Em livro que acaba de relançar, Jessé de Souza amplia estudo sobre as classes sociais brasileiras. Foco agora são as camadas médias, vistas em sua heterogenidade e desde a colonização. Obra é mordaz com segmento que, desde o tempo dos “agregados”, vê-se como parte das elites
Por Carlos Azevedo, no Outras Palavras
Nesse livro de 2018 reeditado em 2026 o sociólogo Jessé Souza continua sua interpretação da estrutura das classes no Brasil, em seguida à Elite do Atraso e outros como o excelente O Pobre de Direita, trabalhos já resenhados neste espaço. (link aqui)
Além de repetir conceitos já desenvolvidos em suas obras anteriores, o autor especifica que nos diversos países a classe média tem formação e papel diferente na sociedade. Em outros lugares teve formação popular e revolucionária.
No Brasil, principalmente sua camada mais alta, tem grande afinidade e subjetivamente se imagina com os mesmos interesses da chamada Elite do Atraso. Já a massa da classe média se divide em um setor que busca seguir o mesmo caminho e outro que historicamente apresenta alternativas. Este procura buscar rotas mais progressistas para a sociedade, parcela combativa, mas no geral derrotada.
Em seu aspecto principal a classe média desempenha o papel de administradora e defensora a serviço da elite capitalista detentora dos meios de produção.
O autor busca a origem ideológica da classe média brasileira na sociedade escravocrata. Segundo ele, tratou-se de um setor de pessoas livres da escravidão formado por brancos, mestiços e escravos libertos, tanto uns quanto outros destituídos de capital. Prestadores de serviços e dependentes econômica e ideologicamente dos senhores de terras e escravos. Na sua opinião o precursor exemplar dessa classe é o agregado, o jagunço, a mão armada dos senhores de terras e escravos, que se imaginava da elite porque aos sábados era admitido a participar do café da manhã na sala com o senhor.
Ao mesmo tempo vai se formando uma franja de artesãos como costureiros, carpinteiros, marceneiros, ferreiros, pequenos produtores agrícolas, os encarregados de administrar a produção da usina ou do engenho, e dar-lhe destino, cuidar dos negócios. Apesar da submissão sentem-se diferenciados dos escravizados. Com o desenvolvimento do comércio surgem profissões novas, a modista, o alfaiate, o livreiro, o comerciante, o importador de novidades europeias. É uma primeira forma de classe média.
Além deles, desde 1808, com a instalação do Estado no país, um setor de letrados a serviço da elite, incluindo mestiços, cuidará do fisco, dos serviços administrativos, da justiça e da polícia. Semente de uma classe média do “bacharel”, fruto da posse do que o autor chama de capital cultural, técnico e pragmático, necessário para os serviços essenciais do mercado ou do Estado.
No início do século XX, com a transformação do capital comercial em capital industrial, cria-se o impulso para a formação da classe média moderna, que vai organizar e defender os interesses da indústria e da sociedade que se constitui a partir dela.
Com a chegada de milhões de imigrantes europeus entre 1880 e 1930 a classe média se torna mais branca e reproduz a subserviência histórica do agregado. Assim se constrói o bloco do “poder branco” que une a elite de proprietários dos meios de produção e a classe média branca contra qualquer pretensão de ascensão social da população pobre, mestiça e negra.
Essa aliança se mantém pelo poder do dinheiro com a contribuição decisiva do elemento cultural. Nesse segundo aspecto a diferença se dá desde a primeira infância entre um lar de classe média, cercado de estímulos e oportunidades de aprendizagem e outro, pobre, tanto materialmente como pela ausência dessas experiências culturais. E continua na escola, quando uns já estão alfabetizados, levam suas informações adquiridas e vão desenvolvê-las em boas instituições de ensino e outros, analfabetos, vão continuar com grandes dificuldades de aprendizado, muitas vezes em más escolas. Uns, brancos, vencedores; outros, negros e mestiços, perdedores. Desde o início.
Aos vencedores caberão os melhores empregos, os melhores salários. Aos perdedores caberão os trabalhos sem qualificação, o trabalho físico, os salários mais baixos. Os vencedores se encherão de orgulho iludindo-se de que o sucesso se deve às suas qualidades. Na essência a diversidade de destinos é fruto da diferença de oportunidades.
Aqui o autor destaca o papel do conhecimento, detido pela classe média, que considera um capital tão importante para o funcionamento do capitalismo quanto o próprio capital econômico.
De acordo com ele a classe média moderna vai se desenvolver em todas as suas virtualidades apenas com o capitalismo industrial quando se generaliza a necessidade de novas funções de controle e supervisão da produção econômica em grande escala. Nesse estágio surge a necessidade do trabalho de legitimação e justificação da nova ordem, tarefa assumida pela classe média.
Sem distorcer o mundo social as classes dirigentes não podem fazer o trabalho sujo de se apropriar da riqueza social. Os intelectuais e a imprensa fazem, hoje em dia, o trabalho que os jagunços faziam, e ainda fazem, para os latifundiários do passado: facilitar por meio da violência a apropriação da riqueza coletiva.
A diferença é que a eliminação física foi substituída, desde que não seja pobre ou negro, pelo sequestro da inteligência e da capacidade reflexiva de homens e mulheres comuns, sob a forma de ideias que nos manipulam e nos fragilizam, tornando nosso comportamento hesitante e confuso.
Uma imprensa manipuladora e hipócrita, uma indústria cultural antirreflexiva e concepções de mundo hegemônicas e subservientes ao poder de fato são os atuais exércitos simbólicos que mantém submissa a sociedade e bloqueiam seu potencial de desenvolvimento.
A camada superior da classe média combina algum capital econômico e muito capital cultural e relações pessoais. Atua fazendo a gerência e supervisão da riqueza da elite de proprietários. É uma fração de classe decisiva para o capital financeiro dominante. Seus dirigentes se identificam de tal modo com os interesses da elite que acabam vivendo a confusão de se ver como os responsáveis efetivos do negócio. Sentem-se como se fossem o “verdadeiro patrão” e tiram uma gratificação emocional dessa ilusão.
A classe média se mobiliza e vai às ruas contra a corrupção, mas sempre quando se trata de derrubar governos populares, como o de Getúlio Vargas e de Dilma Roussef, quando as acusações se revelaram infundadas. No entanto, no seu dia-a-dia é a classe que pratica amplamente a corrupção em favor da elite e de si própria.
ENTREVISTAS
Jessé Souza realizou inúmeras entrevistas com representantes da alta classe média e destacou algumas que julgou exemplares.
“MEU TRABALHO É COMPRAR AS PESSOAS”
Sergio, CEO, executivo de um grande banco de investimentos, muito culto, formado em universidades estrangeiras, tem prazer em uma sinceridade desconcertante. É amigo desde a adolescência do dono de um banco. Diz: “ele é um gênio, sabe onde encontrar o dinheiro (…) eu só faço comprar as pessoas para que as coisas aconteçam como ele quer”.
Conta que tem uma equipe de advogados que faz a rotina do trabalho jurídico. “Eu faço os contatos com os juízes, políticos e jornalistas e cuido dos clientes estrangeiros (…) as pessoas são compradas com dinheiro vivo e com depósitos em paraísos fiscais. Sem deixar rastros. Não se iluda. Toda licitação pública, todo negócio lucrativo, sem exceção, é repartido e negociado”.
Ele lembra de um caso: “Havia um jornalista de “O Estado de S. Paulo” metido a investigador que publicava notas negativas sobre nossos negócios. O dono do banco ofereceu milhões, mas o cara não aceitou. O que fizemos? Compramos o jornal, um dos maiores do Brasil, e demitimos o fulano”. Apesar de que esse jornalista tenha se negado a se corromper Sergio afirma que nunca encontrou uma pessoa que não tivesse preço.
O GERENTE DE UMA CADEIA DE LOJAS QUE PENSA SER O DONO
Antônio Bianchi é o gerente de uma cadeia de lojas de roupas femininas com sede em São Paulo que tem 12 filiais nas maiores cidades do país. Conseguiu esse cargo por meio da sua esposa, parente próxima dos proprietários da rede de lojas, uma empresa familiar. Ele se sente o dono do negócio. Os proprietários não participam da administração, limitam-se a receber os lucros.
Bianchi combina essa atividade com militância política conservadora. Sempre que surgem acontecimentos políticos importantes ele manda recados para seus empegados, que chama de “colaboradores”. Diz que estará na manifestação e espera vê-los lá. Muitos comparecem e o procuram para serem vistos, por medo de demissão. Ao topar com algum “colaborador” nesses comícios de direita Bianchi é efusivo. Cumprimenta e abraça. Se percebe que algum empregado tem posições de esquerda, demite sumariamente.
Na ocasião em que o STF negou habeas corpus a Lula, Bianchi promoveu uma grande festa. Tomou champanhe Moet Chandon com seus colaboradores mais próximos e mandou servir espumante barato para os outros. Quando Lula foi preso mandou seus empregados às ruas para participar das manifestações de apoio à prisão. Alegava que estava pensando no futuro dos funcionários, pois o futuro do Brasil dependia disso. “A Justiça foi feita”, exclamou.
Maria Antônia, sua esposa, é uma “perua arrogante”, segundo uma funcionária. Costuma constranger os empregados com críticas acerbas. A uma funcionária disse: “faça o que te mandei. Só não te mando embora agora porque sei que é uma morta de fome”. E, claro, é racista. No cabeleireiro recusou que uma trabalhadora negra a penteasse. “Essa mulher não toca no meu cabelo”, disse, na frente da moça.
CAIO, O ARBITRÁRIO GERENTE DE FAZENDAS
Caio Marcondes administra uma grande empresa rural com várias fazendas no Triângulo Mineiro, interior de São Paulo e Mato Grosso do Sul. É militante político conservador e fã incondicional de Jair Bolsonaro. Jessé Souza foi recebido para entrevistá-lo na condição de representante da alta classe média. Estavam numa bela fazenda na região de Uberlândia com criação de gado e cavalos de raça.
Reunido com amigos e o filho adulto, Caio bebia e se divertia lembrando de suas ‘pescarias”. Periodicamente ele vai a pescarias com amigos, quando menos pescam peixe do que produzem festas com uísque, cocaína e prostitutas.
Na semana anterior ele havia se desentendido com sua esposa Júnia em público. Estava bebendo e confraternizando com amigos quando ela confiscou as chaves da camionete para evitar que o marido fosse a uma “pescaria”. Ele tratou de pegar as chaves “na marra” dando um safanão na mulher, cujos óculos foram parar embaixo da mesa. Muito míope, ela teve que engatinhar sob a mesa para recuperar os óculos em meio a risada cruel de todos.
Relembrado, o episódio ainda provocava muito riso de Caio, amigos e do seu próprio filho mais velho, de 17 anos. Com indisfarçável satisfação Caio chama a esposa de “dona Onça”, devido ao que considera seu temperamento forte.
As garrafas de bebidas, que logo se esvaziaram, foram guardadas para uma diversão logo após o churrasco. Caio tem um arsenal de armas, espingardas calibre 12, pistolas de vários tipos e até mesmo um fuzil. Logo as garrafas foram despedaçadas a tiros em torno de apostas.
Jessé pergunta se havia necessidade de armas para a proteção da fazenda e Caio responde que ninguém seria louco para invadir “sua” propriedade. “Se alguém vier aqui tomar o que é nosso, atiro primeiro e faço perguntas depois”, afirma.
Conta que o grupo econômico que o emprega tem também uma fazenda de feijão no interior de São Paulo e outra de soja no Mato Grosso do Sul. E que em São Paulo um “promotorzinho” resolveu encrencar com uma guia de recolhimento de impostos que estavam usando. “Quis nos processar. Aí mandei um recado pra ele. Está bem quietinho agora.” Ouvindo isso os amigos de Caio riram a valer.
A verdade é que ele estava sonegando impostos. Seus caminhões carregados de feijão usavam a mesma guia durante o dia, em vez de apresentar uma guia para cada viagem, como manda a lei. Assim pagava uma pequena fração do imposto devido.
Para Caio o imposto é um abuso e o Estado um agente da corrupção. No entanto ele era apoiador da Lava Jato e do juiz Sergio Moro quando representavam uma suposta ação contra a corrupção. Ele não percebe contradição entre o apoio à Lava Jato e a ameaça ao promotor. Ele se vê como um baluarte na luta contra o Estado corrupto. Apesar de sonegar impostos e fazer ameaças de violência.
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Livro: A CLASSE MÉDIA NO ESPELHO
Sua história, seus sonhos e ilusões, sua realidade
Autor: Jessé Souza
Editora Civilização Brasileira
277 páginas




