Onde (também) mora a angústia urbana

Um medo paira sobre milhões de famílias brasileiras: o despejo. Significa, além de perder o lar, também redes de apoio e vínculos afetos. O impacto é brutal sobre a saúde mental. Novo desafio se impõe: aliar políticas habitacionais e bem-estar psíquico

Por Neiva de Souza Daniel, em Outras Palavras

A relação entre saúde mental e moradia é direta, especialmente quando observada sob a perspectiva da determinação social da saúde. No Brasil, essa relação é observada com muita força nas ocupações, assentamentos e favelas. Nesses contextos, a falta de moradia digna e o risco constante de desocupação ou despejo acabam atravessando o cotidiano e impactando a saúde mental de forma muito concreta (Rosa; Coelho; Tchalekian, 2025; Vieira et al., 2025). 

Quando famílias e comunidades são obrigadas a sair de seus territórios, muitas vezes para a construção de obras ou projetos urbanos, o discurso costuma ser de desenvolvimento e modernização. Mas, na prática, o que acontece é o aumento da exclusão e vulnerabilidade. E isso acarreta consequências materiais e psicológicas. As condições de moradia, renda e inserção social têm relação direta com transtornos como depressão, ansiedade, Transtorno de Estresse Pós-Traumático, psicoses e ao uso abusivo de substâncias (Padgett, 2020). 

Moradia também é a garantia de estabilidade, sensação de segurança e o direito de poder planejar minimamente a vida. Quando o direito à moradia não é garantido, o que ocorre é o medo constante, ansiedade, tensão. O risco de não ter onde morar e se abrigar, mesmo quando ainda não ocorreu, já produz sofrimento. Além disso, há todo o contexto de conflito: disputa por terra, violência institucional, estigma, que geram desgastes não só às pessoas individualmente, mas também às relações dentro da comunidade. As redes de apoio vão enfraquecendo, aumentam as tensões, e o sofrimento deixa de ser só individual e torna-se coletivo.

Por outro lado, quando o acesso à moradia é garantido, os efeitos são visíveis, ocorre a melhora na estabilidade, o sofrimento diminui, e as pessoas conseguem reconstruir suas rotinas. Principalmente quando conseguem permanecer no território onde já têm vínculos. Por isso, políticas habitacionais que garantam moradia digna não estão relacionadas somente a políticas de urbanismo, mas também à promoção da saúde e do bem viver.

Quando o direito à moradia não é garantido, estamos falando de uma forma de violência estrutural. O sofrimento psíquico, nesses casos, não pode ser tratado individualmente, pois ele está diretamente ligado às condições de vida, às relações de poder e às decisões políticas que moldam o território.

Enfrentar os transtornos mentais nesses contextos não será suficiente somente com a ampliação dos serviços de saúde. É de extrema necessidade que exista a garantia de moradia digna. Segurança habitacional, prevenção de despejos e políticas urbanas mais inclusivas fazem parte dessa resposta. 


Referências:

PADGETT, D. K. Homelessness, housing instability and mental health: making the connections. BJPsych Bulletin, v. 44, n. 5, p. 197-201, out. 2020. DOI: https://doi.org/10.1192/bjb.2020.49

ROSA, L. A.; COELHO, P. S.; TCHALEKIAN, B. B. DE A. Território e saúde psicossocial: produção de fatores protetivos em acampamento de luta pela reforma agrária. Estudos de Psicologia (Campinas), v. 42, p. e15271, 2025.

VIEIRA, J. M. S; et al. Conflitos territoriais e resistência à remoção: impactos sociais e urbanos. In: ANAIS DO XXI ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA EM PLANEJAMENTO URBANO E REGIONAL (SESSÕES LIVRES). Revista ENANPUR [Curitiba.: ISSN: 1984-8781], 2025. Disponível em: https://d1wqtxts1xzle7.cloudfront.net/124245841/TRABALHO_CORRECAO_COM_IDENT_EV212_ID25_TB414_31032025081304-libre.pdf

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

4 − 3 =