Pesquisadoras explicam dinâmica hidrológica da Bacia do Taquari-Antas, destacam as Zonas de Arraste geradas pela força das águas e refletem sobre o desafios para tornar as cidades mais resilientes
Por: Luana de Oliveira e Patricia Fachin, em IHU
Ontem, 22-07-2026, o rio Taquari transbordou, registrando inundações nos municípios de Lajeado, Encantado, Arroio do Meio, Estrela, Santa Tereza, Cruzeiro do Sul, Roca Sales e Muçum. Bom Retiro do Sul, Encantado e Santa Tereza estão entre as cidades classificadas com risco muito alto de inundação até o início da tarde de hoje, 23-07-2026, segundo informações divulgadas pela Defesa Civil na última quarta-feira. O Vale do Taquari, localizado na região central do Rio Grande do Sul, abrange 36 municípios e foi um dos mais atingidos na enchente de 2024. Dois anos depois, a região está novamente sob alerta.
Segundo estudos de pesquisadores da Universidade do Vale do Taquari (Univates), da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), os municípios ribeirinhos do rio Taquari foram classificados como Zonas de Arraste. Essas zonas são definidas como “setores, dentro de uma área inundável, onde a água não apenas cobre o terreno – ela o atravessa com força suficiente para destruir”, segundo a engenheira ambiental Sofia Royer Moraes. Essa nova classificação, acrescenta Izabele Colusso, “surgiu a partir das pesquisas desenvolvidas após as enchentes históricas de 2024 no Rio Grande do Sul, especialmente durante os estudos realizados para o Plano de Reconstrução Territorial do Vale do Taquari”.
Nesta entrevista, concedida por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU, Sofia Royer Moraes explica as características geomorfológicas que favorecem a formação de Zonas de Arraste durante eventos de alta energia hidráulica, com destaque para a Bacia Taquari-Antas, e a influência dos fenômenos climáticos El Niño e La Niña na dinâmica hidrológica da região. “Em termos absolutos de área urbana, Estrela concentra a maior extensão de Zonas de Arraste (cerca de 181 ha), seguida de Cruzeiro do Sul (131 ha) e Arroio do Meio (77 ha). As zonas incidem sobre setores muito específicos das margens erosivas do rio – o bairro Navegantes, em Arroio do Meio, o Passo de Estrela, em Cruzeiro do Sul, o Porto Quinze, em Encantado –, exatamente onde houve destruição de edificações e perdas humanas”, informa a entrevistada.
Izabele Colusso reflete sobre o desafio de tornar os territórios resilientes num contexto de mudanças climáticas. Segundo ela, “o primeiro passo é reconhecer que os eventos extremos deixaram de ser exceções e passaram a fazer parte da realidade das cidades”. As ações de mitigação, adverte a entrevistada, não podem ser reduzidas à retirada das pessoas das zonas de risco, mas precisam “construir alternativas que promovam qualidade de vida e desenvolvimento territorial”. As enchentes, avalia, representam um ponto de inflexão para o planejamento territorial. “Elas demonstraram que não basta responder aos desastres; precisamos incorporar a adaptação climática como princípio estruturante das políticas urbanas”.
Sofia Royer Moraes é graduada em Engenharia Ambiental pela Univates e mestra em Sensoriamento Remoto e Geoprocessamento pela UFRGS. É doutoranda em Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental no Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) na UFRGS. Leciona na Univates.
Izabele Colusso é graduada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), mestra e doutora em Planejamento Urbano e Regional pela UFRGS. Leciona na Unisinos, onde coordena o curso de Arquitetura e Urbanismo e a Especialização em Cidades Gestão Estratégica do Território Urbano.
Confira a entrevista.
IHU – O que são as Zonas de Arraste? O que caracteriza essa nova classificação? Pode explicar como esse conceito foi elaborado depois das enchentes de 2024?
Izabele Colusso – As Zonas de Arraste são uma nova categoria de análise do risco em áreas sujeitas a inundações extremas. Elas correspondem aos locais onde a força da água é tão intensa que não provoca apenas alagamentos, mas também o deslocamento de pessoas, veículos, edificações e grandes estruturas. Nessas áreas, o principal fator de risco deixa de ser apenas a altura da água e passa a ser a combinação entre profundidade, velocidade do fluxo e energia hidráulica.
O conceito surgiu a partir das pesquisas desenvolvidas após as enchentes históricas de 2024 no Rio Grande do Sul, especialmente durante os estudos realizados para o Plano de Reconstrução Territorial do Vale do Taquari. Ao analisar municípios fortemente atingidos, percebemos que muitas edificações localizadas fora das manchas tradicionais de inundação foram completamente destruídas pela energia da correnteza. Isso evidenciou uma lacuna importante nos instrumentos de planejamento: mapeávamos onde a água chegava, mas não onde ela tinha capacidade de destruir. As Zonas de Arraste procuram preencher essa lacuna, oferecendo um parâmetro técnico para diferenciar áreas inundáveis daquelas em que a permanência humana representa um risco incompatível com a ocupação urbana. Trata-se de um conceito desenvolvido para apoiar decisões mais qualificadas sobre reconstrução, expansão urbana e adaptação climática.
Sofia Royer Moraes – As Zonas de Arraste são os setores, dentro de uma área inundável, onde a água não apenas cobre o terreno – ela o atravessa com força suficiente para destruir. Estamos falando de erosão severa de margens, remoção completa de edificações, fragmentação da paisagem e risco elevado de perda de vidas. É uma inundação que deixa de ser “água parada subindo” e passa a ser um fenômeno de alta energia.
O que caracteriza a classificação é justamente essa mudança de olhar. O mapeamento de risco tradicional no Brasil se apoia principalmente na profundidade da lâmina d’água – até onde a água chega. Isso é fundamental, mas é insuficiente para explicar por que, numa mesma cheia, um bairro sofre só um alagamento temporário e outro é literalmente varrido. A resposta está na física: o dano potencial de uma inundação é função do produto profundidade X velocidade do escoamento, um princípio consolidado na literatura internacional e operacionalizado no Brasil pelo Índice de Perigo (Monteiro e Kobiyama). A Zona de Arraste é o subconjunto da mancha de inundação onde esse produto atinge níveis de potencial destrutivo.
O conceito nasceu do campo, não da teoria. Quando nossa equipe de Planejamento Territorial da Univates começou a trabalhar, em convênio com a Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Metropolitano (SEDUR-RS), nos estudos de reconstrução dos municípios atingidos em setembro e novembro de 2023 e, sobretudo, na catástrofe de maio de 2024, nos deparamos com um padrão que os mapas convencionais não davam conta de representar. Precisávamos de uma categoria que descrevesse não só onde a água chegou, mas como ela se moveu e com que intensidade. Fizemos ainda uma busca sistemática em português, espanhol e inglês (Google Acadêmico e OpenAlex) e confirmamos que a expressão “zona de arraste” aparecia só de forma ocasional, sem definição formal – o que reforçou a necessidade de estabilizar cientificamente o conceito. É isso que a Nota Técnica faz.
IHU – Que regiões do Rio Grande do Sul podem ser classificadas como Zonas de Arraste? Quais áreas e infraestruturas estão mais suscetíveis?
Sofia Royer Moraes – A primeira aplicação sistemática foi em sete municípios ribeirinhos do Rio Taquari: Muçum, Roca Sales, Encantado, Arroio do Meio, Colinas, Lajeado, Estrela e Cruzeiro do Sul. Em termos absolutos de área urbana, Estrela concentra a maior extensão de Zonas de Arraste (cerca de 181 ha), seguida de Cruzeiro do Sul (131 ha) e Arroio do Meio (77 ha). As zonas incidem sobre setores muito específicos das margens erosivas do rio – o bairro Navegantes, em Arroio do Meio, o Passo de Estrela, em Cruzeiro do Sul, o Porto Quinze, em Encantado –, exatamente onde houve destruição de edificações e perdas humanas.
Importa dizer que isso não ficou restrito ao nosso estudo inicial. O próprio governo estadual, no âmbito do projeto RioS, partiu das Zonas de Arraste definidas pela Univates e pela SEDUR e ampliou o mapeamento para nove municípios (somando Lajeado e Venâncio Aires), com trabalho de campo em janeiro de 2026. O Rio Grande do Sul chegou a cerca de 60 zonas de arraste, 29 km² e mais de 4.300 domicílios – e, mesmo com análises adicionais, as delimitações convergiram fortemente com as nossas. Isso é um indicativo importante de que a metodologia é replicável e robusta.
Quanto ao que é mais suscetível: qualquer ocupação nas margens erosivas de meandros e nos afunilamentos da calha está exposta. Mas o ponto mais crítico, do ponto de vista de política pública, é a infraestrutura crítica dentro dessas zonas: escolas, postos de saúde, hospitais, subestações de energia, estações de tratamento de água e esgoto. São equipamentos que precisam funcionar justamente durante o desastre, e que recomendamos realocar para fora das Zonas de Arraste.
IHU – Como a classificação de Zonas de Arraste pode contribuir para a mitigação dos efeitos das catástrofes climáticas?
Izabele Colusso – Permite principalmente agir antes que o desastre aconteça. No Plano de Reconstrução Territorial do Vale do Taquari, essa lógica foi essencial para compreender que diferentes áreas exigem estratégias distintas de intervenção. Enquanto algumas podem ser protegidas por obras hidráulicas e infraestrutura resiliente, outras apresentam um nível de risco tão elevado que a reconstrução no mesmo local deixa de ser uma alternativa segura. A classificação das Zonas de Arraste ajuda justamente a orientar essas decisões. Ela apoia a definição de áreas para preservação, reassentamento, recuperação ambiental e investimentos prioritários, evitando que novos empreendimentos sejam implantados em locais onde as perdas humanas e materiais tendem a se repetir.
Essa abordagem também dialoga diretamente com o princípio internacional do Build Back Better, estabelecido pelo Marco de Sendai para Redução do Risco de Desastres. O objetivo não é reconstruir exatamente como era antes, mas reconstruir de forma mais segura, mais resiliente e preparada para eventos futuros.
Sofia Royer Moraes – A grande contribuição é permitir uma resposta proporcional ao perigo real. Ao separar, dentro da mancha de inundação, o que é área de convivência possível do que é área de destruição provável, a Zona de Arraste orienta onde investir cada tipo de medida.
Nas áreas inundáveis fora da Zona de Arraste, a depender da região, é possível se adaptar e conviver com o risco: pilotis, cotas mínimas de soleira e materiais resistentes à imersão temporária. Já dentro da Zona de Arraste, as forças em jogo excedem o desempenho estrutural de construções urbanas convencionais – não existe “reforço” que segure uma edificação num setor de passagem de fluxo de alta energia. Ali, a única estratégia tecnicamente consistente para proteger a vida é a desocupação permanente.
Ou seja: a Zona de Arraste transforma uma discussão que muitas vezes é emocional e política numa decisão fundamentada em física e em evidência de campo. Ela ajuda a priorizar recursos escassos, a embasar realocações difíceis e a evitar reconstruir no mesmo lugar onde as pessoas já perderam tudo – às vezes mais de uma vez.
IHU – De que forma as mudanças climáticas e as alterações nos ciclos hidrológicos podem alterar a frequência e a intensidade das Zonas de Arraste?
Sofia Royer Moraes – Esse é um ponto que me preocupa muito. O planejamento hidrológico tradicional se apoia numa premissa de estacionariedade – a ideia de que o passado é um bom espelho do futuro, de que as estatísticas das cheias são estáveis no tempo. As mudanças climáticas quebram essa premissa. No Vale do Taquari, tivemos uma concentração inédita de cheias de grande magnitude entre 2020-2024; eventos que a estatística clássica trataria como “raríssimos” começaram a se repetir.
Para as Zonas de Arraste, isso tem dois efeitos. Primeiro, cheias mais frequentes e mais intensas significam mais eventos capazes de gerar energia hidráulica destrutiva, ou seja, as Zonas de Arraste podem ser acionadas com mais frequência. Segundo, eventos de maior magnitude podem ampliar o alcance espacial dessas zonas, atingindo setores que antes ficavam de fora.
Tenho investigado uma peça importante para a dinâmica natural da Bacia Taquari-Antas: a influência do ENSO – o El Niño e a La Niña. Um resultado que considero relevante é que os episódios de El Niño Canônico (o “tradicional”, com aquecimento no Pacífico central-leste) estão associados a níveis de cheia significativamente mais altos no Taquari do que os episódios de El Niño Modoki. Isso abre caminho para uma modelagem de frequência de cheias não estacionária, que incorpora o estado do clima como variável – e, no limite, para antecipar o tipo de risco conforme o padrão de El Niño previsto para a estação. É esse tipo de ferramenta que precisamos para não continuar planejando o futuro com as regras do passado.
IHU – Quais fatores geomorfológicos favorecem a formação das Zonas de Arraste durante eventos hidrológicos extremos?
Sofia Royer Moraes – Basicamente, tudo o que converte energia potencial em energia cinética de forma concentrada. Os principais fatores são:
- Elevada amplitude altimétrica da bacia – o desnível total entre as nascentes e a foz. É o “estoque” de energia potencial: quanto maior a queda, mais energia a água tem para acumular ao longo do percurso.
- Alta declividade do canal principal – a inclinação do leito, sobretudo na transição entre o alto e o médio curso. É o que determina a velocidade com que e onde essa energia potencial se converte em energia cinética.
- Geometria meândrica acentuada – nas curvas, a força hidráulica se concentra nas margens erosivas (a parte externa do meandro), que é onde a destruição costuma ser mais severa.
- Afunilamentos da calha principal – quando o leito estreita, a água acelera e a energia se concentra localmente.
O ponto-chave é que a Zona de Arraste não é produto de um fator isolado, e sim da convergência espacial desses elementos morfológicos com as condições hidrológicas e hidráulicas do evento. É por isso que ela não aparece em toda a mancha de inundação, mas em trechos bem definidos.
IHU – Quais características geomorfológicas da Bacia Taquari-Antas favorecem eventos de alta energia hidráulica?
Sofia Royer Moraes – A Bacia Hidrográfica do Taquari-Antas é quase um caso-modelo desse tipo de comportamento. Ela tem uma amplitude altimétrica que supera 1 mil metros entre as nascentes (nos Campos de Cima da Serra) e a foz (no Rio Jacuí). Essa diferença enorme de altitude, combinada com a alta declividade, faz com que a água ganhe muita velocidade ao longo do percurso.
Sobreposto a esse relevo, o Rio Taquari tem uma geometria meândrica acentuada e afunilamentos ao longo da calha. São feições que concentram localmente a força hidráulica e criam justamente aqueles setores onde o produto profundidade versus velocidade atinge valores extremos. É uma bacia de resposta rápida: chove muito na cabeceira em pouco tempo, e essa água desce concentrada e veloz. Os eventos extremos de 2023 e 2024 mostraram, de forma dolorosa, o que essa configuração é capaz de produzir.
IHU – De que forma a retroanálise da cheia de 1941 e da enchente de 2024 pode subsidiar o enfrentamento dos atuais eventos extremos? O que sua pesquisa tem sugerido?
Sofia Royer Moraes – A retroanálise é, no fundo, um exercício de memória hidrológica – e essa memória é a nossa melhor defesa contra a subestimação do risco. Por décadas, a cheia de maio de 1941 balizou o planejamento territorial do Vale do Taquari e de uma boa parte do estado como o “evento de referência”. Em setembro de 2023, a marca histórica foi superada em meio metro. Em maio de 2024, a inundação em Lajeado atingiu a cota de 33,67 m, superando 1941 em mais de quatro metros. Ou seja: o evento que era o teto do imaginável foi ultrapassado com folga.
É aqui que meu trabalho de doutorado se conecta diretamente. Reconstruí e analisei uma série histórica longa das cheias do Taquari – vou além dos registros sistemáticos, incorporando registros históricos e documentais que estendem a memória por cerca de dois séculos, encontrando e reconstituindo cheias históricas ainda maiores do que a de maio de 1941, como a cheia de outubro de 1873. Com métodos de análise de frequência bayesiana, a cheia de 2024 aparece com um tempo de retorno da ordem de seis séculos, mas – e isso é essencial – com uma incerteza alta (o intervalo de credibilidade vai de pouco mais de uma centena a alguns milhares de anos).
O que essa pesquisa sugere é justamente humildade metodológica: não podemos tratar esses números como certezas nem descartar 2024 como uma anomalia irrepetível ou insuperável. Incorporar 1941, 2024 e os demais eventos históricos à análise diminui a chance de subestimar o extremo e mostra que precisamos planejar considerando toda a distribuição de possibilidades, inclusive as caudas probabilísticas. Some-se a isso a variável climática e temos um caminho para não sermos pegos de surpresa pelo que é recorrente – cheias como as de 1873 e 1941 fazem parte do repertório da bacia e precisam ser tratadas como tal – e para reconhecer, com a devida cautela, o que é de fato excepcional, como maio de 2024.
IHU – Quais são as projeções de alteração nos ciclos hidrológicos decorrentes das mudanças climáticas e os principais desafios de adaptação dos sistemas hídricos no estado?
Sofia Royer Moraes – As projeções para o sul do Brasil apontam, de forma geral, para uma intensificação dos extremos, tanto de cheia quanto de estiagem, e para maior variabilidade, com forte modulação pelo ENSO. Não se trata só de “chover mais”, e sim de chover de forma mais concentrada e imprevisível, com janelas de previsibilidade curtas.
Os desafios de adaptação são grandes e, muitos deles, estruturais:
- A não estacionariedade invalida premissas de projeto que ainda orientam boa parte da nossa infraestrutura. Bueiros, pontes, diques, sistemas de drenagem: muito do que está construído foi dimensionado para o clima do passado.
- A defasagem normativa e de dados. Precisamos atualizar séries históricas, incluir dados históricos e revisar periodicamente as análises de frequência (recomendamos revisão quinquenal), além de incorporar cenários climáticos aos estudos.
- A governança e a continuidade. Estudos de risco não podem depender de convênios pontuais; eles precisam de arranjos institucionais permanentes entre universidades, poder público e Defesa Civil.
- A capacidade técnica local. Muitos municípios não têm equipe para modelagem hidrodinâmica e leitura de incertezas, e isso precisa ser enfrentado com apoio e capacitação.
Em resumo, o sistema hídrico do Rio Grande do Sul precisa deixar de reagir a cada desastre e passar a se antecipar – o que exige dados, modelos, alerta antecipado e, sobretudo, decisão política.
IHU – Que estratégias poderiam ser implementadas para prevenir ou mitigar os efeitos de novas inundações no estado?
Sofia Royer Moraes – Eu resumiria numa frase: priorizar medidas não estruturais sobre grandes obras. Obras de grande porte têm seu papel, mas quando viram a estratégia principal costumam gerar uma falsa sensação de segurança e estimular a reocupação de áreas de alto risco. As estratégias que considero mais urgentes são:
1. Desocupação permanente e prioritária das áreas de maior perigo (as Zonas de Arraste), com reassentamento e indenização, e realocação de infraestrutura crítica para fora dessas zonas.
2. Incorporar as Zonas de Arraste aos planos diretores e aos mapas oficiais de risco: Atlas de Risco a Inundações do RS, cartografia do Serviço Geológico Brasileiro – Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (SGB-CPRM), sistemas estaduais.
3. Critérios construtivos diferenciados para as áreas inundáveis de baixo risco fora das Zonas de Arraste (pilotis, cotas de soleira, materiais resistentes, geometria construtiva), para conviver com o risco residual.
4. Sistemas de previsão e alerta antecipado, com revisão das rotas de evacuação e dos pontos de apoio da Defesa Civil, além de simulados periódicos.
5. Ciência cidadã e preservação da memória das cheias – marcas de cota máxima em mobiliário urbano, protocolos com escolas e comunidades, engajamento popular. A memória do território é uma tecnologia de prevenção.
6. Convênios interinstitucionais permanentes e investimento em dados de alta resolução.
Nenhuma dessas medidas isoladamente resolve. É a combinação delas: técnica, política e comunitária o que constrói cidades mais resilientes.
IHU – Com a emergência climática e o El Niño previsto para este ano, há um risco maior de enchentes no Sul do país. Diante desse cenário, qual é o primeiro passo para um planejamento urbano eficiente?
Izabele Colusso – O primeiro passo é reconhecer que os eventos extremos deixaram de ser exceções e passaram a fazer parte da realidade das cidades. Isso significa abandonar uma lógica baseada exclusivamente no histórico de ocorrências e incorporar cenários climáticos futuros ao planejamento urbano. Precisamos revisar planos diretores, códigos urbanísticos, planos de drenagem, políticas habitacionais e investimentos públicos considerando que eventos extremos serão mais frequentes.
Na consultoria que desenvolvo para o Escritório das Nações Unidas para Redução do Risco de Desastres (UNDRR), um dos principais conceitos é justamente a Prontidão para Recuperação de Desastres (Recovery Readiness). A ideia é que os municípios não esperem o desastre acontecer para decidir como irão reconstruir. Eles precisam preparar previamente sua governança, seus instrumentos de planejamento, seus protocolos institucionais e seus critérios técnicos para que a recuperação seja rápida, coordenada e resiliente. Quanto melhor preparada estiver uma cidade antes do desastre, maiores são suas condições de reduzir perdas e acelerar sua recuperação.
IHU – Quais são os desafios do planejamento urbano num contexto de mudanças climáticas?
Izabele Colusso – O maior desafio é que as cidades foram planejadas para um clima que já não existe. Durante décadas utilizamos séries históricas para orientar investimentos, dimensionar infraestrutura e definir áreas urbanizáveis. Hoje, convivemos com eventos extremos cada vez mais intensos, frequentes e imprevisíveis. Outro desafio é romper com uma cultura de planejamento fragmentado. Mudanças climáticas não são um problema exclusivo da Defesa Civil ou da área ambiental. Precisam orientar decisões sobre habitação, mobilidade, saneamento, desenvolvimento econômico e uso do solo. A experiência do Vale do Taquari mostrou que municípios que possuíam maior integração institucional responderam de forma mais rápida durante a reconstrução. Da mesma forma, a experiência internacional demonstra que a capacidade de recuperação depende muito mais da qualidade da governança do que apenas da existência de grandes obras de infraestrutura.
IHU – Qual a importância e os desafios de incorporar as Zonas de Arraste aos planos diretores municipais?
Izabele Colusso – Os planos diretores são os principais instrumentos para orientar o futuro das cidades. Se queremos construir municípios resilientes, as informações sobre risco precisam fazer parte das regras que orientam o crescimento urbano. As Zonas de Arraste podem fundamentar a revisão do zoneamento, estabelecer critérios diferenciados para ocupação do solo, orientar processos de reassentamento, definir áreas prioritárias para conservação ambiental e direcionar investimentos públicos.
Durante o Plano de Reconstrução do Vale do Taquari, ficou evidente que reconstruir sem revisar os instrumentos urbanísticos significa manter as condições que produziram as perdas. O desafio está justamente em transformar conhecimento técnico em política pública. Isso exige articulação entre municípios, estados e União, participação social e capacidade institucional para que essas decisões sejam incorporadas ao planejamento de longo prazo.
Sofia Royer Moraes – O plano diretor é o instrumento que dá força de lei ao ordenamento do território. Sem ele, o conhecimento técnico fica no papel; com ele, vira regra de uso e ocupação do solo. Por isso recomendamos que, nas revisões dos planos diretores dos municípios atingidos, a Zona de Arraste seja adotada como categoria oficial de zoneamento de risco.
Na prática, isso significa restringir estritamente novas ocupações nessas áreas, embasar juridicamente processos de desocupação e reassentamento com transferência habitacional e indenização, e realocar infraestrutura crítica. É o que dá segurança jurídica tanto para o poder público quanto para as famílias. A proposta está totalmente ancorada em marcos que já existem – o Estatuto da Cidade (Lei 10.257/2001), a Política Nacional de Proteção e Defesa Civil (Lei 12.608/2012), o Marco de Sendai, os ODS 11 e 13. A Zona de Arraste não inventa uma competência nova; ela qualifica os instrumentos que já temos com o parâmetro que estava faltando: a energia hidráulica.
IHU – Quais critérios devem orientar a definição de áreas destinadas à desocupação permanente em municípios sujeitos a inundações extremas?
Izabele Colusso – A decisão deve ser baseada em evidências técnicas, mas também em critérios sociais e econômicos. É preciso considerar fatores como velocidade da correnteza, profundidade da inundação, potencial de arraste, estabilidade geotécnica, recorrência dos eventos, possibilidade de implantação de medidas de proteção e, principalmente, o risco à vida humana.
No Vale do Taquari, observamos que existem áreas onde a reconstrução simplesmente não representa uma solução segura. Nesses casos, processos de reassentamento precisam ser planejados com qualidade urbana, participação das comunidades e garantia de acesso à infraestrutura, serviços e oportunidades. Não se trata apenas de retirar pessoas do risco, mas de construir alternativas que promovam qualidade de vida e desenvolvimento territorial.
IHU – Além de obras de infraestrutura, quais medidas não estruturais podem reduzir os impactos das enchentes nas cidades?
Izabele Colusso – As medidas não estruturais são fundamentais e, muitas vezes, apresentam excelente relação entre custo e benefício, como a atualização dos planos diretores, o mapeamento contínuo das áreas de risco, sistemas de alerta precoce, monitoramento hidrometeorológico, educação para redução de riscos, fortalecimento das defesas civis, recuperação de áreas naturais, infraestrutura verde e soluções baseadas na natureza.
Na metodologia de Recovery Readiness desenvolvida pela UNDRR, outro aspecto essencial é fortalecer a governança antes do desastre. Isso significa definir responsabilidades institucionais, integrar bancos de dados, preparar protocolos de recuperação, estabelecer mecanismos de coordenação entre diferentes níveis de governo e incorporar a gestão do risco às decisões de desenvolvimento urbano. Ou seja, cidades resilientes não dependem apenas de obras; dependem principalmente de instituições preparadas.
IHU – O que significa falar em gestão estratégica do território urbano? Que mudanças na atual forma de gerir os territórios são necessárias para enfrentar e mitigar os efeitos das mudanças climáticas?
Izabele Colusso – Gestão estratégica do território significa compreender que cada decisão sobre o uso do solo influencia diretamente a capacidade da cidade de enfrentar eventos extremos. Não basta administrar problemas à medida que surgem. É preciso antecipar cenários, integrar políticas públicas e utilizar informações territoriais para orientar investimentos. Essa visão esteve presente tanto no Plano de Reconstrução Territorial do Vale do Taquari quanto na consultoria que atualmente desenvolvo para a UNDRR. Em ambos os casos, o foco está na construção de capacidades institucionais para que os municípios consigam não apenas responder aos desastres, mas também recuperar-se de forma mais rápida, coordenada e resiliente.
A gestão estratégica envolve planejamento baseado em evidências, uso de geotecnologias, monitoramento contínuo, governança multinível, participação social e avaliação permanente dos riscos. Mais do que administrar cidades, precisamos construir territórios capazes de aprender, adaptar-se e evoluir diante das mudanças climáticas.
IHU – Deseja acrescentar algo?
Izabele Colusso – As enchentes de 2024 representaram um ponto de inflexão para o planejamento territorial brasileiro. Elas demonstraram que não basta responder aos desastres; precisamos incorporar a adaptação climática como princípio estruturante das políticas urbanas também. O trabalho desenvolvido no Plano de Reconstrução Territorial do Vale do Taquari e a experiência que venho desenvolvendo junto à UNDRR mostram que existe um caminho possível. Esse caminho passa pela integração entre ciência, planejamento urbano, governança e participação social.
As Zonas de Arraste fazem parte dessa mudança de paradigma. Oferecem um novo instrumento para compreender os riscos e orientar decisões mais responsáveis sobre ocupação do território. Da mesma forma, conceitos como Recovery Readiness e Build Back Better reforçam que a reconstrução não deve buscar apenas recuperar o que foi perdido, mas aproveitar esse momento para reduzir vulnerabilidades históricas e construir cidades mais seguras, resilientes e preparadas para o futuro. A emergência climática exige que deixemos de planejar para o passado e passemos a planejar para os desafios das próximas décadas. Essa é, talvez, a principal transformação que precisamos promover no planejamento urbano brasileiro.
Sofia Royer Moraes – Sim. Há uma dúvida conceitual comum que eu gostaria de esclarecer: a diferença entre a Zona de Arraste e a enxurrada. A Zona de Arraste é, antes de tudo, um parâmetro de zoneamento do uso do solo – ela delimita, dentro de um território, onde a ocupação deve ser restringida ou proibida em caráter permanente. A enxurrada é outra coisa: é um evento, um processo hidrológico que acontece e termina, com classificação própria na codificação oficial brasileira de desastres. Comparar as duas é quase comparar um lugar com um acontecimento.
E aqui está o ponto que costuma confundir: a Zona de Arraste está dentro da zona de inundação – as duas se sobrepõem. Ela é o subconjunto mais perigoso da mancha de inundação, o trecho em que a água não apenas cobre o terreno, mas o atravessa com energia suficiente para destruir. Há ainda uma diferença de escala: a enxurrada clássica é típica de bacias pequenas e íngremes, de resposta muito rápida, enquanto a inundação é o fenômeno das grandes bacias, como a do Taquari-Antas. O que 2024 nos mostrou foi uma inundação de grande bacia que, em setores específicos, se comportou com a energia destrutiva de uma enxurrada – e é essa violência concentrada dentro da cheia de um grande rio que a Zona de Arraste delimita e converte em critério de planejamento.
E, para além do técnico, uma reflexão. As Zonas de Arraste nasceram de uma tragédia, e é impossível falar delas sem lembrar que por trás de cada polígono no mapa existem pessoas, casas, histórias e vidas que se perderam. O nosso trabalho técnico só faz sentido se ele proteger essas pessoas.
Eu gostaria de registrar que isso é uma construção coletiva. A Nota Técnica é assinada por uma equipe interinstitucional e se apoia no diálogo constante entre a Univates, a UFRGS, a SEDUR, a Defesa Civil e as próprias comunidades atingidas. A ciência cidadã, inclusive via WhatsApp durante as cheias, foi parte essencial disso: quem vive à beira do rio sabe coisas que nenhum modelo captura sozinho.
Por fim, um recado que me parece importante: o conceito de Zona de Arraste nasceu no Taquari, mas não é do Taquari. Ele é replicável a qualquer bacia com características geomorfológicas semelhantes – e o Brasil tem muitas. Se essa experiência, construída no meio da dor, puder ajudar outras cidades a se protegerem antes do próximo evento extremo, então parte do sentido dessa tragédia terá sido transformar sofrimento em conhecimento útil. É esse o compromisso que move a nossa equipe.




