Brasil: contra os moinhos de vento da política

Cresce a descrença de jovens em partidos e revolta é capturada por discursos “anti-sistema” cínicos. Enfrentar a desesperança exige novas formas de participação – e recolocar o foco da política na luta contra o sistema econômico que multiplica injustiças

Por Chico Cavalcante, em Outras Palavras

Miguel de Cervantes imortalizou, em Dom Quixote de La Mancha, a cena em que o fidalgo enlouquecido confunde moinhos de vento com gigantes e, tomado pela ilusão, parte para atacá-los com sua lança. A metáfora atravessou séculos como símbolo da luta contra inimigos imaginários, da batalha contra simulacros que, em vez de transformar a realidade, apenas reafirmam a ilusão.

Hoje, no Brasil, grande parte da população que se declara “anti-sistema” vive exatamente esse dilema. Combate moinhos de vento, mirando a política ou a democracia como se fossem o inimigo central, enquanto o verdadeiro gigante, o sistema econômico que sustenta a desigualdade, permanece intocado.

Um levantamento recente do cientista político Murilo Medeiros, publicado pelo Estadão, mostra que os partidos perderam quase um milhão e meio de filiados jovens entre 2010 e 2026, uma queda de mais da metade na faixa de 16 a 34 anos. O dado revela não apenas a descrença nos partidos, mas a erosão da confiança na política institucional como espaço de transformação. A narrativa predominante, reforçada pela mídia, canaliza a insatisfação contra o “sistema político”, identificado quase exclusivamente com o governo federal atual, como se os anos de Temer e Bolsonaro, marcados por medidas neoliberais e uma política abertamente de direita, não tivessem contribuído decisivamente para o quadro de precarização e descrença.

Essa canalização não é casual. O capitalismo, ao naturalizar-se como pano de fundo inevitável, cria a ilusão de que o problema está apenas nos políticos e não na estrutura econômica que perpetua exploração e desigualdade. A corrupção, os escândalos e a ineficiência são visíveis e palpáveis. Já a lógica econômica, as engrenagens intrincadas do rentismo e da financeirização, aparecem travestidas de empreendedorismo, mérito ou trabalho duro. Os heróis dessa narrativas são os multimilionários que cumpriram a “jornada do herói” e venceram. Assim, o “anti-sistema” popular se torna funcional ao próprio sistema. Ao atacar os moinhos da política em abstrato, preserva os gigantes concretos da economia.

A metáfora quixotesca ajuda a compreender esse processo. Dom Quixote acreditava enfrentar monstros, mas golpeava apenas engrenagens de madeira. De modo semelhante, o discurso “anti-sistema” atual acredita combater a raiz dos problemas, mas golpeia apenas a sua superfície política, deixando intacta a engrenagem econômica que move a desigualdade, precariza o trabalho e avança sobre direitos duramente conquistados. O resultado é a reificação do sistema. Ao negar a política, reforça-se a ideia de que não há alternativa ao capitalismo e que a única saída é trocar governantes, nunca questionar a estrutura.

Historicamente, movimentos que ousaram mirar os gigantes, como sindicatos fortes, partidos de esquerda e organizações camponesas, foram sistematicamente enfraquecidos, criminalizados ou cooptados. O espaço para uma crítica econômica radical foi reduzido e a juventude encontra-se órfã de instrumentos coletivos de transformação. A queda nas filiações partidárias é sintoma disso. Não apenas da descrença nos partidos, mas da dificuldade de enxergar a política como arena de disputa contra o sistema econômico.

Se o “anti-sistema” atual é produto do próprio sistema econômico, cabe a uma nova esquerda revelar o simulacro e recolocar o inimigo verdadeiro no centro da luta. Essa tarefa exige repolitizar a economia, mostrar que desigualdade, precarização e exclusão não são fatalidades, mas escolhas políticas que beneficiam elites. Exige reconstruir instrumentos coletivos de organização, dialogar com a juventude oferecendo alternativas concretas de participação e engajamento, expor como o discurso “anti-político” é funcional ao capital e recuperar a imaginação política, mostrando que outro modelo de sociedade é viável.

A nova esquerda precisa devolver à população a capacidade de distinguir moinhos de gigantes. Só assim poderá voltar a ser protagonista na luta contra o verdadeiro sistema, o econômico, e transformar a descrença em esperança, a ilusão em ação, a batalha quixotesca em enfrentamento real.

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