Entre os resultados financeiros da pecuária, em Apuí (Amazonas), está um investimento que resultará em aumento de pastagem, levando a aumento de desmatamento e à expansão da fronteira. Estudos apontam que os lucros dos fazendeiros são desproporcionais ao desenvolvimento da região e levanta questões como aumento de especulação imobiliária
Por Pedro Gandolfo Soares, Philip Martin Fearnside e Gerd Sparovek, em Amazônia Real
O preço favorável da carne bovina é outro incentivo importante que possibilita a expansão da fronteira pecuária em Apuí (Amazonas). Os retornos financeiros da produção de carne bovina em Apuí eram baixos ou negativos em períodos anteriores, e a especulação imobiliária explicava a atratividade da pecuária [1]. Estudos em outras partes da Amazônia brasileira em períodos anteriores também constataram que a pecuária em si (independentemente de ganhos especulativos e incentivos fiscais) gerava lucros muito marginais apenas para os grandes fazendeiros [2]. Os lucros dependiam fortemente de subsídios governamentais e ganhos especulativos [3, 4]. No presente estudo, os dados coletados em 2021 demonstram que os lucros da produção pecuária e da especulação imobiliária são altos e proporcionam retornos maiores e muito mais rápidos (com menor risco) do que outras oportunidades de investimento disponíveis. A alta rentabilidade da produção de carne bovina é um novo fator observado em Apuí.
O presente estudo acrescenta uma variável ao demonstrar resultados financeiros positivos e consistentes em todos os grupos de atores com posses fundiárias (pequenos, semi-pequenos e médios e grandes) (Tabela 4). Essa elevada rentabilidade pode ser parcialmente explicada pelo cenário político brasileiro em 2021 (agenda política altamente permissiva em relação ao desmatamento durante o governo de Jair Bolsonaro), aliado ao aumento dos preços da carne bovina na região, o que proporcionou estímulos adicionais para a especulação e a expansão da fronteira da pecuária.

A receita total da pecuária, indicada pelo grupo de 46 atores com posses fundiárias que participaram do estudo, foi de US$ 1.457.044 em 2020. Esse valor, relatado por um número limitado de atores locais, é muito significativo quando comparado, por exemplo, ao total de transferências financeiras do Tesouro Nacional para a prefeitura municipal de Apuí (US$ 3,9 milhões em 2020). A renda relatada da pecuária também é muito significativa quando se considera o total do Imposto sobre a Propriedade Rural (IPR) arrecadado em Apuí nos últimos anos (US$ 1.000 em 2020), o que sugere que a receita obtida com a pecuária é separada das receitas e contas municipais (Tabela 5). Devido aos resultados financeiros positivos obtidos com a especulação imobiliária e a pecuária por todos os participantes do estudo, a receita total da pecuária é significativa. Com base nos grupos de atores com posses fundiárias avaliados neste estudo, espera-se que o investimento total na expansão de pastagens aumente em Apuí nos próximos anos, levando a um maior desmatamento e à expansão da fronteira da pecuária.

Notas
[1] Razera, A., (2005). Dinâmica do desmatamento em uma nova fronteira do Sul do Amazonas: uma análise da pecuária de corte no município do Apuí. Universidade Federal do Amazonas (UFAM) & Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Manaus, AM.
[2] Mattos, M.M., Uhl, C., (1994). Economic and ecological perspectives on ranching in the Eastern Amazon. World Development. 22, 145–158.
[3] Hecht, S.B., (1993). The logic of livestock and deforestation in Amazonia. BioScience 43(10), 687-695.
[4] Hecht, S.B., Norgaard, R.B., Possio, G., (1988). The economics of cattle ranching in eastern Amazonia. lnterciencia 13(5), 233-240.
[5] Tesouro Nacional. (2022). Secretaria do Tesouro Nacional. Transferências Constitucionais Realizadas — Tesouro Transparente.
[6] Esta série é uma tradução de: Soares, P.G., Fearnside, P.M. & Sparovek, G. 2026. Deforestation in the Brazilian Amazon: Why do local stakeholders on the frontier invest in clearing rainforest? Regional Environmental Change 26, art. 67.




