À procura de Marçal: documentário reconstrói trajetória de líder indígena

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Marçal foi batizado com nome de Marçal Tupã-i, a manifestação criada pelo Deus tupi-guarani Nhanderuvuçú (alma velha, na língua tupi), que é sentida pelas forças da natureza, como o trovão. E assim é Marçal, até hoje, mais de 30 anos após ser assassinado ao lutar pelo direito de seu povo: presença forte e imaterial nas comunidades indígenas de Mato Grosso do Sul.

É essa manifestação, ainda presente, que motivou duas acadêmicas do curso de jornalismo, Caroline Cardoso e Natália Moraes, 21, a realizarem o documentário “À Procura de Marçal”, que será defendido como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Caroline* conversou com o Top Mídia News e relatou o que o documentário “encontrou”, ao buscar Marçal Tupã-i.

TopMídiaNews: Como Surgiu a ideia de fazer um documentário sobre o líder indígena?

Caroline: Desde o começo da faculdade a gente já se interessava pela questão indígena, então sempre fomos a debates, sempre indo a atividades que os movimentos sociais organizavam. O próprio movimento estudantil também contribuiu muito. Quando fomos fazer o TCC, já sabíamos que queríamos fazer alguma coisa voltada à questão social. E aí percebemos que o Marçal está presente nos movimentos e na cidade, desde pichações nas paredes etc. Então a gente resolveu ir buscar isso: por que ele ainda está presente? Por que ele foi esse símbolo tão forte que permanece até hoje?

TopMídiaNews: Quais foram as principais dificuldades desse processo?

Caroline: Realmente foi a dificuldade financeira, porque não tivemos investimento público nenhum ou outros tipos de investimento. Tivemos o dinheiro que conseguimos arrecadar fazendo bazar, ajuda de familiares e amigos. Outra dificuldade é o fato de ser um tema histórico, então tivemos que ir atrás, nos centros de documentação. Quando a gente trata de temas históricos temos que ir atrás mesmo, buscar documentos, fotografias. Dificuldade de locomoção também, porque tivemos que ir para Dourados, que é onde ele passou boa parte da vida dele, a família dele ainda está lá.

TopMídiaNews: Como a narrativa do documentário está estruturada?

Caroline: O roteiro foi dividido em blocos, e a partir desse roteiro a gente sabia que queria falar do nascimento, da religião – porque quase ninguém sabe que ele foi missionário da Missão Caiuá -, depois o “reencontro” com a cultura, e outros temas como morte, liderança, e o último tema trata do presente, que a gente fala dos movimentos, que ele ainda é muito presente, mostrar que ele vive ainda, e tentamos passar um pouco de como está o povo dele hoje.

TopMídiaNews: O que vocês aprenderam de mais significativo sobre os povos indígenas do estado?

Caroline: Nosso tema é o Marçal mas não tem como sair da questão indígena. E foi uma parte da nossa pesquisa, pesquisamos a vida dele, a questão indígena e temáticas a respeito do documentário. A gente percebeu que essa questão da terra é muito importante pra eles, inclusive, é uma fala que tem no nosso documentário, que eles ainda são tratados como empecilho para o “progresso”. Então aprendemos muito sobre a importância da terra pra eles e como isso não é respeitado.

TopMídiaNews: Desde que o Marçal foi assassinado, em 1983, diversas lideranças continuam sendo perseguidas, violentadas e assassinadas. O que mudou para a população indígena desde a morte dele?

Caroline: A gente percebeu que algumas coisas pelas quais o Marçal lutava mudaram, mas poucas coisas. Por exemplo, coisas mais pontuais, ele lutava pela terra do Pirakuá, região de Bela Vista, essa terra foi demarcada, ele morreu por isso. Mas acho que a própria morte das outras lideranças, – a liderança é uma coisa muito importante, ao matar uma liderança, de certa forma você atinge todo o entorno dela, o que ela representa.

A própria morte de lideranças é um reflexo, porque as terras não estão sendo demarcadas e o Marçal lutava pelo povo dele, para que tivesse a terra e não só a terra, mas outras questões, como a questão da violência dentro das aldeias, e que ainda continua. E os outros que virão, que vão lutar pela mesma coisa, acho que vai acontecer a mesma coisa ou vai enfrentar coisas parecidas.

TopMídiaNews: O que resultou da “Procura” pelo Marçal?

Caroline: É difícil essa pergunta hein (…). No documentário, a gente “bate” muito na questão de humanizar o Marçal. Porque o que a gente encontrou é outro lado de um líder, não só o líder que falou com o Papa, que falou na ONU, que movimentou autoridades internacionais, mas sim o “pai” Marçal, como ele era dentro da aldeia, nas nossas entrevistas foi unânime que ele era um bom líder para a aldeia, que via as coisas erradas e não aceitava.

A exibição e a defesa do documentário acontecem às 19h, na terça-feira (29), no anfiteatro do Centro de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e é aberta ao público.

*Natália estava fora da cidade durante a entrevista, motivo pelo qual não participou.

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