Vaidade e frustração: a ascensão da imagem como resposta subjetiva do capital

Por Núbia Vieira para Combate Racismo Ambiental

A vaidade nos tem sido vendida enquanto produto a todo o tempo. Nos vendem vaidade em cada coisa que nos faz sentir mais potentes: no carro, no perfume, na inumerável variedade de cosméticos que servem para contrapor os des-caminhos da natureza sob a luz do tempo. Nos vendem vaidade no livro do Foucault que custa tão caro, mas ali estão 500 gramas de vaidade, é só consumir! Comemos vaidade e postamos a foto nas redes sociais, a vaidade não precisa ter lá o sabor que aparece na foto, mas a foto, esta sim, ela vale a vaidade.

E o que diabos é esta vaidade? O mundo da mercadoria, da embalagem, da sensação preenchida no consumo nos incita a todo o tempo a sermos potentes, a sermos muito bons em alguma coisa, no entanto na maioria das vezes não é assim que nos enxergamos. O mais forte então para alimentar isso que há em nós, não está em nós, é algo externo. Porque a vaidade é coisa que só existe na “relação”, em si mesmo ninguém é vaidoso, é preciso o outro, o estar em relação. E aí dessa busca de si, que não está em si, estendemos nossas frustrações, as disfarçamos de poder e a debruçamos sobre outros, daí surge a vaidade. É quando não somos aquilo, em si, mas vamos exercitando à medida que respondemos àquilo que lamentamos não ser, ou por via nem se sabe claro deste lamento.

O capitalismo sabe bem como funcionam as nossas subjetividades, e sabe bem utilizá-las a seu próprio favor. Ainda que a vaidade, por certo, não é só questão de economia ou ideologia, ela existe para além, quando nos vimos em relação. Ela diz, sobretudo, de alguém frustrado, nos frustramos o tempo todo, mas para isso haverá sempre um produto, uma pessoa, aí feita produto, para ser cosmético à nossa frustração. Embelezamos a fachada, ainda que o interior da loja esteja um lixo, capricha-se na tinta, em seguida postamos a foto nas redes. Temos aí, portanto, um jogo entre frustração e poder – a vaidade surge no desejo de ser poderoso sob a dureza da realidade.

O tempo, é da imagem, projetamos imagens, vemos, rimos delas, invejamos, sentimos pena, a imagem está o tempo todo nos incitando a qualquer coisa. O facebook, o instagram, o watzapp, a imagem está lá! A imagem é tornada mais importante do que o real, do que o inusitado que pode ser o real. Não importa, o que importa é o congelamento na imagem, e o batom de vaidade que pinta os lábios e alivia a ansiedade de “não ser”.

Há um bombardeio de frustrações no bombardeio da imagem, porque estão todos desesperados em comprovar o exuberante que é a sua existência. São fleches de imagens, de existências atomizadas, de sorrisos efêmeros e, vale lembrar, a imagem não é orgânica: não tem catarro, não solta pum, não tem fome, nem sono. A imagem ela é a ilusão que todos precisávamos. Ficamos ali, horas rolando o mouse e vendo passar imagens que nos parecem incólumes, mas não o são.

Cada imagem – do não orgânico que por ora, nos empolgamos ser – alfineta a imagem que fazemos de nós mesmos. São alfinetadas que doem na alma, porque no fundo, a imagem ela nos ensina a ser solitários, e ela nos ensina que vale mais a boa imagem, exposta, trabalhada no filtro, do que o mau cheiro do real. A imagem ela nos estapeia e nos exige ser poderosos, sofremos por não ser, mas a imagem ela pode nos ajudar nisso.

A vaidade encontra assim a imagem, descobrem-se perfeitas uma para a outra, e nos estrangulam, estrangulam o nosso mau cheiro, a nossa paixão, o nosso ódio, estrangulam e enquadram na foto. Lá está, ela, a imagem, borrada daquilo que não é, nunca fora. Se há algo que o capitalismo moderno se apropriou foi da imagem, a publicidade sabe bem vender produtos, idéias, preconceitos; tudo ali, num mesmo outdoor. E aí chegamos ao nosso corpo, um corpo outdoor. Na ânsia de negar o orgânico compramos os produtos para isso e para aquilo, vamos compondo a nossa imagem, à semelhança do que é perfeito para o capital, e que nunca chegaremos, o que é ótimo, porque assim jamais pararemos de consumir. A imagem que o espelho reflete de nosso corpo, ela não é a imagem real, ela é a interpretação. Esta interpretação construída por tudo isso, pelo bombardeio de imagens/frustrações, pelo batom da vaidade. Olhamos o corpo, lá está ele, nos incomoda isso, aquilo, porque no outro corpo endeusado é de outro jeito.

O corpo e o espelho mediado pela interpretação da imagem. Classificamos assim: gordo, magro, feio, avistamos estrias, cicatrizes, espinhas, varizes, tudo lá, sendo mediado pela ideia imagética do corpo perfeito que nunca teremos. Mas para toda frustração há um produto feito em Paris, mas para toda frustração haverá um remédio buscado da maneira mais egoísta. Há um ego aqui que precisa ser resolvido, este ego tem legitimidade na sociedade individualista e, este ego é economicamente ativo? Se sim, há um mar de caras possibilidades. Quando não, não são só os produtos das marcas poderosas que podem resolver o problema deste ego, somos capazes de tornar os outros, pessoas em produtos, a fim de resolver nossas doenças de ego. No mundo em que pessoas e imagens se confundem, na ausência do orgânico, na licença poética do inodoro, tudo vai tornando-se produto, como numa prateleira.

A ditadura da imagem, o desespero da vaidade, a nossa carga diária de frustrações, tudo isso nos torna cada dia mais distantes daquilo que aqui estamos chamando orgânico, ou do real, ou do que é olfativo, do que é vivo, do que pulsa, do que excrementa. Não há como pensar em dias melhores sem pensar no presente, na prática cotidiana, nas doenças subjetivas que nos assolam, e que tornam-se doenças, enquanto poderiam ser potencialidades de viver – e viver é coisa viva. A artificialidade da imagem, das relações, ao mesmo tempo contribui para evidenciar, a partir do contraste, uma antiga relação com a experiência de viver. Não por acaso há pensadores que acreditam na obviedade da contiguidade, na possibilidade do encontro enquanto gerador do novo, e esse “estar” num mesmo espaço – e não num mesmo tempo – é onde se dá o encontro dos diferente, de onde surge o amor e o ódio, de onde surge a refutação, a reinvenção de idéias, de onde sentimos o cheiro e o toque dos corpos. Porque sem cheiro, sem gosto, sem paixão, sem ódio, sem o atrito do real, o “novo” é plástico, não serve a toda fisiologia verdadeira que é viver.

Um comentário

  1. Pois é, vejo isso nas crianças que recebem uma enxurrada de presentes em busca de atenção ou que sejam lembrados pelo que ganhou, não pelo que conviveu, dos parentes e amigos. Começa no berço a vender essa vaidade do produto, a quantidade do amor equivale o tamanho do presente. Vejo assustado isso ao meu redor, tenho uma sobrinha linda e tento não dar nada pra ela que não seja de relação ou que façamos juntos, estimular menos o consumo e mais o convívio, a troca e a vaidade saudável, do que temos dentro, o tal do caráter, isso sim é a grande vaidade, sentir-se belo pelo que é e não pelo que tem! A diferença entre o ser e o ter!

    Obrigado pela reflexão, temos que o tempo todo estar nos policiando para não sermos sugados por essa indústria do ter.

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