Complacência com violência policial gera anestesia moral e ameaça democracia, diz pesquisador

Sérgio Adorno, do Núcleo de Estudos da Violência da USP, destacou na Reunião Anual da SBPC como a aceitação social de mortes cometidas pelo Estado afeta as bases democráticas do país

Elton Alisson, Agência FAPESP

Um aumento da complacência com a violência policial, combinado com a viralização de manifestações de ódio nas redes sociais e episódios frequentes de intolerância e brutalidade, pode levar a um estado de “anestesia moral” que induz a fragmentação da sociedade e coloca em risco a estabilidade democrática do Brasil, segundo o sociólogo Sérgio Adorno. Um dos principais especialistas em violência no Brasil, ele falou sobre o tema nesta quarta-feira (29/07), na 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

Adorno disse estar observando uma profunda mudança na percepção da sociedade sobre a violência, especialmente quando praticada por agentes do Estado. No lugar da indignação com abusos policiais, demonstrada no período de redemocratização, o pesquisador identifica hoje um crescimento expressivo do apoio de parcelas da população a operações de violência e letalidade extremas.

“No início do processo de redemocratização do país, quando aconteciam casos graves de violação de direitos humanos, envolvendo sobretudo violência policial, parte da população apoiava a polícia, defendendo a ideia de que bandido bom é bandido morto. Mas também havia uma forte resistência e indignação de setores da sociedade, apontando que o Brasil, em transição de uma ditadura civil-militar para uma democracia, não deveria tolerar esse tipo de violência policial e, sobretudo, o uso abusivo da força”, relembrou Adorno, que é professor da Universidade de São Paulo (USP) e um dos idealizadores do Núcleo de Estudos da Violência (NEV), um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) financiado pela FAPESP.

Na última década, contudo, tem ocorrido uma espécie de explosão de manifestações de apoio e uma nova tentativa de conferir legitimidade à violência, disse o pesquisador. “As pessoas passaram a afirmar que a violência é um recurso, definem-se como racistas e favoráveis ao extermínio sem julgamento. Essa retomada da violência, em uma reivindicação de legitimidade, tem sido meu objeto de investigação”, contou.

Um dos elementos mais surpreendentes desse fenômeno, segundo o pesquisador, é o apoio de populações vulneráveis e mais desfavorecidas de proteção legal a essas práticas violentas. “É um verdadeiro enigma o fato de que pessoas que são mais vítimas dessas incursões e de maus-tratos da polícia cotidianamente apoiem essas operações.”

O pesquisador, contudo, alertou sobre a necessidade de parcimônia ao interpretar os resultados de sondagens de opinião pública feitas logo após acontecimentos trágicos, para não cair na falácia de acreditar que essas pesquisas expressam de forma categórica a vontade popular, servindo de pretexto para governantes justificarem ações violentas.

As taxas de apoio a essas operações podem variar de acordo com fatores como gênero, raça, idade, estrato socioeconômico e origem regional dos entrevistados. Sabe-se, por exemplo, que as pessoas mais idosas tendem a ter mais medo, e que as mulheres enfrentam situações de insegurança e vulnerabilidade diferentes das dos homens. Além disso, algumas pessoas podem ter sido entrevistadas pouco tempo depois de terem sofrido furto, assalto ou outro tipo de agressão violenta, sublinhou o pesquisador.

Portanto, a despeito de seus méritos, as sondagens também refletem apenas um fragmento momentâneo da opinião pública – muitas vezes captado em contextos de forte carga emocional pós-crime – e possuem limites metodológicos severos, como o fato de entrevistas por telefone sub-representarem o universo dos opinantes, silenciando ou atribuindo menor importância aos moradores de favelas, que são justamente os mais diretamente afetados por operações policiais, ponderou Adorno.

“Dependendo da metodologia de uma sondagem, mesmo que ela possa fazer uma amostragem aparentemente representativa, a coleta é desigual e também não capta aspectos [relacionados ao fato] que algumas pessoas, especialmente moradoras de favelas, não querem falar”, avalia o pesquisador.

Distribuição desigual do medo da violência

Segundo o pesquisador, em um primeiro momento, o morador de favela tem muita dificuldade de falar em sondagens de opinião pública sobre violência, por constrangimento e por medo. Dada a configuração desses conglomerados urbanos, onde não raramente criminosos, trabalhadores e policiais são vizinhos e os filhos frequentam as mesmas escolas, muitos não se sentem confortáveis em dizer o que ouvem ou testemunham sobre as operações policiais.

Em pesquisas qualitativas mais aprofundadas, porém, os relatos costumam ser diferentes. As mesmas pessoas tendem a relativizar o apoio à violência ao narrarem histórias reais de vizinhos e familiares inocentes vitimados por operações policiais, comparou Adorno. “As mesmas pessoas que, em um primeiro momento, podem até apoiar, depois começam a dizer: olha, não é bem assim”, disse.

Embora o medo da violência seja disseminado por todas as classes sociais, sua distribuição é desigual, apontou o pesquisador. Um projeto de pesquisa do jornal Folha de S. Paulo em parceria com o Datafolha, denominado DNA Paulistanos e realizado entre 2008 e 2012 com a contribuição de Adorno, confirmou essa constatação. Foram ouvidas mais de 25 mil pessoas em todos os 96 distritos de São Paulo para mapear a vida, a satisfação e os problemas dos moradores da cidade.

“As maiores taxas de medo da violência foram observadas em bairros de classe média e alta onde as taxas de crimes eram as mais baixas. Em contrapartida, na periferia, as pessoas não falavam muito sobre o medo. Ele existia, mas os problemas delas eram muito mais concretos: calçamento, iluminação, transporte e escola, por exemplo. Na percepção dessas pessoas, a violência já estava presente no cotidiano e não representava mais um problema”, disse Adorno.

Legitimação da barbárie

De acordo com o pesquisador, o emprego da violência é um elemento constitutivo da cultura política brasileira. Diferentes formas de violência sempre estiveram presentes na história social e política da sociedade brasileira desde o período colonial. Esse cenário, porém, se tornou ainda mais grave com a escalada da violência urbana, iniciada na década de 1980, impulsionada pela chegada do crime organizado durante a transição da ditadura civil-militar para a democracia, consolidando a violência como um componente estruturante da sociedade brasileira.

“É grave constatar que, após 40 anos de retorno do Brasil ao Estado democrático de direito, as instituições republicanas não conseguem modificar esse cenário e estancar as mortes. A democracia não foi suficiente para mudar as políticas de segurança no país e há um complexo jogo de poder no qual, na questão da segurança, as heranças do passado são atualizadas”, avaliou.

Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública citados pelo pesquisador apontam que, entre 2016 e 2025, intervenções policiais resultaram na morte de 60.500 civis, um crescimento acumulado de 55,7%. O ano de 2025 registrou um recorde histórico com 6.602 mortos, o que representa 10% do total de uma década em apenas um ano.

Na opinião de Adorno, essas operações policiais em áreas de baixa renda, embora criticadas por setores de direitos humanos, tornaram-se padrões costumeiros que beiram a normalidade institucional. “Tudo opera como se a segurança funcionasse segundo lógicas próprias dos aparelhos de contenção, para as quais os constrangimentos constitucionais praticamente não existem”, observou.

O pesquisador destacou que essa dinâmica cria uma “esquizofrenia social” nas periferias: moradores vivem sob a pressão antagônica do crime organizado, que impõe regras territoriais, e da polícia, cujas incursões frequentemente resultam em vítimas sem antecedentes criminais. Nesse contexto, a vida passa a ser relativizada conforme a classe, a raça ou a localização geográfica.

Ódio e anestesia moral

Os estudos conduzidos no NEV-USP sob a coordenação de Adorno também identificam uma mutação preocupante na sociedade civil desde 2013: o fortalecimento de grupos que apostam na violência como recurso de poder e dominação. Esse fenômeno se manifesta na explosão de intolerância racial, religiosa e política, muitas vezes disfarçada sob o pretexto da liberdade de expressão.

A crueldade extrema em crimes cotidianos, como feminicídios com mutilações, é vista como um desejo de eliminação não apenas física, mas simbólica do outro. “O ódio se avizinha de um fenômeno conhecido no mundo contemporâneo: o genocídio. Busca-se varrer do mundo dos vivos sinais de pertencimento ou identidade”, explicou Adorno.

O pesquisador concluiu com um alerta sobre os riscos para o futuro da democracia brasileira, comparando o atual estado de indiferença pública ao cenário que antecedeu regimes totalitários. “Essas operações vão acontecer cada vez com maior frequência e cada vez mais a sociedade vai ser tomada de uma anestesia moral. E nós sabemos que a anestesia moral esteve na base de todos os regimes totalitários e fascistas que conhecemos”, apontou.
 

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