Alice Grimm: “Tanto o alheamento do cidadão quanto o despreparo dos territórios são perigosos frente às mudanças climáticas”

Uma das principais pesquisadoras do Brasil sobre oscilações climáticas, professora do Departamento de Física da UFPR alerta para os efeitos do El Niño esperado para este ano e pontua a necessidade de políticas públicas de prevenção de desastres articuladas com o conhecimento científico

Por Camille Bropp, no Ciência UFPR

No Oceano Pacífico, a mais de 5 mil quilômetros do Brasil, fica o Niño 3.4, um ponto monitorado por satélites de agências científicas que medem se as águas superficiais estão mais quentes ou subiram de nível. Esses são os indicadores para a previsão do El Niño, a fase quente da oscilação climática chamada ENOS (El Niño-Oscilação Sul), que alterna entre o aquecimento e o resfriamento da superfície do mar, influenciando o tempo em quase todo o planeta. Dessa medição partiu o aviso de que as águas começaram a esquentar entre abril e junho deste ano com aceleração incomum, sugerindo um El Niño de grau “muito forte” para 2026, que deve ter seu pico de intensidade perto do fim do ano.

O El Niño acontece em intervalos irregulares de dois a sete anos e sempre é pauta pública, porque aumenta o risco de desastres e prejuízo econômico. Por sua localização e extensão continental, o Brasil é um dos países mais impactados por essa oscilação climática, que tende a ficar mais comum e intensa como resultado do aquecimento global. Hoje o El Niño já aumenta a propensão para seca e incêndios ao Norte, tempestades, enchentes e ciclones mais ao Sul, e crise hídrica em boa parte do país.

VÍDEO | Aquecimento das águas do Oceano Pacífico tropical ao longo de 20 semanas, entre janeiro e julho deste ano, indicando evento El Niño. Em tons de azul, as águas mais frias; em amarelo a vermelho, as mais quentes; e índices Roni em destaque
Fonte: IRI/Columbia/Reprodução

Isso leva à questão: como o Brasil, que está no caminho das rotas preferenciais das alterações causadas pelo El Niño, tem se preparado para essa e outras oscilações climáticas? Segundo a professora titular e pesquisadora Alice Grimm, do Departamento de Física da Universidade Federal do Paraná (UFPR), onde coordena o Laboratório de Meteorologia (Labmet), há urgência na revisão de posicionamentos.

Alice Marlene Grimm figura na lista da Universidade de Stanford entre os cientistas mais influentes do mundo, com destaque nacional no campo das ciências atmosféricas. Outras credenciais da pesquisadora passam pela revisão do quinto relatório (2013-2014) do Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC), órgão científico da ONU sobre questões de clima, e pela atuação em comitês científicos internacionais, como o da Rede de Pesquisa em Mudanças Climáticas Urbanas (UCCRN) da Universidade de Columbia e o do Painel de Monções da Organização Meteorológica Mundial (WMO), no qual representou a América do Sul.

Os desastres climáticos que se repetem no país espelham entraves resistentes, como a insuficiência de planejamento estrutural de longo prazo e a falha de comunicação técnica entre a ciência e a gestão pública. Um exemplo disso está nos resultados do levantamento do Tribunal de Contas do Estado do Paraná que expôs, em julho, que 60% das prefeituras do estado não possuem estrutura de Defesa Civil e 70% carecem de sistemas de alerta de riscos para a população.

Neste ano, a professora tem agido para tentar quebrar o ciclo de desinformação, apresentando pontos de vista científicos a gestores públicos. Uma dessa falas está marcada para essa segunda-feira (17), às 14 horas, em Curitiba, com transmissão on-line pelo canal de eventos da UFPR TV no YouTube.

Como pano de fundo dessa atuação está uma motivação antiga, a mesma que a levou a estudar oscilações climáticas. Em 1983, mestre em Ciências Geodésicas e à procura de um tema para doutorado, vivenciou o que significa um desastre natural para uma família. Os pais de Grimm perderam parte da casa onde residiam no Vale do Itajaí (SC) durante a enchente que deixou a cidade debaixo d’água, em julho daquele ano, durante um evento de El Niño. Assim a pesquisadora começou a construir sua trajetória na investigação de eventos climáticos de teleconexão, o conceito meteorológico que trata da ligação entre regiões distantes do planeta.

Na entrevista abaixo, Alice Grimm explica descobertas científicas recentes a respeito das oscilações climáticas naturais e das mudanças climáticas antrópicas, além de comentar os aspectos que colocam o Brasil em risco na pauta climática: o foco em reação em vez de prevenção, a desinformação, e as lacunas de dados confiáveis e adaptados ao continente para serem disponibilizados aos gestores públicos, entre outras questões.


Qual foi sua a motivação para se dedicar à pesquisa sobre clima?

Alice Grimm | Sou a quinta de cinco filhos de um casal de professores que tinham muito amor pela profissão, tendo minha mãe se aposentado após 50 anos de exercício. Dos cinco filhos, quatro seguiram a missão dos pais. Sou formada em Física, em 1972, e em Arquitetura e Urbanismo, em 1973, na UFPR, tendo sido admitida antes da unificação do vestibular. O curso de Arquitetura e Urbanismo tinha uma seleção muito competitiva, devido ao renome da arquitetura paranaense, cujos expoentes, a maioria professores da UFPR, venciam concursos nacionais e internacionais.

Após formada, comecei a trabalhar no Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano [Ippuc], em Curitiba, a convite de Jaime Lerner, também professor da UFPR, mas licenciado para seu primeiro mandato de prefeito. Foi um período de grandes transformações e avanços em Curitiba e, para mim, uma grande experiência. No entanto, talvez guiada por uma herança genética, me candidatei a uma vaga de professor no Departamento de Física da UFPR e fui aprovada, sendo contratada em 10 de abril de 1975. Fui a primeira docente mulher do Departamento de Física. Ainda trabalhei como arquiteta por algum tempo, mas logo reconheci que havia encontrado minha verdadeira vocação na vida acadêmica.

No início da década de 1980, com a reestruturação da carreira do magistério superior, passei a me dedicar exclusivamente a essa vocação. Como ainda não havia pós-graduação em Física na UFPR, fiz mestrado em Ciências Geodésicas na UFPR. Quando terminei, ainda não havia doutorado em Física na UFPR.

A escolha da minha área de pesquisa foi influenciada pela tragédia da grande enchente de julho de 1983 no Vale do Itajaí, em Santa Catarina. Havia indicações de que aquele desastre tinha sido ocasionado por um evento El Niño, ocorrido no Oceano Pacífico equatorial, ainda pouco conhecido no Brasil.

Fiquei fascinada por este problema: como uma anomalia climática ocorrida a tamanha distância pôde produzir tanta destruição no Sul do Brasil? Além do fascinante problema científico, tive intensa motivação pessoal para definir minha área de pesquisa.

A casa dos meus pais foi parcialmente destruída e eles só foram retirados dela após a invasão das águas, durante a madrugada. Minha mãe sofreu intenso choque, suas defesas se esvaíram e ela faleceu um mês após o desastre. Esta perda me marcou muito e decidi estudar Meteorologia para ajudar a prevenir tais desastres.

O programa de doutorado mais próximo estava na Universidade de São Paulo [USP], para onde tive que viajar semanalmente. Já tinha dois filhos quando o iniciei e no meio do doutorado tive que interrompê-lo temporariamente, devido ao nascimento de minha terceira filha.

Apesar de todas as dificuldades, foi uma decisão extremamente gratificante. Propus como tema da tese de doutorado o estudo da influência remota de fontes anômalas tropicais de calor como, por exemplo, as produzidas pela convecção anômala associada ao fenômeno El Niño. Desenvolvi uma ferramenta, as Funções de Influência, para estudar as teleconexões atmosféricas, responsáveis pela influência de forçantes de uma determinada região, como o El Niño no Pacífico equatorial, na circulação atmosférica e no clima de outras regiões, como o Sul do Brasil. Essa ferramenta tem sido muito usada para localizar a fonte de várias teleconexões de oscilações climáticas que afetam o Brasil, produzindo eventos extremos. Minha tese ganhou o Prêmio USP de Pós-Graduação de 1993.

O trabalho intenso de reunir dados e estudar os impactos de eventos El Niño produziu um convite para trabalhar na Universidade de Columbia, em Nova York, como pesquisadora visitante. Esta foi uma oportunidade de conviver com expoentes da meteorologia mundial, como Chester Ropelewski [cientista de clima da Columbia e do National Oceanic and Atmospheric Administration]. A extensão do meu trabalho a outras oscilações climáticas e seus impactos na América do Sul, a questões de previsibilidade, ao sistema de monção da América do Sul e às mudanças climáticas antrópicas motivou convites de participação em vários comitês científicos da Organização Meteorológica Mundial e no Grupo de Gestão da Comissão de Ciências Atmosféricas desta organização, onde representei a América do Sul por oito anos.

Apesar das dificuldades enfrentadas, houve alguns prêmios que me incentivaram, a alegria de trabalhar com estudantes e vê-los se desenvolverem e o prazer de explorar dados, descobrir relações e testar hipóteses sobre os mecanismos da variabilidade e mudança climática. Apesar de não ter perseguido grande produção numérica de artigos, procurei fazê-los abrangentes e úteis. Minha inclusão na lista dos cientistas mais influentes, entre os cinco cientistas brasileiros da lista na área de Meteorologia e Ciências Atmosféricas, da Terra e do Meio Ambiente, indica que eles foram úteis, pois motivaram outros estudos.

O que se espera do “Super El Niño” de 2026 e por que alguns especialistas discordam dessa nomenclatura? É uma situação inédita?

AG | O evento El Niño de 2026 e 2027, que já está ocorrendo desde o trimestre que abrange abril, maio e junho, tem 97% de chance de se estender até o início do outono de 2027 [que, no Brasil, começa em 20 de março de 2027]. Tem também probabilidade de 81% de ser muito forte no trimestre de outubro, novembro e dezembro, quando seus efeitos são relativamente os mais intensos no Sul do Brasil. Essas informações são obtidas de projeções de numerosos modelos.

Nomenclaturas como “Super El Niño”, “El Niño Godzilla” etc não são científicas. Creio que podem causar confusões. A classificação científica dá intervalos bem definidos de aumento da temperatura para classificar um El Niño. Por outro lado, o que é um super El Niño ou El Niño Godzilla?

Há classificações mais bem aceitas entre os cientistas, como aquela baseada no índice Roni [Índice Relativo de Niño Oceânico, na sigla em inglês]. O índice Roni trimestral permite avaliar se o El Niño foi fraco, moderado, forte ou muito forte, de acordo com a variação registrada, respectivamente, nos intervalos 0,5°C a 1,0°C, 1,0°C a 1,5°C, 1,5°C a 2,0°C e de 2,0°C para cima. Para que se possa dizer no futuro que ocorreu um evento El Niño, uma variação de 0,5°C para cima deve ter acontecido pelo menos por cinco trimestres móveis consecutivos.

Um El Niño muito forte não é absolutamente inédito. Em época mais recente, depois de 1980, houve eventos muito fortes. Do mais para o menos forte, tivemos esse cenário entre 1982 e 1983, entre 1997 e 1998, e entre 2015 e 2016. O maior valor observado de Roni trimestral, por exemplo, foi 2,5, em dois trimestres entre novembro de 1982 e janeiro de 1983.

Neste ano o evento já começou, pois o índice Roni entre abril e junho de 2026 já foi igual a 0,5. De acordo com as previsões mais recentes, o máximo de intensidade será atingido entre outubro e dezembro de 2026. Há 97% de chance de isso se estender até o início do outono de 2027, entre fevereiro e abril. As próximas previsões, feitas com o evento já em curso, darão indicações mais seguras sobre sua evolução.

Por enquanto, não se pode dizer que a previsão é de um fenômeno de duração longa. Existe a previsão apenas até o outono de 2027, o que não caracterizaria um El Niño muito longo. É relativamente comum um evento El Niño começar no inverno de um ano e estender-se até o início do outono do ano seguinte. As próximas previsões darão indicações melhores sobre a duração. Mas El Niño longos já ocorreram desde 1980. O mais longo deles, o evento entre 1982 e 1983, durou cerca de 15 meses.

É preciso dizer que o El Niño não é o único responsável pelas enchentes e pelos deslizamentos que em todo fim de ano atingem certas regiões, mesmo porque não há El Niño todo ano. Outros fenômenos também podem produzir esses desastres, mas o El Niño pode aumentar os efeitos.

Um exemplo é a Oscilação de Madden-Julian [na sigla, OMJ], uma oscilação climática natural intrasazonal [cujo período é menor que uma estação do ano, mas maior que o da chamada variabilidade sinótica, em torno de duas semanas], que pode ter grande efeito sobre as chuvas de verão no Centro-Leste do Brasil, que inclui o Sudeste. Uma pesquisa realizada por uma doutoranda sob minha orientação, Laís Fernandes, e que já está publicada, mostra que em certas fases dessa oscilação no verão de anos com El Niño há efeitos muito mais fortes e com mais eventos extremos nessa região do que em anos sem El Niño.

Outra doutoranda, Luana Scheibe, estuda o efeito de El Niño sobre os impactos da oscilação em outras estações do ano e já verificou que El Niño potencializa os efeitos da oscilação em algumas de suas fases, produzindo eventos extremos mais fortes e frequentes.

O desastre de final de abril e início de maio de 2024 no Rio Grande do Sul é um exemplo disso.

Por que o El Niño tem efeitos tão diversos no Brasil, causando enchentes no Sul-Sudeste e seca na Amazônia, por exemplo?

AG | Durante o El Niño há águas mais quentes no Pacífico Central-Leste, onde são normalmente frias, e então ocorre mais formação de nuvens e chuva nessas regiões, onde normalmente isso não acontece. Na formação de nuvens, há transformação de fase de vapor de água em gotículas de água líquida, o que significa liberação de calor latente na atmosfera, ou seja, de energia.

Essa fonte de energia anômala produz perturbações na circulação atmosférica, que se propagam por ondas atmosféricas, tanto em rota equatorial como em rotas extratropicais. Essas últimas não se propagam igualmente em todas as direções, mas em caminhos preferenciais, que dependem da circulação básica da atmosfera.

O Sul do Brasil está numa dessas rotas extratropicais preferenciais. As perturbações produzidas sobre essa região causam mais movimento ascendente na atmosfera, ou seja, mais nuvens e mais chuva do que a média. Mas essas anomalias não têm a mesma intensidade ao longo do ciclo de vida do El Niño.

Já a Amazônia e parte do Nordeste estão numa rota de propagação equatorial das perturbações. Lá elas produzem movimento descendente na atmosfera, inibindo a produção de nuvens e diminuindo a chuva.

Os efeitos de El Niño na América do Sul dependem da intensidade do evento. De maneira geral, quanto mais forte ele é, mais fortes são os impactos.

Como podemos situar esse fenômeno, esperado para este ano, entre os que afetam os eventos extremos, tão citados como uma das ameaças da crise climática?

AG | Nossos estudos têm demonstrado que os eventos El Niño tem a capacidade de alterar a frequência e a intensidade dos eventos extremos, de forma até mais significativa do que alteram as precipitações médias sazonais ou mensais, principalmente no Sul do Brasil.

Realmente, os eventos extremos na Região Sul aumentam, de forma geral, mas não de forma uniforme, ao longo do ciclo de vida do evento El Niño, pelo aumento da quantidade de chuva e da frequência de eventos extremos. Por outro lado, causa diminuição de chuva e de eventos extremos na Amazônia, principalmente em sua parte leste.

Sua pesquisa tem indicado caminhos para uma previsão mais acertada dos impactos do El Niño sobre a América do Sul, considerando a resposta estatisticamente mais consistente associada com eventos El Niño do passado. Como essa proposta tem avançado?

AG | Embora os eventos El Niño e La Niña não sejam iguais entre si, eles produzem impactos estatisticamente consistentes, que variam significativamente ao longo do ciclo de vida de cada evento.

Os modelos nem sempre reproduzem satisfatoriamente essas variações ou até mesmo os sinais dos impactos, como a chuva a mais ou a menos do que a média, em períodos importantes deste ciclo.

O planejamento da Defesa Civil e de outros setores, como agricultura, produção de energia, abastecimento de água, indústria de vestuário, alimentos e bebidas, turismo, etc, dependem do clima. Portanto, é essencial que esses impactos sejam mais detalhados, pois tais variações podem fazer grande diferença.

Por exemplo, em outubro de 1997, no evento El Niño de 1997 a 1998, uma revista de grande circulação publicou a matéria de capa “A fúria do El Niño” [uma edição de outubro de 1997 da revista Veja]. A reportagem descrevia os impactos sobre o Brasil como redução de chuvas na Amazônia e no Sertão, e chuvas torrenciais e inundações históricas no Sul. Na época, o conhecimento dos impactos era mais genérico e, realmente, na média sobre todo o ciclo de vida de um evento El Niño, chove acima do normal no Sul e abaixo do normal no Norte do país.

Contudo, o impacto não é uniforme ao longo do El Niño. O meu primeiro artigo sobre a influência de ENOS [El Niño-Oscilação Sul, “nome completo” do ciclo que abrange El Niño e La Niña] no Sul do Brasil, escrito com dois alunos, já alertava para a grande variação sazonal dos impactos na maior parte da região, do máximo relativo na primavera para um mínimo relativo em parte do verão, além de um deslocamento dos maiores impactos para oeste entre a primavera e o verão (https://doi.org/10.1175/1520-442(1998)011%3C2863:PAISBA%3E2.0.CO;2). Ele foi publicado em 1998, mas antes disso, os resultados já tinham sido apresentados em Congresso Brasileiro de Meteorologia e até recebido prêmio de melhor trabalho, o que significa que a informação já estava disponível para o público mais especializado, que deveria ter sido procurado para opinar antes da publicação.

A cobertura massiva dos veículos de comunicação afirmando que o Sul enfrentaria “chuvas torrenciais e inundações históricas” assustou os turistas. Cidades turísticas litorâneas e da região do Vale do Itajaí registraram cancelamentos em massa de reservas para as férias de verão. No fim, embora o evento tenha causado chuvas acima da média no Sul, não houve chuvas torrenciais ou enchentes históricas na parte leste de Santa Catarina no verão. Sindicatos de hotéis, federações de turismo e prefeituras catarinenses se mobilizaram para criticar o “terrorismo climático” da imprensa, argumentando que as previsões catastróficas generalizavam os temporais para toda a região no verão, o que não ocorreu.

Se a generalização for evitada, a partir de informações com mais detalhe temporal e espacial, é possível evitar erros e prejuízos ainda maiores. É claro que haverá eventos nos quais os impactos mais fortes serão diferentes daqueles estatisticamente mais significativos, mas eles serão minoria.

Para achar uma resposta estatisticamente mais robusta para abranger os aspectos mais marcantes em eventos El Niño do passado, é necessário juntar longas séries de dados, com a máxima quantidade possível de dados diretamente observados, de modo que a interpolação em pontos de grade não altere muito a intensidade dos eventos extremos. Assim, haverá amostra suficiente de eventos para a obtenção de sinais significativos. Também usamos um método mais completo para determinar eventos El Niño e La Niña, a partir da determinação da oscilação ENOS com dados de temperatura da superfície do mar em todo o globo, o que descreve mais completamente esta oscilação do que apenas o índice RONI.

Além disso, é necessário estudar os processos físicos que explicam os impactos e a sua variação sazonal e até mensal ao longo do ciclo de vida médio de um evento El Niño, para que todos os resultados em conjunto façam sentido.

A avaliação feita a partir do nosso conjunto de dados mais recente, com 75 anos, permitiu um detalhamento espacial e temporal maior do que é normalmente feito, em grade de um grau de latitude e de longitude [ou seja, em regiões mais específicas] e resolução mensal [entendendo as nuances do fenômeno em períodos mais curtos, enquanto ele ocorre].

O quanto uma previsão meteorológica melhor, seja de curto prazo ou sazonal, poderia ajudar nas políticas públicas referentes à prevenção de desastres naturais? É possível melhorar, por exemplo, a incerteza sobre a intensidade dos eventos previstos?

AG | Uma previsão climática sazonal, com antecedência acima de um mês, das características estatísticas dos eventos extremos, por exemplo, sua frequência e intensidade média, ajuda na prevenção de desastres naturais. Permite reduzir os fatores de risco que podem ser alterados pela ação humana, ou seja, a vulnerabilidade e a exposição.

A previsão de curto prazo de um determinado evento, que é a chamada previsão de tempo, com antecedência menor do que três semanas, permite detalhar melhor um determinado evento climático. Nesse curto prazo, geralmente não é possível alterar o grau de vulnerabilidade por meio de obras, restando reduzir o grau de exposição, através da remoção da população a ser potencialmente atingida ou de outras medidas para reduzir danos e prejuízos.

Ainda é possível melhorar a previsão da intensidade e do instante de ocorrência de um evento extremo, reduzindo a incerteza, mas há limites teóricos para a previsão das características de um determinado evento.

Esses limites são impostos porque os sistemas climáticos contêm processos não-lineares. Isso produz grandes diferenças nas previsões a partir de estados iniciais muito parecidos do sistema, depois de aproximadamente duas semanas.

Apesar desse limite, melhorias ainda são possíveis através da melhor representação de processos. Por exemplo, melhorando as equações que descrevem certos processos e aumentando a resolução dos modelos. O uso de recursos de inteligência artificial também é uma opção.

O que significam a tendência à “reversão primavera-verão” nas chuvas do Centro-Leste da América do Sul e a tendência ao “El Niño permanente” no clima futuro?

AG | A tendência à reversão [inversão de sinal] entre as anomalias de chuva na primavera e no verão no Centro-Leste do Brasil significa que uma primavera mais seca (chuvosa) do que o normal naquela região tende a ser seguida por verão mais chuvoso (seco).

Descobrimos essa tendência à reversão quando estávamos explorando relações entre dados de precipitação de diferentes estações no ano. Inicialmente, ficamos intrigados com essa tendência, mas depois de uma análise dos dados de temperatura e de circulação atmosférica associados a essa reversão, chegamos a uma hipótese para explicá-la e a testamos com um modelo climático regional, que permitia simulações com maior resolução. Os diferentes experimentos realizados com o modelo confirmaram a hipótese e esse trabalho já foi publicado. Vou explicá-la.

Na região Centro-Leste do Brasil, que abrange parte do Centro, sul do Nordeste e o Sudeste do Brasil, chove pouco no inverno e muito na estação da monção, de outubro a março. Portanto, no final do inverno o solo dessa região está muito seco. À medida que passa a primavera, início da monção, a radiação solar vai aumentando e a chuva de monção começa a aparecer, umedecendo o solo. Contudo, quando, na primavera, devido ao efeito de alguma oscilação climática, há um anticiclone sobre a região e chove muito pouco, o solo fica mais seco ainda e o aumento da radiação solar produz aquecimento acima do normal da superfície e do ar acima. Esse aquecimento anômalo diminui a pressão na superfície e, com a ajuda do relevo montanhoso na região, causa convergência e movimento ascendente do ar, produzindo um ciclone no início do verão, causando o desvio do transporte de umidade para o Centro-Leste do Brasil e diminuindo o transporte para o Sul. Essas mudanças causam mais chuva na região e o solo se umedece e a temperatura cai, desaparecendo o motivo da inversão.

Se há uma oscilação climática, como o El Niño, que ainda produza teleconexão no outono semelhante à primavera, embora mais fraca, as condições de primavera retornam enfraquecidas. Portanto, a tendência à reversão entre primavera e verão resulta da interação local entre superfície e atmosfera no auge do verão, que se torna mais forte do que o efeito da teleconexão produzida por El Niño. Esta tendência tem influência também no Sul do Brasil, pois enquanto chove mais no Centro-Leste no auge do verão, tende a diminuir o impacto sobre o Sul, principalmente na sua parte leste,

Quanto à tendência a um estado de “El Niño permanente” no clima futuro, refere-se ao fato de que a oscilação ENOS tenderá a ser mais assimétrica no futuro.

A fase positiva, o El Niño, será mais intensa do que sua fase negativa, a La Niña, em relação ao clima atual. A retificação dessa mudança no clima médio produzirá no futuro um clima mais parecido com as condições de El Niño.

Como essas tendências podem influenciar a agricultura e outros setores afetados pelo clima, o meio ambiente e as áreas urbanas?

AG | A maioria dos modelos [conjuntos de equações usadas nas previsões de tempo e clima] tem fraco desempenho na previsão sazonal da chuva de verão para o Centro-Leste do Brasil, talvez porque não reproduzam bem esses mecanismos citados.

Isso causa maior incerteza na previsão climática para o auge da estação chuvosa de monção numa região importante para a produção agrícola, geração de hidroeletricidade, e por abrigar ecossistemas importantes, além de ser muito populosa na sua parte sudeste.

Portanto, estudos diagnósticos e de modelagem, como esse que fizemos [da reversão primavera-verão], relacionando o comportamento do clima no verão com o da primavera precedente, indicam alguma previsibilidade para a estação de verão nessa região, o que pode ser explorado na previsão.

O fato de que no futuro teremos um clima mais parecido com as condições de El Niño e teremos eventos El Niño mais fortes do que no presente, influencia todos os setores que dependem do clima, pois ENOS é a oscilação natural que mais influencia a variabilidade do clima na América do Sul.

Isso afetará, por exemplo, a chuva e seus eventos extremos na Amazônia e na Região Sul, que são consistentemente afetados por El Niño, além de outras regiões em períodos mais curtos. Isso é um aspecto preocupante, pois demanda medidas de adaptação, tendo em vista que mesmo os impactos de El Niño atual já causam desastres naturais.

Por que as populações de baixa renda são sempre as que “pagam a conta” mais alta nos eventos extremos?

AG | A população de baixa renda “paga a conta” mais alta dos eventos extremos por várias razões. É ela que predomina entre os ocupantes de áreas de risco, sem infraestrutura adequada, mais expostas aos desastres, como enchentes e deslizamentos, porque nessas áreas comumente a moradia é mais barata. Suas casas são mais frágeis e, portanto, mais facilmente destruídas. Ela não tem poupança para recomeçar e o apoio público, geralmente, não é suficiente, nem rápido.

Como você explicaria o que o El Niño muda na vida prática? Devemos nos preparar para o aumento no preço dos alimentos devido às quebras de safra ou para contas de luz mais caras pela falta de água nas hidrelétricas?

AG | O El Niño pode afetar vários aspectos na vida prática, além de afetar as pessoas diretamente expostas aos desastres naturais causados pelos eventos extremos favorecidos pelo El Niño. Contudo, como ele não afeta o clima da mesma maneira em todo o país, os efeitos podem ser diferentes.

Na Região Norte, em média, pode haver diminuição de produção de energia hidroelétrica, mas na Região Sul é mais provável que ocorra o contrário. Contudo, como o sistema de distribuição de energia é interligado, é possível haver redistribuição entre as regiões do país.

Além disso, o impacto não é constante ao longo do ciclo de vida de El Niño. Por exemplo, no Centro-Leste do Brasil, onde há bacias hidrográficas contribuintes a muitas hidroelétricas, há chuvas abaixo da média na primavera, mas um pouco acima da média no auge do verão. Da mesma forma, o impacto sobre a produção de alimentos varia de uma região para outra.

Vamos usar, como exemplo, a Região Sul, onde vivemos. Quanto à produção agrícola, embora o ENOS exerça uma influência significativa no clima do Sul do Brasil, essa influência não é onipresente. Mesmo em áreas onde o ENOS influencia o clima de forma consistente, o manejo da cultura ou as necessidades hídricas das plantas podem determinar se o fenômeno terá um impacto significativo na produtividade agrícola.

Estudos mostram o impacto sobre a produtividade de diversas culturas em eventos El Niño e La Niña, mas os resultados podem variar de acordo com a metodologia do estudo e os ciclos de culturas adotados. Além do favorecimento ou prejuízo às necessidades hídricas das plantas, devidos às anomalias de chuva e temperatura acima ou abaixo da média, é importante o efeito de chuvas muito intensas e inundações extensivas, que causam significativas perdas agrícolas durante eventos El Niño.

Se eventos extremos se tornarem mais frequentes e intensos, como previsto neste El Niño, pode haver diminuição de safras e isso pode impactar no preço de alguns alimentos. Além disso, o preço também pode aumentar se houver dificuldades no transporte devidas a danos ou interrupções na infraestrutura viária, causados pelas enchentes.

Quais os alheamentos mais perigosos, no seu entender, o do cidadão comum em relação às mudanças climáticas ou o despreparo dos territórios para lidar com elas? Além dessa indiferença, a desinformação preocupa?

AG | As mudanças climáticas antrópicas [provocadas pela ação humana] muito provavelmente irão intensificar os impactos de El Niño no futuro, o que é indesejável, tendo em vista que tais impactos no presente já causam desastres naturais.

Portanto, são perigosos tanto o alheamento do cidadão comum em relação às mudanças climáticas como o despreparo dos territórios para enfrentar seus efeitos, pela falta de medidas de adaptação a essas mudanças. Ambos os tipos de alheamentos são perigosos e interligados.

Cidadãos que não se importam com as mudanças climáticas não exigem medidas de mitigação, nem acham necessárias medidas de adaptação. Assim, haverá desastres naturais mais recorrentes e intensos em relação ao clima atual, pois aumentam seus fatores de risco.

Na realidade, creio que é a desinformação que produz a indiferença. É necessário explicar ao cidadão comum, de maneira inteligível, mas também correta, quais são as bases científicas das mudanças climáticas, porque entendimento conduz à conscientização e ao engajamento.

Embora não se deva entrar em detalhes da mecânica quântica e das leis da radiação, deve-se resumir os processos de forma correta e compreensível, evitando afirmações muito superficiais e genéricas, carentes de fundamentação científica.

No caso do despreparo dos territórios, além de informar aos gestores os fundamentos das mudanças climáticas, é necessário fornecer-lhes informações robustas e acionáveis para medidas de adaptação. Há resultados de projeções climáticas por vezes discrepantes entre grupos de diferentes modelos, o que pode produzir muitas dúvidas.

Como obter informação de mudanças climáticas robustas e acionáveis para medidas de adaptação?

AG | A necessidade de adaptação deve ser mostrada a partir de projeções climáticas robustas, de modelos selecionados com critérios baseados nos mecanismos físicos relevantes para as mudanças climáticas no nosso continente. As pesquisas do nosso grupo desvendaram tais mecanismos e selecionaram tais modelos. É importante enfatizar que indicações robustas de mudanças climáticas antrópicas para planejamento de medidas de adaptação não são obtidas simplesmente por monitoramento de variáveis, como temperatura e chuva, e cálculo de tendências nas séries de medidas destas variáveis. Embora monitoramento e coleta de dados seja algo bom, deve haver conhecimento de oscilações climáticas naturais e dos mecanismos físicos das mudanças climáticas na América do Sul, para que se possa selecionar os modelos para as projeções de clima futuro na região.

Há oscilações climáticas naturais interdecadais [que ocorrem entre uma década e outra] que produzem variações lentas e dão a impressão de “tendências” em certos intervalos de tempo. Um exemplo disto é mostrado num artigo que escrevemos sobre a seca de 2020 e -2021 no Sul do Brasil. Olhando as séries de anomalias de chuvas de outono em duas áreas do Sul do Brasil entre 1980 e 2020, nota-se uma tendência negativa, de chuvas predominantemente acima do normal até 2000 e abaixo do normal após este ano. Isto não representa uma tendência ou mudança climática para seca na Região Sul no futuro. Representa um trecho de uma oscilação natural. Na realidade, tal “mudança” deve-se à mudança de fases de oscilações climáticas interdecadais do Atlântico e do Pacífico em torno de 2000, que no futuro mudarão novamente. Todos os melhores modelos climáticos projetam aumento de chuva no futuro no Sul do Brasil, pelo menos até 2100, com base num arcabouço dinâmico consistente.

Avalia que os alertas de “tempestade forte” das prefeituras no celular, talvez a medida de defesa civil mais conhecida pelo cidadão no seu cotidiano, funcionam nesse sentido?

AG | Não posso dar resposta precisa a essa pergunta, pois não realizei nem tomei conhecimento de pesquisas de opinião de usuários que tenham dado informação a este respeito. Em todo caso, acho que é melhor ter este tipo de alerta do que não tê-lo. Haverá avisos que não se concretizam, que são falso alarme, mas este recurso terá valido a pena se houver uma fração que efetivamente evite desastres.

O que o morador de periferia ou comunidade ribeirinha deve reivindicar de seus prefeitos e governadores? Para além da ajuda humanitária após a tragédia, existem investimentos específicos em prevenção e adaptação, como infraestrutura resiliente, que estão sendo negligenciados? E como a ciência pode ajudar essas comunidades a fazerem esse diálogo?

AG | A resposta a essa pergunta e a responsabilidade por situações que podem produzir tragédias seriam muito específicas para cada município. Portanto, o que vou dar a seguir são respostas genéricas.

Pode haver casos nos quais as inundações em certa área ocupada sempre existiram, mesmo antes da ocupação, com uma frequência que não seria aceitável, e essa área sofreu ocupação irregular. Por outro lado, pode haver casos de inundações que não ocorriam quando houve a ocupação regular, ou eram extremamente raras, e hoje ocorrem mais frequentemente, por ações ou omissão da população e do poder público. Exemplos disto são a destruição da mata ciliar, o assoreamento dos rios, as obras que interferiram em escoamento natural etc.

O importante é verificar o que se pode fazer agora para evitar novos erros, diminuir o efeito de erros anteriores e remediar erros “consolidados”.

Em teoria, territórios vulneráveis, aqueles inundáveis ou sujeitos a deslizamentos, não deveriam ser ocupados. Se a ocupação iniciou, deveria haver interrupção do processo e talvez reassentamento. A definição e a fiscalização desses territórios deveriam ser feitas pelo poder público.

Em casos de ocupações muito consolidadas ou para benefício do município como um todo, é necessário diagnosticar quais investimentos específicos em prevenção e adaptação devem ser feitos, e implementá-los, mesmo que gradativamente.

Embora ajuda humanitária seja sempre necessária, o foco deve ser nas ações que representem benefícios mais duradouros.

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