‘Voto Antirracista’ convoca mutirão nacional para ampliar presença negra nos espaços de poder

Promovida pela UNEafro Brasil, em parceria com a Alma Preta e a Notícia Preta, campanha mobiliza as redes e as ruas em apoio a candidaturas negras e progressistas

Alma Preta

A campanha Voto Antirracista retorna às redes sociais e às ruas com uma convocação nacional para que cada pessoa comprometida com a democracia mobilize família, amigos, vizinhos e sua comunidade, ajudando a organizar seu território e indo além do próprio voto.

Em sua quarta edição, a ação é promovida pela UNEafro Brasil, em parceria com a agência Alma Preta e a rede Notícia Preta. A iniciativa apoia o Quilombo nos Parlamentos, projeto da Coalizão Negra por Direitos que articula e fortalece candidaturas negras vinculadas às lutas, organizações e territórios do movimento negro brasileiro.

Com o lema “O voto antirracista organiza poder. Organize seu território”, a campanha pretende transformar o apoio individual em força coletiva. A proposta é organizar um grande mutirão democrático, dentro e fora das redes, capaz de multiplicar votos, enfrentar a desinformação e ampliar a presença popular no debate eleitoral.

A mobilização reúne organizações sociais, movimentos populares, artistas, influenciadores, intelectuais, comunicadores, lideranças comunitárias, candidaturas e mandatos negros e progressistas. A expectativa é envolver dezenas e, ao longo da campanha, centenas de vozes públicas em uma ampla rede nacional de mobilização.

A campanha parte do diagnóstico de que a derrota eleitoral do bolsonarismo não encerrou o ciclo de ameaças à democracia. A extrema-direita permanece organizada nos partidos, nas redes sociais, nas instituições e nos territórios. Conserva força para disputar governos estaduais, o Senado, a Câmara dos Deputados e as assembleias legislativas, além de manter influência sobre decisões que afetam direitos, orçamento público, educação, saúde, segurança, trabalho, meio ambiente e políticas de igualdade racial.

Voto Antirracista defende que as eleições de 2026 sejam enfrentadas como uma tarefa coletiva da sociedade civil: garantir a continuidade de um governo democrático, eleger governadores e senadores progressistas, derrotar nas urnas o racismo, o autoritarismo e os projetos ultraconservadores e fundamentalistas — e ampliar, de maneira decisiva, a presença de lideranças negras comprometidas com a transformação do país nos parlamentos.

“Um voto é importante, mas um voto sozinho não enfrenta uma extrema-direita organizada. Precisamos transformar cada eleitor em uma força de mobilização. Quem acredita na democracia deve conversar com sua família, organizar seus amigos, reunir sua comunidade e disputar cada voto. Para eleger um Quilombo nos Parlamentos, precisamos construir um grande movimento nacional pelo voto antirracista”, afirma Douglas Belchior, cofundador da UNEafro Brasil e integrante da Coalizão Negra por Direitos.

Da consciência à organização

O principal instrumento da campanha é a formação de Comitês de Voto Antirracista em casas, bairros, periferias, favelas, escolas, universidades, locais de trabalho, coletivos, associações e comunidades.

Não é necessário pertencer a um partido político nem possuir experiência anterior de militância. Um comitê pode começar com poucas pessoas: familiares, amigos, colegas ou vizinhos dispostos a conversar sobre o futuro do país e a organizar ações de mobilização.

As atividades podem incluir encontros presenciais e virtuais, grupos de WhatsApp, rodas de conversa, ações culturais, distribuição de materiais, visitas de porta em porta e divulgação das candidaturas apoiadas.

A UNEafro Brasil oferece orientação, materiais de comunicação e um passo a passo para que os comitês possam atuar com autonomia nos territórios. A campanha parte de um princípio elementar do trabalho de base: política não se faz apenas nos grandes atos ou durante o horário eleitoral. Ela se constrói na conversa cotidiana, onde vivem as pessoas e onde as decisões sobre o voto realmente amadurecem.

O eleitor é convidado, assim, a deixar a posição de espectador da eleição para assumir uma tarefa concreta. Mais do que receber propaganda, deve produzir diálogo. Mais do que manifestar apoio, deve organizar outros apoios. Mais do que denunciar o avanço da extrema direita, deve construir a força social necessária para derrotá-la.

Um Quilombo nos Parlamentos

O Quilombo nos Parlamentos é uma iniciativa suprapartidária promovida pela Coalizão Negra por Direitos para apoiar candidaturas negras comprometidas com o movimento negro, os direitos humanos, a justiça racial e social, a defesa dos territórios e o enfrentamento às desigualdades.

A iniciativa nasce de uma contradição histórica: embora a população negra constitua a maioria do povo brasileiro e tenha sido decisiva na construção econômica, cultural, social e política do país, ela continua sub-representada nos espaços em que são aprovadas as leis, distribuídos os recursos públicos e definidas as prioridades nacionais.

A proposta não se resume, portanto, à presença de pessoas negras nas eleições. O compromisso é eleger lideranças com trajetória pública reconhecida, relação concreta com os movimentos sociais e disposição para representar as reivindicações da população negra, das mulheres, da juventude, das periferias, dos quilombos, dos terreiros e das comunidades historicamente afastadas do poder.

O Quilombo nos Parlamentos organiza e fortalece essas candidaturas. A Voto Antirracista mobiliza a sociedade para que elas sejam conhecidas, defendidas e votadas. Uma iniciativa apresenta ao país as lideranças construídas pelo movimento negro; a outra transforma esse reconhecimento em participação popular e força eleitoral.

Democracia exige poder negro

Voto Antirracista sustenta que não existe democracia plena enquanto a maioria negra continuar sendo tratada como minoria política. A representação nos espaços de poder não é apenas uma questão de imagem: determina quais problemas serão reconhecidos, quais vidas serão protegidas, quais políticas receberão orçamento e quem participará das decisões sobre o presente e o futuro do Brasil.

A campanha recupera, nesse sentido, uma formulação histórica da Coalizão Negra por Direitos: “Enquanto houver racismo, não haverá democracia.”

Enviada para Combate Racismo Ambiental por Manoela Ferreira.

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