Seminário alerta para a sobrecarga e o adoecimento das mulheres diante da crise climática e do racismo ambiental

Por Bernardo Camara, VPAAPS

“Quando o desastre chega, quando a água é contaminada, quando a renda some, quem reorganiza a vida cotidiana? São as mulheres. São elas que vão buscar a água mais longe. São elas que cuidam das crianças e idosos, que administram a escassez e o adoecimento, que enfrentam a burocracia da reparação, que fazem a denúncia e agregam a comunidade”.

Com poucas palavras, a professora da Universidade Federal de Ouro Preto e presidenta do Conselho Diretor do Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS), Dulce Maria Pereira, resumiu uma realidade que se espalha pelo Brasil inteiro: diante do racismo ambiental e dos eventos extremos que atingem de forma desproporcional os territórios vulnerabilizados, são as mulheres que geralmente estão na linha de frente do cuidado – e por consequência, também do adoecimento físico e mental.

Foi em torno desta provocação e deste alerta que girou o seminário “Crise climática, racismo ambiental e seu impacto na vida das mulheres: uma agenda para a saúde”.  Organizado pela Vice-Presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde (VPAAPS), o evento aconteceu na Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV) na última segunda-feira, 1 de junho, e fez parte da Semana do Meio Ambiente da Fiocruz.

Com longa trajetória no âmbito da justiça climática, Dulce Maria Pereira dividiu uma mesa apenas com mulheres. Ao seu lado, estava a coordenadora estadual do Movimento de Atingidos por Barragens (MAB) no Rio de Janeiro, Suelen da Silva Souza. E para mediar a conversa e ampliar o debate, marcaram presença Martha Moreira, coordenadora do mestrado profissional em Saúde da Mulher, Criança e Adolescente no Instituto Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), e a assistente social Roseli Rocha, da coordenação de Promoção da Saúde da VPAAPS.

A abertura do encontro ficou por conta do vice-presidente da VPAAPS, Valcler Rangel, e da assessora da Coordenação de Saúde e Ambiente da VPAAPS, Gabriela Lobato, que saudaram as convidadas e reafirmaram o compromisso da Fiocruz em posicionar a ciência lado a lado com os movimentos populares nas discussões sobre racismo ambiental e crise climática.

Produzir vitórias

Em sua fala, a coordenadora estadual do MAB, Suelen da Silva Souza, ressaltou a importância de ajustar as narrativas sobre as tragédias ambientais. Segundo ela, quando tratamos os desastres como naturais, a responsabilidade sobre eles fica oculta. Por isso, é preciso nomear esses episódios de forma mais precisa: “Os desastres são socialmente construídos. A crise climática não é um evento da natureza. É resultado direto da ação humana e do modo de produção capitalista, em que o lucro está acima da vida”, destacou.

É a partir desta lógica, baseada no racismo estrutural, que as populações historicamente vulnerabilizadas têm sido impactadas de forma mais profunda que o restante da sociedade. E isso tem levado esses grupos a um ciclo permanente de empobrecimento. “As famílias lutam a vida toda para conseguir seus bens, para ter sua cama, sua geladeira. Aí vem a enchente, vem o rompimento de uma barragem, destrói tudo e elas têm que se reconstruir do zero. Qual a possibilidade dessas pessoas ascenderem socialmente? O empobrecimento dessas famílias ocorre de forma cíclica”, afirma Suelen. 

E neste contexto, são as mulheres que historicamente assumem a dianteira no processo de reerguer sua comunidade, acumulando ainda mais funções em sua já exaustiva jornada diária. Por isso, a professora Dulce Maria Pereira defende que as empresas responsáveis por cometer crimes socioambientais deveriam garantir às mulheres o que ela chama de “salário do cuidado”: um valor que funcionaria como mais uma forma de reparação. “Não se trata de ‘financeirizar’ o processo, mas insistir no protagonismo dessas pessoas e no custo social que elas têm de pagar”. 

Durante a mesa redonda as convidadas ressaltaram que, diante dos desastres ambientais, a violência contra as mulheres tende a crescer de forma exponencial. E isso se dá de maneiras tanto explícitas quanto veladas. A violência se manifesta, por exemplo, por meio de estupros que ocorrem em abrigos durante o deslocamento forçado de famílias atingidas. Também se expressa com a perda da autonomia financeira, quando as mulheres acabam se mantendo em relações abusivas por dependerem financeiramente de seus parceiros. 

A perda da moradia – e do território – também é apontada como uma das violências mais frequentes e profundas. “As indenizações muitas vezes só consideram a casa, o espaço físico. Mas o que se perde ali são também os vínculos comunitários, a construção de afeto, e isso tem efeitos especialmente sobre a saúde mental”, afirma Roseli Rocha, da VPAAPS. “Nós mulheres estamos sendo espoliadas, inclusive na nossa capacidade de amar. Quem vive sob pressão, sob território contaminado, que capacidade tem de amar e criar seus filhos?”, questiona Dulce. 

Tudo isso se caracteriza como “danos continuados”: ou seja, prejuízos que não terminam quando a enchente passa ou quando uma contaminação é controlada. O conceito foi reconhecido recentemente pela Política Nacional de Direitos das Populações Atingidas por Barragens (PNAB), sancionada em 2023. A conquista, frisam as participantes do seminário, veio de um processo de organização popular que também leva o protagonismo feminino. “As mulheres são as primeiras a se organizarem, a contestarem, a reivindicarem direitos e a realizarem trabalhos solidários”, afirma Suelen. 

E foi com este compromisso com o coletivo que as participantes do seminário encerraram o evento entoando juntas um dos lemas do MAB: “Mulheres, água e energia não são mercadorias!”. A mediadora da mesa, Martha Moreira, agradeceu à presença de todas, reforçou a importância dessas discussões e propôs dar continuidade ao debate. “Estamos todas muito animadas para manter essa conversa ativa, aquecida e abrindo caminhos para uma agenda mais permanente na Fiocruz”, afirmou, para ser complementada por Dulce Pereira: “Vamos continuar na luta, produzindo vitórias”.

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