Quando falamos das eleições de 2026, inevitavelmente falamos de segurança pública. E os números mostram por que esse tema ocupa lugar central no debate nacional.
O Brasil registrou 40.775 mortes violentas intencionais em 2025, uma redução de 8,2% em relação ao ano anterior e o menor patamar desde o início da série histórica, em 2012. Pela primeira vez, a taxa nacional ficou abaixo de 20 mortes por 100 mil habitantes, alcançando 19,1. Os dados, apresentados no 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, demonstram um avanço importante em um dos principais indicadores da violência no país.
Os dados do Anuário revelam um cenário contraditório, enquanto homicídios, roubos e outras categorias apresentaram queda, cresceram justamente formas de violência que atingem de maneira mais intensa grupos historicamente vulnerabilizados. A letalidade policial e os feminicídios aumentaram, e a população negra continuou concentrando a maior parcela das vítimas.
Em 2025, 6.602 pessoas foram mortas em decorrência de intervenções policiais, um aumento de 5,4% em comparação com 2024. Esse é o maior número registrado na série histórica. As mortes provocadas por agentes do Estado passaram a representar 16,2% de todas as mortes violentas intencionais do país, o equivalente a uma em cada seis vítimas.
O crescimento desse indicador mostra que a redução da violência letal não está sendo acompanhada por uma diminuição proporcional do uso da força pelo Estado, pelo contrário. A participação das mortes decorrentes de intervenções policiais no conjunto da violência brasileira permanece elevada e continua avançando. Para David Marques, gerente de programas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública;
“A importante redução de mortes violentas intencionais entre 2024 e 2025 em mais de 8% é um dado bastante significativo. Consolida uma tendência de redução que a gente vem acompanhando desde 2018 nas estatísticas, praticamente ininterrupta. A gente está diante de um fenômeno a ser comemorado dentro da política de segurança pública do Brasil”.
Os dados raciais tornam esse cenário ainda mais grave. Pessoas negras representaram 79,7% das vítimas de mortes violentas intencionais em 2025, pretos e pardos correspondem a 55,5% da população brasileira. Nos homicídios dolosos, o percentual chegou a 79,9%. Nas mortes decorrentes de intervenção policial, 82% das vítimas eram negras, enquanto pessoas brancas representaram 17,7%. Isso significa que uma pessoa negra teve, em média, 3,5 vezes mais risco de morrer em uma intervenção policial do que uma pessoa branca.
Raça, idade, gênero e território aparecem como marcadores que ajudam a definir quem está mais vulnerável à violência no Brasil. Homens representam 90,8% das vítimas de mortes violentas intencionais e 99,3% das mortes decorrentes de intervenções policiais. Jovens de 18 a 29 anos concentram 41,6% das vítimas, revelando o impacto da violência sobre uma parcela da população que deveria estar iniciando sua vida adulta, profissional e familiar.
Uma pesquisa do Instituto Sou da Paz mostra que a maioria dos brasileiros rejeita o discurso de que “bandido bom é bandido morto”. Apenas 20% dos entrevistados concordam com essa afirmação, enquanto a maioria defende políticas de segurança pública voltadas à prevenção da violência, à inteligência policial e ao fortalecimento das instituições. O levantamento também aponta amplo apoio ao uso de câmeras corporais pelas polícias (82%) e indica que 73% da população acredita que o aumento da circulação de armas contribui para ampliar a violência, reforçando a preferência por políticas públicas baseadas em evidências e na proteção da vida.
Entre crianças e adolescentes, a desigualdade racial se aprofunda com a idade. Pessoas negras correspondem a 62,6% das vítimas entre zero e 11 anos. Na faixa de 12 a 17 anos, esse percentual sobe para 86,3%, o equivalente a quase nove em cada dez adolescentes assassinados no país.
Os dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026 ainda mostram que a desigualdade racial também atravessa as corporações policiais. Em 2025, 61,8% dos policiais civis e militares mortos no Brasil eram negros, enquanto 38,2% eram brancos. Entre as 139 mortes violentas intencionais de agentes registradas no período, 98,2% das vítimas eram homens e quase dois terços tinham entre 30 e 49 anos. O perfil revela que policiais negros também estão mais expostos aos efeitos de uma estrutura de violência marcada por desigualdades raciais, mesmo ocupando uma posição distinta na dinâmica da segurança pública.
O levantamento também chama atenção para a saúde mental dos profissionais. Pelo nono ano consecutivo, o suicídio foi a principal causa de morte entre policiais, superando as mortes em confrontos ou em ocorrências fora do serviço. Em 2025, 110 agentes tiraram a própria vida, enquanto 59 foram mortos fora do horário de trabalho e 29 morreram em confrontos durante o exercício da função. Os dados indicam que proteger a vida dos policiais exige ir além do enfrentamento armado, com políticas permanentes de assistência psicossocial, prevenção ao suicídio, saúde ocupacional e melhoria das condições de trabalho nas corporações.
Estudos apontam que cada morte violenta gera custos elevados para o Estado. Segundo dados do Atlas da Violência 2025, cada morte violenta custa, em média, R$ 1 milhão aos cofres públicos, considerando despesas com saúde, segurança, Justiça e perda de produtividade.
Outro ponto de atenção é o crescimento dos feminicídios. Em 2025, o Brasil registrou 1.571 vítimas, alta de 4% em relação ao ano anterior. Os assassinatos motivados por razões de gênero passaram a representar 44,4% das mortes violentas de mulheres, o maior percentual desde a criação da Lei do Feminicídio.
As mulheres negras foram 65,1% das vítimas de feminicídio e 74,6% das mulheres vítimas das demais mortes violentas intencionais, embora representem cerca de 56% da população feminina brasileira. Para o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, esse cenário evidencia que a violência de gênero é atravessada por desigualdades raciais, sociais e econômicas. Como destaca o Anuário,
“esse dado está ligado à interseccionalidade que precisa ser levada em conta no debate sobre violência contra mulheres”, reforçando que diferentes formas de discriminação se sobrepõem e ampliam a vulnerabilidade das mulheres negras.
Além dos feminicídios, aumentaram as tentativas de assassinato, os casos de perseguição (stalking), violência psicológica e descumprimento de medidas protetivas. Esses registros demonstram que a morte de uma mulher geralmente é precedida por um processo de controle, ameaças e escalada da violência, tornando evidente a importância de identificar sinais de risco antes que a violência alcance seu desfecho mais extremo.
O enfrentamento ao feminicídio exige, portanto, mais do que o endurecimento de penas. É necessário fortalecer as redes de proteção, ampliar o acesso e a fiscalização das medidas protetivas, garantir atendimento especializado, promover autonomia econômica para mulheres em situação de violência e incorporar uma perspectiva interseccional às políticas públicas, reconhecendo que raça, gênero e condição socioeconômica influenciam diretamente a exposição à violência e o acesso à proteção do Estado.
Os registros de bullying e cyberbullying contra crianças e adolescentes cresceram 67,3% no Brasil em 2025, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026. Foram contabilizadas. A violência se concentra principalmente a partir dos 10 anos de idade, com maior incidência do bullying entre crianças de 10 a 13 anos e do cyberbullying aos 14 anos, período em que a presença de adolescentes nas redes sociais tende a aumentar.
Como bullying e cyberbullying passaram a ser tipificados como crimes em 2024, parte da alta pode ser explicada pela adaptação das polícias, das escolas e da sociedade às novas formas de registro e denúncia. Ainda assim, os boletins de ocorrência representam apenas uma parcela do problema; dados do IBGE indicam que quatro em cada dez estudantes de 13 a 17 anos afirmam já ter sofrido bullying. Para Cauê Martins, sociólogo e pesquisador no Fórum Brasileiro de Segurança Pública
“A gente percebe como ainda é uma parcela mais restrita dos casos que chega à polícia. A tendência é que nos próximos anos os registros de bullying e cyberbullying continuem a crescer por serem tipos penais novos, então tanto as próprias polícias estão se adaptando a esse novo registro, quanto a população brasileira, que ainda está entendendo o fenômeno”, analisa Martins.
Os estelionatos continuam sendo um dos crimes que mais crescem no Brasil. Em 2025, o país registrou mais de 2,26 milhões de ocorrências, o equivalente a quatro golpes por minuto, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. O número representa um novo recorde e confirma uma tendência observada nos últimos anos: enquanto os roubos tradicionais diminuem, as fraudes, especialmente as digitais, seguem em expansão. Apenas os golpes praticados em ambientes digitais cresceram 20,6% no último ano, impulsionados pela popularização do Pix, pela digitalização dos serviços financeiros e pelo uso cada vez mais intenso das plataformas digitais pela população.
O Anuário aponta que essa transformação também reflete uma mudança na atuação do crime organizado, que passou a investir em fraudes de baixo risco e alta rentabilidade. Entre os golpes mais comuns estão a clonagem de cartões, o golpe do WhatsApp, falsas centrais bancárias, fraudes envolvendo Pix, mensagens falsas sobre CPF e lojas virtuais fraudulentas. O estudo alerta ainda que mais de 97% dos estelionatos registrados não chegam ao Poder Judiciário, o que reforça a importância de investir em prevenção, educação digital e mecanismos mais eficazes de investigação e responsabilização.
“A taxa de registros acompanha o grau de bancarização, digitalização e integração ao sistema financeiro formal de cada estado — o que ajuda a explicar por que unidades mais urbanizadas e digitalmente conectadas, como São Paulo e Distrito Federal, encabeçam a lista”, dizem Samira Bueno e Renato Sérgio de Lima, pesquisadores do fórum.
Os dados positivos sobre a redução das mortes violentas devem ser reconhecidos, mas não podem encobrir as permanências estruturais do sistema. Um país não pode medir o sucesso de sua política de segurança apenas pela queda do número total de homicídios, quando a violência estatal cresce, os feminicídios batem recordes, casos de bullying e cyberbullying seguem crescendo e pessoas negras continuam morrendo em proporção muito superior à sua presença na população.
Esse conjunto de indicadores apresentados no Anuário ajuda a explicar por que a segurança pública deve ocupar posição central nas eleições de 2026. Embora alguns crimes tenham diminuído, a sensação de insegurança permanece elevada diante da persistência da violência letal, do fortalecimento do crime organizado, da expansão dos golpes digitais e da violência contra mulheres. Esse debate também ocorre em um contexto regional marcado por mudanças nas estratégias de enfrentamento ao crime, influenciadas por modelos de endurecimento penal e por novas formas de cooperação internacional contra organizações criminosas. Nesse cenário, o desafio dos candidatos será apresentar propostas capazes de responder às preocupações da população sem abrir mão da proteção dos direitos fundamentais. Para o gerente de programas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, David Marques:
“Então, isso é extremamente importante para o cenário eleitoral, justamente porque coloca em evidência os discursos políticos que vão ser formulados pelos candidatos, tanto em nível federal quanto em nível estadual, para lidar com essa questão, né? Indicadores de vitimização altos são um cenário de sensação de insegurança bastante disseminado entre a população. Com certeza vai ter uma centralidade no debate eleitoral aqui no país, e vão se sair melhor os candidatos que conseguirem convencer os eleitores da sua preocupação, né, genuína e do potencial que as ações propostas têm de sair do papel e, mais do que isso, de trazer algum alívio para essas preocupações e para essa vitimização, de fato, que afeta a população brasileira com relação à segurança”, afirma.
E o Brasil possui capacidade institucional, conhecimento técnico, organizações da sociedade civil, universidades e experiências locais capazes de construir alternativas para garantir políticas de segurança pública eficazes.




