As eleições em 2026 e o desafio do voto consciente

Funcionando como um “espelho social”, as eleições refletem as divisões políticas, as demandas econômicas e as transformações culturais da sociedade, traduzindo as tensões invisíveis do cotidiano em dados concretos e escolhas explícitas 

por Márcia Maria de Oliveira*, em CPT 

No final do século XIX, o bispo italiano São João Batista Scalabrini (1839–1905), fundador dos Missionários de São Carlos (Scalabrinianos) e das Irmãs Missionárias Scalabrinianas, conhecido como o “Apóstolo dos Migrantes”, insistia na importância da participação política nos desígnios da sociedade do seu tempo. “O mundo caminha e nós não podemos ficar para trás”, afirmava. E em diversas ocasiões, alertava para a importância da participação nas decisões, observando-se o evangelho de Marcos (9:38-50): “Quem não é contra nós, está a nosso favor”. 

Quase contemporâneo de Scalabrini, Bertolt Brecht (1898–1956) afirmava que todos os desígnios da sociedade passam pelas decisões políticas. Daí a importância de participarmos porque senão, “decidirão outros sem nós e muito possivelmente contra nós”, dizia o dramaturgo alemão.

Muitos anos se passaram e cada vez mais se evidencia que a participação política é essencial na democracia. Ela garante que a voz da sociedade seja ouvida nas decisões do Estado, fortalece a fiscalização dos governantes e promove a justiça social e os direitos de todos os cidadãos. Nessa perspectiva, continua atual e oportuna a súmula, quase teológica, de Dom Tomás Balduíno (1922–2014): “Direitos não se pede de joelhos, exige-se de pé!”. Por isso é importante estar de pé nas ruas,  nas praças, nas rodas de conversas e em todos os lugares, no campo e nas cidades, participando de forma ativa e efetiva de todo o processo eleitoral.   

Mais do que em outras eleições, o voto consciente se faz necessário em 2026 por se tratar de um pleito estratégico e decisivo para a afirmação da democracia em nosso País. Em 4 de outubro, no 1º turno, os eleitores e eleitoras brasileiros/as definirão o comando do Poder com a composição do Congresso Nacional e a renovação de dois terços do Senado Federal, o que reorientará os rumos institucionais do Brasil. A presidência da República e os governos estaduais poderão ser decididos no segundo turno, caso nenhum candidato obtiver a maioria absoluta dos votos válidos no primeiro turno, ou seja, 50% dos votos válidos mais um.

Desde o dia 20 de julho, quando se iniciaram as convenções partidárias e o início da formação das alianças, o clima de campanha vem tomando conta dos espaços públicos e das mídias sociais. Resguardadas as proporções, a Resolução TSE nº 23.610/2019 assegura a livre manifestação do pensamento durante a campanha e estabelece o uso de federações partidárias em substituição a outras formas de aliança para determinados tipos de disputa. Essa nova modalidade exige muita atenção por parte do eleitorado. 

A reformulação do Senado

A disputa por dois terços das cadeiras do Senado tem peso estratégico sobre a correlação de forças políticas, controle de pautas de grande repercussão e a relação com o poder judiciário. Neste ano, a eleição para o Senado é considerada como a mais crucial e decisiva dos últimos tempos porque definirá o controle das regras do jogo institucional e o equilíbrio de poder da República pelos próximos oito anos.

Diferente de 2022, em 2026 cada estado elegerá dois senadores/as, renovando 54 das 81 cadeiras da Casa. Com mandato de longo prazo, os/as senadores/as eleitos ficarão no cargo até 2034, exercendo grande peso no mandato do executivo nacional. Dentre suas atribuições, o Senado tem a competência exclusiva para processar e julgar ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) por crimes de responsabilidade; cabe aos senadores/as sabatinar e chancelar indicados para o STF, para a Procuradoria-Geral da República (PGR) e para o Banco Central. Além disso, o Senado funciona como uma câmara revisora, podendo travar definitivamente qualquer pauta econômica ou social do Executivo.

A eleição para o Senado Federal é considerada estratégica para a democracia brasileira porque determinará o equilíbrio de forças entre os três Poderes da República. Por isso, o Senado se tornou o ponto central na conjuntura política tanto de partidos aliados ao governo quanto de oposição. 

Com o crescimento contínuo do controle do Congresso sobre as emendas parlamentares, o Senado hoje dita os rumos de parcelas bilionárias do orçamento federal, diminuindo o poder centralizador do Presidente da República. Além disso, a atual composição do Senado Federal tem aprovado pautas de forte impacto restritivo sobre as demarcações e os direitos territoriais originários, impulsionada por uma maioria alinhada a setores ruralistas e ao agronegócio. Uma das maiores derrotas da luta indígena no Senado foi a aprovação, em dezembro de 2025, da PEC 48/2023, que insere na Constituição a tese do marco temporal. A regra limita a demarcação de terras indígenas àquelas sob posse dos povos originários em 5 de outubro de 1988. Também a questão agrária, especialmente no que se refere à reforma agrária, sofreu importantes retrocessos na pauta do Senado atual.

Nas últimas décadas, o Senado Federal tem atuado para a redução de direitos e proteções sociais ou jurídicas. No campo cultural, tem apresentado um roteiro de mudança de valores éticos e insistido na tentativa de alterar o senso comum e a moral coletiva direcionada para os valores antidemocráticos. Para isso, tem se posicionado na disputa de narrativas voltadas para o controle do debate público para enfraquecer as instituições políticas e a incidência dos movimentos sociais.

E a situação pode piorar ainda mais se os setores populares não conseguirem eleger mais representantes para compor as cadeiras do Senado. O mais preocupante é que a atual conjuntura aponta para uma composição orientada pela extrema direita, com forte tendência em nível nacional e mundial. 

O avanço da extrema direita

O avanço de projetos ultraconservadores e populismos de matiz autoritário tenciona continuamente as regras do jogo democrático. O que está em jogo é a própria imaginação política para assegurar direitos fundamentais, justiça social e igualdade em meio às crises de representação. A disputa pelos espaços legislativos é um eixo estratégico usado por grupos de oposição à democracia. O objetivo é enfraquecer garantias, mudar regras e reorganizar o Estado, operando também no campo cultural para alterar valores e percepções coletivas, o que torna urgente o reconhecimento dessa dinâmica política.

Algumas federações recém formadas nas convenções partidárias da direita já assinalam o uso de mandatos para paralisar ou direcionar pautas, além de impulsionar mudanças nas leis, para favorecer interesses específicos de grupos econômicos e ultraconservadores que jogam contra o povo. 

O avanço da extrema direita representa riscos significativos de erosão e enfraquecimento das instituições democráticas em várias partes do mundo. Entre as principais ameaças estão os ataques sistemáticos ao poder judiciário, a disseminação de desinformação e a restrição de direitos civis e liberdades fundamentais.

Também representa riscos para a questão agrária, principalmente pela paralisação de desapropriações de terras para a Reforma Agrária, o enfraquecimento de órgãos de fiscalização, a criminalização de movimentos sociais e a priorização de pautas voltadas à expansão do agronegócio exportador e à regularização fundiária de grandes propriedades com fortalecimento do latifúndio.

No mundo inteiro, a extrema direita tem contribuído para a crise climática ao fomentar o negacionismo climático, enfraquecer acordos internacionais, flexibilizar leis de proteção ambiental e desacelerar a transição energética em favor de combustíveis fósseis. O movimento ultraconservador  tem favorecido o crescimento da rejeição a evidências científicas sobre o aquecimento global, atuando com a disseminação de narrativas que questionam a origem humana das mudanças no clima. Com isso, promovem ataques a ativistas, cientistas e instituições de proteção ambiental, como o Movimento Laudato Si’, inspirado na carta Encíclica do Papa Francisco. 

Uma das ferramentas mais utilizadas pela extrema direita têm sido as redes sociais que atuam na formação da opinião pública ao priorizar conteúdos que geram engajamento. Essa dinâmica acelera a circulação de desinformação, polariza debates políticos e molda a percepção social por meio de bolhas informacionais e direcionamento de narrativas coletivas. 

A mudança depende do voto consciente

As próximas eleições expressam a disputa profunda entre diferentes projetos de sociedade que buscam ampliar, restringir ou redefinir o alcance da democracia. O ato de votar vai muito além da escolha de nomes ou partidos para cargos públicos. O processo eleitoral serve como um espelho das visões políticas, éticas, morais, sociais, culturais e econômicas que disputam a hegemonia de um país.

O voto consciente funciona como uma decisão direta sobre qual rumo o país deve tomar. Nas urnas, o cidadão se depara com diferentes propostas que impactam diretamente a sua realidade diária. Nestas eleições nos deparamos com projetos que buscam estender direitos, aumentar a participação popular nas decisões e incluir minorias históricas nos debates políticos, especialmente mulheres, negros e indígenas, grupos historicamente sub-representados no Brasil. Ao mesmo tempo, também nos deparamos com propostas que priorizam a centralização do poder, a redução do papel da sociedade civil ou a limitação de certos direitos em nome da segurança ou da estabilidade econômica. 

Desta forma, cada voto ajuda a definir quais prioridades governamentais serão validadas pela população. O resultado das urnas dita o rumo das políticas públicas, da economia, da educação e das liberdades individuais pelos anos seguintes. Por isso, cada voto é tão importante e decisivo, cada voto é um grito que se soma a outros gritos de todos os excluídos e excluídas que continuam gritando com Dorothy Stang: “Não vou fugir e nem abandonar a luta”.  Que nosso voto seja em defesa da vida e da Casa Comum.

*Assessora da Rede Eclesial Pan-Amazônica – Repam/CNBB

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