no interior do qual as disputas cotidianas se dão.

Quem nunca desmentiu um bolsonarista que logo deu de ombros? Não é verdade neste caso, responde ele, mas poderia ser. Daqui em diante, por exemplo, a depender do desenrolar dos acontecimentos, um sequestrado pode vir a se convencer de que houve contaminação do lote interditado, mas a suspeita que lançou permanecerá válida. Afinal, a Anvisa é de fato uma instituição controlada pela elite esquerdista para impor uma agenda e perseguir seus desafetos de direita. É essa a função dos sequestradores, manter parte da militância no interior de enquadramentos genéricos e absorventes. Se esses conteúdos elementares geram adesão, não importa que o entrecho factual, mais tarde, seja desmentido. Ele cumpriu sua função.

Por isso, não há a menor chance de vencê-los em termos argumentativos. A questão não é que as outras notícias não chegam até a extrema direita. Elas chegam. Mas não sem ser imediatamente reduzidas ao enquadramento geral que conforma o campo. Uma notícia indicando a existência da “minuta do golpe” pode provar, por exemplo, que a Globo continua fazendo de tudo para perseguir a direita ou que Bolsonaro tem mesmo razão. Ninguém seria tão perseguido assim se não estivesse falando a verdade e ferindo interesses muito poderosos. Claro que devemos permanecer, dentro dos nossos limites, desmentindo a extrema direita. O decisivo, no entanto, passa pela regulamentação e responsabilização das big techs. É ao nível da infraestrutura que as mudanças efetivamente geram impactos de longo prazo e alcance. Basta lembrarmos a campanha da Alphabet, proprietária do Google, contra o legislativo brasileiro, que iria votar a “PL das Fake News”. Afinal, sequestradores só podem ser bem-sucedidos porque manejam um viés sócio-técnico que já orientava as redes segundo seus próprios interesses de mercado e, agora está mais claro que nunca, políticos.

A luta deve ser também pela retomada do encontro pessoal, a construção coletiva do comum. André Valadão, na posição de pastor, um dia incentivou os fiéis a não mandarem seus filhos para a faculdade: “você criou a sua filha pra ela virar uma vagabunda?”. Valadão entendeu o que está em jogo. Não que o conhecimento por si só seja redentor. É que a faculdade reorganiza a vida cotidiana, expõe a debates reais, abre o acaso dos encontros, perturba o algoritmo.


1 Como foi amplamente noticiado, após ter alguns lotes de seus produtos interditados pela Anvisa sob suspeita de contaminação microbacteriana, bolsonaristas inciaram uma campanha de defesa da Ypê. Em sua leitura, ela estaria sofrendo perseguição por seus proprietários terem feito uma doação de um milhão para a campanha de Bolsonaro em 2022.

2 Sobre o tema, sugiro o livro de Letícia Cesarino, O mundo do avesso  —  verdade e política na era digital. São Paulo: Ubu Editora, 2022.

3 A batalha pelo nome: a campanha das novas direitas contra Marighella, de Wagner Moura. ArtCultura24(45), 2022, 218-236. https://doi.org/10.14393/artc-v24-n45-2022-68285

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