‘É preciso falar da reforma agrária a partir do feminismo camponês e popular’, diz historiadora e militante do MST

Obra de Rosa Negra traz uma reflexão sobre protagonismo das mulheres negras no campo e analisa a Lei de Terras, de 1850

Por Afonso Bezerra E Ana Rosa Carrara E Maria Teresa Cruz, Brasil de Fato

O entrelaçamento entre racismo, patriarcado e concentração de terras no Nordeste brasileiro é o tema do livro “Latifúndio, Racismo e Patriarcado: Feridas Abertas no Campo Nordestino”, da geógrafa, historiadora e militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) Rosa Negra.

Em entrevista ao É de Manhã, da Rádio Brasil de Fato, Rosa Negra conta que a obra teve como ponto de partida o seu mestrado, a partir dos seus estudos sobre como a luta feminista e antirracista se convergiam dentro do contexto do campo e da reforma agrária popular. O objetivo central, segundo ela, era propor uma reflexão sobre a questão agrária no Nordeste.

“O princípio do trabalho começou como uma reflexão sobre o trabalho das mulheres, que é compreendido como ajuda no campo. Então, como pensar essa invisibilidade? Como ela foi historicamente estabelecida? Para responder a isso, precisamos revisitar esse processo. Fizemos um breve percurso pelo debate da questão agrária, considerando também o patriarcado e o racismo, e observando como, historicamente, esses elementos foram se aprofundando. Por exemplo, no campo, embora o racismo e o patriarcado estejam presentes de forma muito forte em todo o país, eles aparecem de maneira ainda mais arraigada”, explica.

A autora conta como obras de pensadoras negras, como Lélia Gonzales, contribuíram para que ela compreendesse a urgência de trazer esses elementos transversais, muitas vezes colocados de forma negativa como identitários, para o debate da luta no campo. “[Foi possível compreender] como o patriarcado e racismo se conectam na exploração das mulheres negras no Nordeste desde o período colonial, quando você tem o trabalho escravizado do ponto de vista que eles diziam produtivo no campo, como também o trabalho doméstico e a violência sexual nas senzalas desde esse período histórico. Então, a gente foi começando a compreender as várias nuances que estão colocadas, porque quando a gente diz que estruturam o desenvolvimento do capitalismo no Brasil esses pontos, antes vocês sabem, a gente via como temas muito conectados à questão da identidade e parecia que não eram temas importantes para conversar”, avalia.

“Foi interessante perceber, desde a Lei de Terras de 1850, que torna a propriedade da terra privada no Brasil, até a Lei Áurea, que não aconteceu sem muita resistência, mas que, como vocês sabem, no texto da lei não tem política pública, não tem nada para o nosso povo. A partir da arquitetura jurídica também se vai desenvolvendo esse processo no nosso território e aqui no Nordeste principalmente”, aponta Rosa Negra.

A militante do MST reforça a necessidade urgente de manter na pauta a reforma agrária popular e exalta o que chama de “processos de resistência”. “Uma coisa que tem motivado muito a nossa militância que inventou de estudar é de como que a gente estuda a resistência e não só a dor. Porque por mais que foram processos muito duros, nosso povo resistiu bravamente no campo. Então, a gente vai reviver históricos de resistência no Nordeste, por exemplo, a luta do quebra-quilos, canudos, ligas camponesas e de como nós que nos envolvemos a partir da luta pela Terra e construímos esse processo de luta por reforma agrária popular, se constituímos enquanto movimento social no Nordeste também. Então, a coisa da reforma agrária popular, a gente chega a partir do feminismo camponês e popular”, afirma.

Editado por: Luís Indriunas

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