Crise do STF e eleições: entre a deslegitimação da política e a radicalização da extrema-direita. Entrevista especial com Jorge Chaloub

“A rejeição ao PT e à esquerda surge como elemento central de coesão e mobilização de grande parte da população”, afirma o cientista político

Por: Patrícia Fachin, em IHU

O recente escândalo nacional envolvendo parlamentares e ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) com o banco Master terá ao menos duas consequências políticas, segundo Jorge Chaloub. A primeira delas é o aprofundamento da deslegitimação da política. Isso porque, explica, “a ideia de que todos são corruptos joga água no moinho da ultradireita, que propõe uma ruptura radical com a atual democracia, mas não em nome de um regime mais democrático ou igualitário, já que defende uma ordem mais claramente hierárquica”. A segunda diz respeito às eleições dos próximos dias e pode prejudicar mais o presidente Lula do que Flávio Bolsonaro.

As razões apresentadas pelo cientista político ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU são três:

  1. o presidente é visto como pertencente à atual ordem democrática em crise;
  2. há uma “memória negativa de parte do eleitorado” sobre os casos de corrupção envolvendo as gestões petistas; e
  3. o discurso da corrupção é “facilmente manejado a partir da oposição, como forma de criticar o atual governo”.

Nesta entrevista, concedida ao IHU por e-mail, Chaloub comenta o processo de radicalização da extrema-direita nos municípios brasileiros desde a última eleição, a fragmentação das candidaturas e os afetos mobilizados nas campanhas eleitorais. “Os discursos, as performances e as identidades da ultradireita não se restringem aos grandes centros nacionais, mas atingiram a política local, que se mostra cada vez mais marcada por discursos abertamente ideológicos”, sublinha. A fragmentação da direita nestas eleições, de acordo com o entrevistado, indica dois movimentos. De um lado, “a crescente perda da capacidade de hegemonia do bolsonarismo” e o fortalecimento da direita no país. “Há certa sensação de que o espírito do tempo aponta para a direita, o que sempre tem certa feição de profecia autorrealizada, ou seja, crença que, por si só, produz efeitos”, diz. Este mesmo espírito do tempo, relembra o entrevistado, é “um fenômeno global. Nunca tivemos uma eleição presidencial com tamanha proporção de candidaturas ostensivamente de direita”.

Jorge Chaloub também analisa o cenário eleitoral nos estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais, onde se observa, “com particular clareza”, um processo de ascensão de novas lideranças de extrema-direita.

Jorge Chaloub é professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). É doutor em Ciência Política pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), com doutorado-sanduíche na École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS).

Confira a entrevista.
IHU – Teóricos de vários países buscam entender, para além das ideologias da extrema-direita, o descontentamento social que a impulsiona. No Brasil, quais são esses descontentamentos e como eles se refletem no debate político sobre as áreas de segurança pública, saúde e trabalho, por exemplo?

Jorge Chaloub – O Brasil é um país profundamente desigual, no qual grande parte da população enfrenta condições difíceis de moradia, transporte e violência. A República de 1988 trouxe muitos avanços, mas foi incapaz de superar graves problemas.

Não é possível vincular uma crescente popularidade de discursos de extrema-direita à simples existência dessa conjuntura. A força de discursos e lideranças do tipo também decorre da articulação consciente de grupos políticos, de padrões da nossa esfera pública e de longevas tradições das ideias políticas no país. É evidente, porém, que esse cenário, de promessas não cumpridas da nossa democracia, torna a sociedade particularmente propícia a abraçar tal tipo de discurso, sobretudo suas propostas de ruptura radical com tudo o que existe.

Vale também ressaltar que, mesmo com nossas particularidades, trata-se de um movimento global, que também se aproveita dos descontentamentos de outras ordens democráticas. O pós-1989 vendeu a ideia de uma ordem capaz de solucionar velhos embates e problemas, mas se mostrou, em vários sentidos, incapaz de convencer a maior parte dos cidadãos disso.

IHU – O senhor nos concedeu uma entrevista em 2022 sobre o comportamento da extrema-direita e da direita no país. O que mudou no modo de atuação desses grupos de lá para cá?

Jorge Chaloub – Há mudanças sensíveis. Eu listaria três particularmente importantes. A primeira é que, com a prisão de Jair Bolsonaro, há uma disputa mais aberta pela liderança do campo da ultradireita. Para além do bom desempenho eleitoral de Flávio Bolsonaro, movimentos internos ao bolsonarismo, como o de Michelle Bolsonaro, ou a proposta de coalizões alternativas – caso do recém-criado partido Missão –, indicam que há divergências cada vez mais explícitas. Sobretudo no caso de derrota eleitoral do bolsonarismo, mas mesmo em caso de vitória, os próximos anos prometem confrontos mais acirrados pelos caminhos da direita e da ultradireita no Brasil.

Também relevante é a mais aberta articulação com atores e redes internacionais da ultradireita, com destaque para os EUA. Se o bolsonarismo sempre acenou para o fortalecimento de uma internacional do tipo, o movimento se tornou ainda mais ostensivo recentemente, como bem demonstra o tipo de reação ao tarifaço. A dimensão internacional deixa de ser um elemento adicional ou secundário e assume um lugar estruturante para o projeto de país do campo [da direita].

Por fim, as mudanças importantes no uso da Inteligência Artificial (IA) influem diretamente nas performances e na apresentação estética da ultradireita, o que não é, de modo algum, uma questão secundária. A IA passa a ser central na construção de imagens, propagandas e mesmo discursos do campo, em movimento que não se restringe à ultradireita, mas é particularmente forte no campo.

IHU – Houve uma radicalização da direita nos municípios brasileiros? Por quê?

Jorge Chaloub – Sim. Pesquisas demonstram como os discursos, as performances e as identidades da ultradireita não se restringem aos grandes centros nacionais, mas atingiram a política local, que se mostra cada vez mais marcada por discursos abertamente ideológicos do tipo. Em várias câmaras municipais há projetos de lei sobre temas típicos do campo [da direita], como a proibição de linguagem neutra, que, mesmo sendo fora da competência dessas instituições, servem como forma de afirmação de identidade política.

Em parte, isso decorre do imbricamento entre a política local e a nacional. Por outro lado, passa pelo fato de que por mais que o bolsonarismo, como coalizão política, tenha concentrado sua simpatia inicial nos eleitores com mais renda e tido melhor desempenho em 2018 nas grandes cidades, ele crescentemente ampliou sua força nacional, sobretudo por sua capacidade de mobilizar alguns segmentos do eleitorado, como evangélicos, profissionais da segurança pública, entre outros.

Essa mobilização de base indica que mesmo que as coalizões nacionais da ultradireita, como a bolsonarista ou outras, deixem de ser competitivas, o campo permanecerá influente nos próximos anos.

IHU – O que a radicalização sugere sobre o perfil do eleitor brasileiro?

Jorge Chaloub – O eleitor brasileiro é diverso. Ele certamente é influenciado por questões religiosas, o que pode sugerir certa porosidade a temas do conservadorismo religioso, mas tenho sérias dúvidas sobre o mote genérico de um “eleitor conservador”.

Escrevi, com Pedro Lima, um artigo sobre o tema, analisando os pressupostos de alguns discursos sobre a existência de um eleitorado conservador no Brasil. A ideia por vezes parte de uma homogeneidade entre a vida privada e a ação pública – ou, segundo os conceitos de Karl Mannheim, entre ação individual tradicionalista e adesão à ideologia conservadora – que, no mínimo, é muito questionável. Em outros momentos, vincula-se a uma dicotomia, tipicamente marxista, entre classe e massa, na qual a massa seria mais afeita a lideranças conservadoras. Por fim, há outro discurso que se ampara na ideia vaga de uma cultura política de traços quase a-históricos. Em todos os casos, o conceito tende a simplificar a diversidade ideológica do eleitorado e da população brasileira.

Um dado relevante é que nos nossos regimes democráticos ou quase democráticos, a República de 1988 ou de 1946, a esquerda sempre foi forte eleitoralmente, acumulando vitórias frequentes e construindo partidos com forte identidade. Algumas interpretações saem pela ideia de que, na verdade, as lideranças desse partido teriam um viés conservador e estariam distantes da verdadeira esquerda ideológica. A perspectiva me parece trabalhar com uma leitura excessivamente purista do papel das ideias e identidades políticas. Além disso, parte do apoio a esses líderes passou (e passa) por políticas claramente identificadas à esquerda, como a redução da desigualdade social, o que no mínimo exige apontarmos um complexo pertencimento ideológico do eleitor brasileiro. Em tempos de crescente influência de pesquisas, sem dúvida importantes, sobre a autoidentificação ideológica do eleitorado, é também relevante olhar para a atuação na disputa política efetiva dos cidadãos ao longo da história.

IHU – O governo Lula III e o antipetismo favoreceram essa radicalização?

Jorge Chaloub – Estamos diante de duas coisas diversas. O governo Lula apostou em uma estratégia de moderação e ampliação das alianças como forma de combater a radicalização. Podemos discutir se ela é eficaz. Acho que há argumentos razoáveis para mais de uma interpretação. Dizer que ela favorece a radicalização sem dúvida me parece excessivo, já que estamos diante de um fenômeno não apenas bem anterior no tempo, mas relativamente descolado das proposições do governo.

Já o antipetismo é um dos elementos centrais deste processo de radicalização. A sequência de vitórias eleitorais do PT em eleições presidenciais, fato com poucos paralelos em outros cenários políticos, fortaleceu o antipetismo já existente e lhe deu novos contornos. Ao longo das eleições é bem evidente como seus adversários da direita tradicional e partes da imprensa vão se radicalizando gradualmente, até chegar ao ponto de mobilizar linguagens políticas historicamente vinculadas à extrema-direita, como o pânico moral em relação ao aborto ou a defesa aberta do punitivismo. As campanhas de José Serra, em 2010, e Aécio Neves, em 2014, utilizaram centralmente esses argumentos.

O antipetismo também foi central para a construção de uma coalizão de ultradireita como o bolsonarismo, que é composto por novos atores de extrema-direita, mas também por uma direita tradicional muito radicalizada. Em meio às muitas diferenças no campo da ultradireita, a rejeição ao PT e à esquerda surge como elemento central de coesão e mobilização de grande parte da população. Quando olhamos para o século XX no Brasil, as semelhanças em relação ao anticomunismo e o antitrabalhismo são enormes.

IHU – Por outro lado, como interpreta a fragmentação das candidaturas de direita no país? O que isso indica?

Jorge Chaloub – A fragmentação é, por um lado, um sinal de fortalecimento do campo, já que passa pela leitura, por atores diversos, de que os discursos de direita são um atalho mais curto para a vitória. Há certa sensação de que o espírito do tempo aponta para a direita, o que sempre tem certa feição de profecia autorrealizada, ou seja, crença que, por si só, produz efeitos. Mais uma vez é importante destacar que se trata de um fenômeno global. Nunca tivemos uma eleição presidencial com tamanha proporção de candidaturas ostensivamente de direita.

Por outro lado, a fragmentação indica a crescente perda da capacidade de hegemonia do bolsonarismo no campo. Ele ainda é hegemônico, sobretudo eleitoralmente, mas a prisão de Jair Bolsonaro e os seguidos tropeços dos seus filhos abriram margem para atores que tanto pretendem disputar a liderança da coalizão bolsonarista quanto almejam construir outra coalizão hegemônica no campo da ultradireita.

IHU – Naquela entrevista, o senhor destacou as teorias conspiratórias como um elemento central de atuação da extrema-direita. Hoje, essas teorias estão dando vazão a quais afetos sociais?

Jorge Chaloub – As teorias conspiratórias são centrais para a representação da sociedade de parte da ultradireita, em reflexão que remonta a trabalhos clássicos, como o de Richard Hofstadter, na década de 1960. Isso não significa que o eleitor do campo [da direita] seja delirante ou despido de qualquer senso de realidade, mas que certas identidades importantes são reforçadas pela ideia, basilar em teorias da conspiração, de um domínio oculto dos rumos e desígnios da sociedade.

Isso tanto reforça a ideia da ordem atual como corrupta e decadente, dominada por uma elite que alheia o povo não apenas das decisões, mas mesmo do conhecimento do que ocorre, quanto coloca a ultradireita no papel de ator privilegiado, com a capacidade de ver o que quase ninguém percebe e a coragem de denunciar problemas por todos silenciados. Ou seja, tais perspectivas constroem não apenas uma imagem virtuosa e providencial da direita, mas também uma versão degradada dos seus inimigos, organizados na esquerda ou mesmo dentre aqueles que a apoiam. As redes sociais são um caminho privilegiado para dar vazão e construir novas variantes deste tipo de discurso, por sua capacidade de circulação e articulação de informações.

Medo
O afeto inicial, presente em todos esses casos, é o medo, construído a partir de certa ideia do desconhecido. Mas logo esse medo passa a ser articulado em discursos construídos para causar indignação, ressentimento e ódio, capazes de mobilizar as massas a partir dos valores da ultradireita.

Um dos sintomas da força deste tipo de discurso é como ele hoje ultrapassa as fronteiras da extrema-direita e é diretamente mobilizado por intelectuais e jornalistas que reivindicam uma identidade centrista radical. O discurso anti-identitário é bem relevante para isso. Ele articula velhos motes da tradição anticomunista a novos motes do discurso anti-woke nos Estados Unidos para construir um inimigo, a esquerda identitária, que carrega tons imprecisos e fantasmagóricos.

IHU – O senhor leciona no Rio de Janeiro e em Minas Gerais. Quais diria que são as particularidades da extrema-direita nesses estados e o que vislumbra para as eleições estaduais?

Jorge Chaloub – O Rio tem a particularidade de ser o lugar onde Bolsonaro construiu sua trajetória política. Com isso, o cenário político do estado indica, com particular clareza, como a ascensão de muitas das novas lideranças de extrema-direita passou pela articulação com forças tradicionais da política estadual, muitas delas com relações já demonstradas com o crime organizado. O estado também expõe os vínculos do bolsonarismo com três bases sociais centrais para a construção dessa coalizão: profissionais da segurança pública, militares e lideranças evangélicas. Os candidatos ao legislativo do PL demonstram bem como as relações locais do bolsonarismo estão didaticamente vinculadas a esses grupos.

Na disputa eleitoral, temos, de um lado, Douglas Ruas, um representante dileto do bolsonarismo. Ele é filho do prefeito de São Gonçalo, Capitão Nelson, liderança que encarna quase idealmente os traços da identidade política bolsonarista. O pai foi policial militar reformado, ex-fuzileiro naval e acusado de envolvimentos com práticas violentas em seu passado militar. O filho retoma os mesmos valores e discursos com uma estética mais jovem. Do outro lado, Eduardo Paes congrega grande parte das tradições da direita fluminense pós-1989. Antigo herdeiro da “nova velha direita” de Cesar Maia, ele mantém vínculos com a antiga elite que governou o estado com o PMDB, como bem demonstram suas alianças na Baixada Fluminense, e acena com uma clara articulação com Lula.

Profundamente enfraquecida, a maior parte da esquerda acaba por apoiá-lo, seja por modestos acenos de Paes, sobretudo na política cultural, seja por seu alinhamento com Lula e rejeição à extrema-direita. Tanto pela trajetória de Paes quanto pelo envolvimento com questões criminais recentes de várias lideranças bolsonaristas, o ex-prefeito do Rio é franco favorito na eleição.

Minas Gerais, por sua vez, é um bom exemplo de destruição da direita tradicional e da sua substituição por novos atores da extrema-direita, apoiados por lideranças dos escombros da última ordem. Central para o antigo PSDB, o estado deve ser de novo governado por um personagem secundário do campo bolsonarista. Depois de dois mandatos de Romeu Zema, teremos provavelmente Cleitinho como governador. O atual favorito tem um estilo e uma plataforma distintos. No lugar de uma defesa irrestrita do mercado, como nas falas de Zema, a hábil mobilização de uma linguagem e uma estética popular, sobretudo a partir da sua trajetória de ascensão.

O candidato, neste sentido, apoia algumas pautas da esquerda, como o fim da jornada 6×1. Quando comparado a Douglas Ruas, seu discurso dá um peso muito maior à religião. O desempenho dos outros candidatos expõe o já mencionado enfraquecimento de outros grupos de direita, assim como a decadência do petismo após o trágico mandato de Fernando Pimentel.

IHU – Como os escândalos envolvendo Daniel Vorcaro, o Banco Master e Alexandre de Moraes tendem a repercutir nas eleições deste ano? Como toda essa história está sendo explorada nas campanhas eleitorais?

Jorge Chaloub – Há dois efeitos claros. Um é aprofundar um mais longo processo de deslegitimação da ordem política brasileira. A ideia de que todos são corruptos joga água no moinho da ultradireita, que propõe uma ruptura radical com a atual democracia, mas não em nome de um regime mais democrático ou igualitário, já que defende uma ordem mais claramente hierárquica. Seja na história brasileira, seja em outros cenários políticos, a colonização do debate público pelo discurso sobre a corrupção tende a favorecer atores radicais de direita, pois a solução simples e usual para problemas mais complexos é a demanda por mais ordem e punição.

Em relação aos efeitos eleitorais, a centralidade do tema prejudica mais Lula, mesmo que seja seu adversário quem está pessoalmente envolvido nos escândalos tratados. Isto passa por três fatores. Primeiramente, o atual presidente está na urna desde 1989, o que o torna profundamente relacionado à atual ordem democrática brasileira. Não é uma tarefa simples separar a biografia de Lula da República de 1988, de modo que a sensação de corrupção generalizada acaba por afetá-lo mais do que a um político de trajetória curta, como Flávio Bolsonaro.

Além disso, poucos personagens da história política brasileira foram alvos tão frequentes e longevos de ataques a partir do tema da corrupção. Há uma memória negativa de parte do eleitorado sobre isso, o que acaba por prejudicá-lo.

Por fim, a corrupção é um discurso mais facilmente manejado a partir da oposição, como forma de criticar o atual governo, mesmo quando seu líder não está pessoalmente envolvido. Como incumbente, a centralidade do assunto ocupa o espaço de outras questões, da defesa da soberania nacional aos feitos do governo, o que cria um clima bem mais propício para a alternância de poder. Como se não bastasse, temos o histórico de Flávio Bolsonaro, cuja trajetória esteve vinculada a escândalos dos mais diversos tipos. Ainda assim, não me parece o terreno mais favorável para a candidatura petista.

IHU – Há risco de interferência dos EUA nas eleições nacionais?

Jorge Chaloub – A interferência já ocorreu e ocorre. O tarifaço e as ameaças de Marco Rubio são interferências abertas, pois influem na política interna e na economia brasileira de modo abertamente ilegítimo ante as instituições multilaterais. O atual governo dos EUA, com todo o seu poder, não apenas privilegia um campo político e candidato como também vincula agressões contra o Brasil à existência da esquerda e sua eventual nova vitória eleitoral. Evidentemente não é uma novidade a intervenção norte-americana, mas sim que ela ocorra de modo tão explícito, o que expõe a dimensão do arbítrio e da força. Tal postura ocorreu em outros países e foi formalizada por documentos oficiais da política externa dos EUA, no que muitos chamam de Doutrina Donroe, como atualização, a partir dos desígnios de Donald Trump, da Doutrina Monroe.

A questão é a extensão dessa intervenção, já que com a articulação entre as big techs e a Casa Branca ela pode modular tão profundamente não apenas a política, mas também diversos aspectos da sociedade brasileira. Tratando mais diretamente da eleição, seus efeitos são incertos. Em um país profundamente dependente dos Estados Unidos, como o Canadá, foi um tiro que saiu pela culatra e levou o Partido Liberal, tido como quase derrotado pelas pesquisas, a uma vitória antes imprevista. Mesmo que tenhamos setores da sociedade que apoiam abertamente os EUA, há um nacionalismo mínimo em países da dimensão do Brasil, que torna muito custoso politicamente o alinhamento irrestrito com uma potência estrangeira. É um debate que tende a favorecer Lula e a prejudicar Bolsonaro. O problema, contudo, é se a intervenção não for explícita, mas ocorrer pelos algoritmos das redes e pela intervenção camuflada das big techs, o que pode ser determinante para uma eleição tão apertada.

IHU – Quais as dificuldades da esquerda em oferecer propostas alternativas ao discurso da extrema-direita em relação aos temas mencionados antes, como segurança pública, saúde e trabalho?

Jorge Chaloub – Vejo cada um desses temas com algumas diferenças, mas em todos creio que a questão é menos da existência de propostas do que da capacidade de mobilizar a população a partir das ideias, ou de convencer parte das elites políticas sobre sua viabilidade. Isso, sem dúvida, passa pela dificuldade da esquerda de construir uma nova visão ampla de sociedade e de futuro após a derrocada do comunismo, mas identificar esse limite não é o mesmo que dizer que temos um deserto de ideias, o que me parece impreciso.

Em relação ao trabalho, há uma dificuldade geral de articular novas propostas, o que em parte passa pela novidade de fenômenos como as plataformas e os aplicativos. A regulação e o controle eficiente de novas formas de exploração usualmente sempre vêm depois. Deve-se ressaltar, porém, que nesse campo as sugestões da direita também geram resistência em grande parte da população, que, por sua vez, abraça ideias tradicionais, como o fim da escala 6×1. Estamos, portanto, em um cenário de profundas transformações do capitalismo, que traz dificuldades para todos os envolvidos.

A saúde passa por dificuldades pelas limitações impostas ao Estado brasileiro, que é objeto de restrições de recurso das elites políticas, de amplos setores da burguesia e por uma representação profundamente negativa da mídia. Há uma campanha aberta, e bem-sucedida, pelo fim da vinculação orçamentária da saúde e da educação, o que prejudicaria diretamente o SUS, e pouquíssimo debate sobre os problemas profundos dos planos de saúde. Enfim, a questão me parece aqui profundamente política, de disputa de recursos e visão de país, e mesmo que tenhamos problemas de gestão, colocá-los no centro é ignorar o mais relevante.

Por fim, segurança pública é um tema central e historicamente favorável à direita. Mais uma vez, não acho que estejamos apenas diante da escassez de ideias. A solução da direita é antiga e muito identificada com a atual política de segurança: o confronto aberto com grande número de mortes em certos territórios e determinado perfil racial e social. Não funcionou nas últimas décadas. Hoje, vemos candidaturas como a de Renan Santos, que propõe radicalizar essa trilha, rasgando a Constituição a partir do mórbido lema de feições fascistas, “prendeu, matou”, e de ideias como o direito penal do inimigo. Trata-se de aprofundar um caminho que tem fracassado.

Há, porém, uma dificuldade da esquerda de mobilizar as instituições de segurança, combater as elites políticas vinculadas ao crime e construir um discurso capaz de convencer a população. Isso pode derivar parcialmente de limitações de repertório – não sou um especialista capaz de avaliar o tema –, mas, sem dúvida, passa pela atual correlação de forças, social e econômica.

IHU – Quais os desafios do Brasil na elaboração de um projeto de desenvolvimento nacional que favoreça o bem comum e o avanço do Estado de bem-estar social?

Jorge Chaloub – A democracia está em crise em todo o mundo. Seria surpreendente se ela não estivesse em um país historicamente acostumado a regimes autoritários e com grande parte das elites pouco comprometidas com ideias democráticas. Tal constatação não afasta, contudo, o problema. Há uma sensação generalizada de que as democracias são incapazes de cumprir suas mais simples promessas.

Algumas das interpretações mais influentes, na universidade e no debate público, defendem a retomada de instituições e práticas perdidas no pós-1989, muitas vezes tomadas como ideal perdido. É não apenas uma leitura problemática, que ignora o papel de protagonistas da antiga ordem na crise democrática, como dificilmente aponta caminhos efetivos para o atual cenário. Há uma afinidade entre este tipo de interpretação e perspectivas que veem a ascensão da ultradireita como algo próximo do delírio de parte da população, a partir de conceitos como “dissonância cognitiva”.

Em chave distinta, creio que o futuro da democracia passa necessariamente por reconhecer os limites da ordem pregressa, já em franco processo de dissolução, e propor saídas que não ignorem completamente os acúmulos, mas apontem para novos caminhos. Dificilmente um pesquisador é capaz de prever esses caminhos, mas eles certamente passam pela construção de novas formas de legitimação popular das instituições, capazes de convencer outra vez a maior parte das pessoas sobre as virtudes da democracia.

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