Eleições 2026: Nem todo conflito coloca frente a frente projetos equivalentes

“No fundo, a disputa é também sobre isso: quem governará o medo, quem administrará a esperança e para quem existirá o Estado”, relatam em artigo Roberto Liebgott e Ivan Cesar Cima, do Cimi Regional Sul

Por Roberto Liebgott e Ivan Cesar Cima, do Cimi Regional Sul

A política partidária nunca foi linear. É feita de caminhos cruzados, interesses diversos, contradições, alianças e rupturas. Nada há de estranho nisso. A política nasce justamente do conflito de projetos, da disputa por ideias e pelos rumos da sociedade. O que se torna grave é quando, no interior dessa disputa, a dignidade humana deixa de ser limite e o crime passa a ser método.

No Brasil, a polarização parece ter chegado a um lugar sombrio. De um lado, projetos que colocam o Estado a serviço dos interesses do capital, ainda que sob diferentes formas e graus de moderação. De outro, a sombra crescente das milícias e do crime organizado, que pretendem transformar territórios, poderes e instituições em instrumentos de seus negócios e de sua lucratividade.

Não são, portanto, disputas iguais. Não se trata simplesmente de duas ideologias em confronto, de dois projetos políticos que disputam, em condições semelhantes, o coração da sociedade. Há uma diferença que não pode ser apagada pelo discurso fácil da polarização.

De um lado, está a disputa pelo Estado e por seus rumos, ainda que marcada pelas contradições e pelos limites de uma sociedade submetida à lógica do capital. De outro, está a ameaça de que o próprio Estado seja capturado por interesses criminosos, pela violência organizada e pelo poder econômico que dela nasce.

Por isso, talvez seja preciso olhar para além da fumaça da polarização

A democracia pode ser contraditória, pode ser injusta, pode carregar dentro de si as marcas profundas das desigualdades. Mas sua razão de existir continua sendo a liberdade, a dignidade humana e a construção do bem comum.

O crime, ao contrário, não disputa para construir direitos. Disputa para controlar, submeter, lucrar.

Por isso, talvez seja preciso olhar para além da fumaça da polarização. Nem toda disputa é entre iguais. Nem todo conflito coloca frente a frente projetos equivalentes. Há momentos em que a escolha deixa de ser apenas entre partidos, programas ou ideologias.

É quando se decide se o Estado continuará sendo espaço público – imperfeito, contraditório, disputado – ou se será transformado em território de negócios privados, de violência e de poder criminoso. No fundo, a disputa é também sobre isso: quem governará o medo, quem administrará a esperança e para quem existirá o Estado.

Porque quando o crime veste a roupa da política, já não estamos diante apenas de uma disputa pelo poder. Estamos diante da disputa pela continuidade das condições da democracia através de Lula, ou pelo sequestro dela, através de Flávio.

27 de setembro de 2026

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