Por Bernardo Camara, Coordenação de Saúde e Ambiente/VPAAPS
“Eu quero muito que um dia a gente esteja não só na frente das câmeras, mas também atrás delas, contando as nossas próprias histórias de verdade”. Foi desta forma que a cineasta e quilombola Marta Kalunga, de Goiás, resumiu a relação de sua comunidade com o audiovisual: historicamente retratada por pessoas que não fazem parte de seu território, Marta diz que não há nada mais transformador e disruptivo que uma comunidade assumir o controle das suas próprias narrativas.
O relato de Marta foi feito na última terça-feira, 17 de junho, durante o 27° Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica). Debaixo da sombra de um frondoso tamarindeiro, a quilombola dividiu uma mesa com representantes da Fiocruz em um painel sobre “Fomento à Produção Audiovisual junto a Populações Socioambientalmente Vulnerabilizadas”. Ao lado dela, estavam a superintendente do Canal Saúde, Marcia Correa e Castro, o chefe da Vídeo Saúde, Paulo Castiglioni Lara, e o professor e pesquisador da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV), Gregório Albuquerque.
A fala de Marta Kalunga revela uma realidade generalizada do cinema brasileiro, ressaltada por Paulo Castiglioni Lara: a discussão sobre produção audiovisual é, antes de tudo, uma discussão sobre economia e poder. Em sua fala, Marcia Correa e Castro também destacou que, no Brasil, o setor ainda está concentrado nas mãos de poucos cineastas que vêm de famílias ricas – e que, por vezes, constroem suas carreiras narrando a miséria e a exclusão de grupos que não possuem os meios para contar suas próprias histórias.
A superintendente do Canal Saúde trouxe dados do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) para ilustrar que este monopólio narrativo é, também, territorial: nos últimos anos, dos 170 filmes financiados pelo FSA, mais da metade, 105, pertenciam à região Sudeste, sendo a grande maioria produções de São Paulo e Rio de Janeiro. “Fomentar a produção audiovisual é enfrentar desigualdades que perpassam todos os aspectos da sociedade brasileira”, afirmou Marcia.
Por isso, ela defende que as formações em audiovisual que têm crescido junto a comunidades vulnerabilizadas devem ir além do ensino da técnica e da linguagem: é preciso compartilhar com os grupos historicamente marginalizados os caminhos para o acesso a recursos – sejam eles públicos ou privados. “Esse tipo de coisa é mais decisivo se a gente quer, de fato, mudar o audiovisual”, disse ela, convocando a organização do Fica a abrir espaços de debate sobre o tema nas próximas edições.
Gregório Albuquerque também ressaltou a importância de que as histórias sejam contadas pelos protagonistas de cada território de forma genuína. “Eu sempre escuto as pessoas dizendo que vão ‘dar voz a eles’. Não! Eles já têm voz. O que a gente tem que fazer com o audiovisual é reverberar o que essas pessoas, esses grupos já estão falando”, afirmou.
E é com sua própria voz e com a voz de sua comunidade que Marta Kalunga pretende continuar usando o cinema como uma ferramenta de memória, reconhecimento e transformação. “É esse o trabalho que quero levar para os jovens, para as mulheres, para as mães: que eles se vejam na tela, se escutem. O documentário faz você voltar às suas raízes, faz você enxergar de onde veio, quem você é. E o que nos fortalece são justamente as nossas raízes”, disse.




