Ailton Krenak e Eliete Paraguassu debatem conflitos e resistências territoriais no contexto do colapso ecológico e climático no 3º Sibsa em Cuiabá

Na Abrasco

Cerca de 500 participantes estiveram na abertura oficial do 3º Simpósio Brasileiro de Saúde e Ambiente na manhã desta quarta-feira (27) no Teatro Universitário da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), em Cuiabá. Pesquisadores, estudantes, profissionais da saúde, movimentos sociais e lideranças comunitárias se reuniram para o primeiro momento do SIBSA depois de 12 anos, com o tema “A luta da Saúde Coletiva frente ao colapso ecológico: soberania, justiça e conhecimento para a transformação”. Além de Ailton Krenak, a mesa contou com representantes da Abrasco, da UFMT e lideranças de movimentos sociais.

Welliton Manchinery, indígena e aluno de Serviço Social da UFMT, fez uma saudação aos povos parentes presentes com canto do Beija Flor e Zana Makatipa. Com aplausos de pé, os integrantes do Dispositivo de Honra e da Grande Roda inicial foram chamados ao palco. Estavam presentes: o pró-reitor de pesquisa Bruno Bernardo de Araújo, representando a reitora da UFMT, Marluce Souza e Silva; o presidente da Abrasco, Rômulo Paes de Sousa; o primeiro indígena eleito para a Academia Brasileira de Letras, o ativista, filósofo e escritor, Ailton Krenak; a excelentíssima vereadora de Salvador (BA), pescadora da Ilha da Maré, quilombola e liderança da pesca artesanal, Eliete Paraguassu; a presidenta do 3º SIBSA, pesquisadora da Fiocruz e membro do GT Saúde e Ambiente da Abrasco, Karen Friedrich; o também presidente do 3º SIBSA, abrasquiano do mesmo GT, Guilherme Franco Netto; o abrasquiano, professor da UFBA e pesquisador do CNPq, referência em Saúde Coletiva, Naomar Almeida; e o coordenador da Comissão Executiva Local, abrasquiano e professor da UFMT, Wanderlei Pignati.

Antes das falas, o Hino Nacional foi apresentado ao som de atabaque, cocho de siriri e djembe pela artista-referência da cultura mato-grossense Gê Lacerda, acompanhada de Lélica Lacerda e de sete representantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra que tocavam suas enxadas. Entre o Dispositivo de Honra e a Grande Roda, como parte da metodologia do SIBSA, dois relatores poéticos, Jéssica Marcele e Maicon Caatingueiro, cantaram e rimaram em homenagem à conversa que viria.

“Este é um momento de reunião para agir”, convoca Rômulo Paes na abertura oficial do SIBSA

A acolhida inicial do Dispositivo de Honra ficou a cargo de Wanderlei Pignati. Ele agradeceu aos integrantes da Comissão Local e aos mais de 70 voluntários que estão atuando no evento. “Espero que a gente discuta bastante essa determinação socioambiental da Saúde. Não podemos perder este vínculo da Saúde Coletiva. Não caiamos na questão da saúde individual, vamos reforçar o SUS que é a nossa grande conquista”, disse o professor, aclamado pelo público.

Na sequência, Karen Friedrich exaltou o retorno do SIBSA depois de 12 anos e todos que contribuíram para isso. A abrasquiana ponderou que “desde a última edição em Belo Horizonte, a questão de saúde e ambiente ficou cada vez mais grave e praticamente todo o planeta reconhece o colapso ambiental e ecológico que temos que enfrentar”, ponderou a abrasquiana. Ela agradeceu aos trabalhadores do evento; ao Movimento Sem Terra, que garante a alimentação dos participantes; e aos representantes de GTs da Abrasco que participaram da realização do Simpósio ao lado do GT Saúde e Ambiente: o GT Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora, o GT de Vigilância Sanitária e o GT de Educação Popular e Saúde. Ela valorizou a adesão de participantes e principalmente a presença das mães que enfrentam o desafio de estar nesse espaço de troca, na linha de frente da resistência e da transformação dos territórios, com e por suas crianças. 

“Estamos aqui nos próximos dias para debater, ouvir e aprender como se protege a natureza, como se consegue retardar o processo de destruição que só avança. É um desafio para nós da Saúde Coletiva apoiar quem está na ponta, elaborando políticas públicas a partir da escuta de quem conhece da vida, sem cair nas armadilhas do capital e das soluções mágicas”, afirmou a presidenta do 3º SIBSA.

O pró-reitor de pesquisa da UFMT Bruno Bernardo de Araújo falou sobre a emoção de ver a universidade cheia, vibrante e diversa, e por isso mais capaz de contribuir com os grandes desafios que não serão enfrentados por um único saber, mas pelo diálogo entre a ciência e os territórios. “É profundamente simbólico que a Abrasco tenha nos escolhido para a realização deste simpósio. A UFMT não está apenas honrada, mas se sente também convocada a integrar os esforços que daqui sairão”, disse o professor em nome da reitoria da universidade.

Rômulo Paes de Sousa, presidente da Abrasco, foi o responsável por declarar oficialmente a abertura do evento. “Este simpósio representa o esforço que a Abrasco tem feito com um país e uma ciência mais democrática, que inclui, dialoga e ouve”, declarou o presidente da Abrasco, Rômulo Paes. Ele refletiu sobre os retrocessos políticos que o país tem vivido em relação às pautas climáticas e reforçou a importância de 2026 como um ano de redefinição do futuro coletivo por conta das eleições. “Nós vivemos um momento em que o Brasil precisa reagir e nós somos parte disso. A responsabilidade do SIBSA transcende o encontro: ele é um momento de reunião para agir na direção do que acreditamos”. Foi com esse sentimento de esperança que Rômulo declarou oficialmente aberto o simpósio.

“Nossos corpos carregam território”, reflete Krenak sobre o público do SIBSA

Com o tema “Conflitos e resistências territoriais dos povos e comunidades originários, tradicionais e de periferias no contexto do colapso ecológico e climático”, a Grande Roda foi mediada por Guilherme Franco Netto, pesquisador da Fiocruz e membro do GT de Saúde e Ambiente da Abrasco. Ele explicou que o diálogo da mesa foi criado a partir do livreto “Cercas nas águas, derrubar”, publicado pela Abrasco Livros e distribuído para os participantes. A obra reúne textos de vários pesquisadores, incluindo Krenak, Eliete Paraguassu e Marizelha Lopes sobre a resistência de comunidades originárias ao colapso climático. 

Naomar Almeida fez uma fala reflexiva sobre as definições e nomeações epistêmicas, citando, por exemplo, a diferença entre a nomeação de determinantes e determinações sociais da Saúde. Ele fez uma digressão histórica sobre a universidade para questionar seus rituais e sua perspectiva “auto-eurocentrada”, segundo ele. Naomar defendeu que a transdisciplinaridade evoca um trânsito e também uma ideia de além da disciplina, mas que ainda dialoga com a separação acadêmica dos saberes. “Como vamos valorizar verdadeiramente os saberes que não seguem os cânones da academia? Acho interessante a gente começar a questionar o monopólio da definição do que é o saber socialmente legítimo e o que não é que é da universidade”, declarou o professor da UFBA. “E o que teria a Saúde Coletiva a ver com isso?”, provocou.

A primeira vereadora quilombola de Salvador, Eliete Paraguassu, situou a luta de Ilha de Maré no cruzamento entre o capital e a herança escravocrata: a ilha está na rota do PIB e de trânsito de produtos, mas também foi rota de tráfico de pessoas escravizadas, o que explica a existência do quilombo na região. Ela descreveu sua resistência cotidiana para preservar a integridade das águas, o território, a comunidade e toda a região. Mesmo ocupando um cargo político, ela denuncia que não encontra proteção nem reconhecimento para essa luta. “A gente diz que o racismo é uma metamorfose ambulante. E o racismo ambiental vem nessa linha. Ele é um assassino invisível, sem digital”.

Marizelha Lopes, da mesma comunidade e companheira de luta de Eliete é convidada a falar. “Eu vejo que é muito importante quando a gente percebe que a Abrasco, a Fiocruz têm demonstrado que estão entendendo que a Saúde Coletiva é mais forte com a gente”, disse a liderança, em referência à frase marcada na bolsa dos participantes do evento. “Nada de nós sem nós. Sem nós mulheres. Sem nós mulheres negras”, proclamou. Marizelha se posicionou dizendo que não tem interesse em debater mitigação dos efeitos das emergências climáticas e que não negocia nada sobre seu território. “Fico feliz de ver tantas lideranças aqui. É importante estar nesses espaços para a gente avançar na defesa do nosso povo”, finalizou.

“Um simpósio tem a qualidade de ofertar para quem está em processos formativos novas epistemologias, mas também novas observações sobre o que já existe”. Ailton Krenak iniciou sua fala valorizando as trocas produzidas em eventos como o SIBSA. “A Saúde Coletiva é uma construção social muito importante e, devagarinho, está sendo reconhecida nas dobras sociais que nos desigualam”, pontuou. Ele contou que não compreendia a ideia de Saúde Coletiva e que passou a perceber que a transversalidade dos temas e a diversidade que esse encontro promove são expressão de um encontro de novos modos de saber. “Nossos corpos carregam território. Esse corpo que carrega território imprime outros modos de conhecer, de tatear e descobrir os códigos do mundo”, celebrou ao observar a multiplicidade de comunidades presentes no evento. 

Krenak também confrontou diretamente o discurso corporativo sobre sustentabilidade. Para ele, a expressão foi capturada pelo mesmo sistema que deveria combater. “As corporações criaram a sustentabilidade para se livrar do fato de que não fazem outra coisa a não ser exaurir água, rios, florestas e território”, afirmou. “Sustentabilidade no capitalismo ainda está por existir, é um mito corporativo”. A resposta, para ele, está no apoio à luta das comunidades que já estão no enfrentamento. “Esse discurso de sustentabilidade não pode ser mais um recurso para justificar o avanço sobre os nossos territórios”.

O líder indígena celebrou o que chamou de “desordem ontológica” do encontro, aquele momento em que ninguém está disposto a um alinhamento discursivo único e cada um invoca “o pensamento mais potente que atina”. “Se são os seus orixás, se é olhar e rezar, se é olhar e chorar, essas expressões todas ganham potência exatamente pelo quanto elas nos socializam”, disse. Para ele, é exatamente esse caos produtivo que distingue um encontro de saberes de uma conferência convencional.

Krenak encerrou com uma convocatória e uma pergunta que ficou no ar. “Nós não podemos abrir mão da nossa capacidade de resistir e de revolta à frente de promessas de que a economia vai conciliar o interesse comum com a vantagem dos lucros corporativos”, afirmou. E lançou o desafio a quem está em formação nas universidades: “Como fazer a formação crítica dos nossos jovens para que eles não se tornem mais um nessa grande sociedade da mercadoria?”.

A transmissão da Grande Roda está disponível no canal do YouTube do Núcleo de Estudos Ambientais, Saúde e Trabalho da UFMT. O 3º SIBSA continua até 29 de maio, com mais cinco Grandes Rodas, Rodas Temáticas, Rodas de Saberes, atividades culturais e programação nas Tendas.

Veja a programação completa no site do evento.

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