A história de Rebeca Mendes, a brasileira que desafiou o STF e abortou na Colômbia

“Não quero viver em um país onde as mulheres são tratadas como uma máquina de procriação”, diz Rebeca.

Por Dri Delorenzo, na Fórum

Ela mostrou seu rosto e sua história para o Brasil. Seu nome é Rebeca Mendes, 30 anos, trabalhadora, estudante de Direito, bolsista do ProUni, mãe de dois filhos, que ficou conhecida após ser a primeira mulher a buscar no Supremo Tribunal Federal o direito de realizar um aborto legal e seguro. Hoje, Rebeca está ao lado do casal Bruno Gagliasso e Giovanna Ewbank e de Pabllo Vittar concorrendo ao Prêmio Faz Diferença do jornal O Globo, na categoria Sociedade / Diversidade. Está também na lista das Mulheres Inspiradoras de 2017, elaborada pelo site Think Olga.
“Decidi que essa luta sempre será minha. Sempre vou lutar, fazer o que eu puder para mudar essa situação que muitas mulheres enfrentam no Brasil”, disse Rebeca em entrevista à Fórum. Segundo ela, depois de tudo o que aconteceu, sua rotina segue normalmente, trabalhando, estudando, cuidando dos filhos. “Mas a minha vontade de que as coisas mudem, essa sim, mudou drasticamente.”

Rebeca descobriu que estava grávida no dia 14 de novembro, quando sua menstruação estava com 10 dias de atraso. “Senti um grande abismo se abrindo e me sugando cada vez mais para baixo”, escreveu ela em carta enviada para a ministra do STF Rosa Weber, onde pedia a autorização para realizar o procedimento. O pedido foi negado sem análise do mérito pela ministra.

“Se já é difícil para uma mulher com filhos pequenos trabalhar em nosso país, é impossível uma mulher grávida conseguir um trabalho para qualquer atividade que seja”, explicou ela, cujo contrato de trabalho temporário no IBGE vai até fevereiro de 2018. “Seremos três pessoas passando necessidades, não conseguindo pagar meu aluguel, sem ter dinheiro para comprar comida e com toda essa dificuldade ainda terei um bebê a caminho.”

Como lembrou Rebeca, ela poderia ter ido à Praça da Sé, no centro de São Paulo, e comprado um remédio abortivo, como muitas mulheres acabam fazendo. O medo de colocar sua vida em risco foi o que a levou a recorrer à justiça. A ação foi elaborada pelo PSOL e pelo Anis – Instituto de Bioética.

“Medo de colocar minha vida em risco fazendo o procedimento dentro de casa, sem poder contar com hospital, ou se contasse com o hospital, medo de sair dali presa. E a falta de grana, não ter dinheiro para ir numa clínica. No Brasil, existem clínicas que fazem, mas teria que arcar com um valor que eu não tenho”, contou à Fórum.

Felizmente a escolha de Rebeca prevaleceu. Grávida de sete semanas, ela viajou à Colômbia a convite de organizações que trabalham pelos direitos das mulheres para participar de debates sobre seu caso judicial no Brasil. Lá decidiu realizar o procedimento de forma segura. Desde 2006, o aborto é autorizado no país em três circunstâncias: quando a gravidez coloca em perigo a saúde física ou mental da mulher, quando a gravidez é resultado de estupro ou incesto e em caso de malformações do feto incompatíveis com a vida fora do útero.

No país vizinho, foi considerado o risco à sua saúde mental. O aborto foi realizado em uma clínica da organização privada e sem fins lucrativos Profamilia, que oferece diversos serviços de planejamento familiar e cuidado à saúde sexual e reprodutiva na Colômbia.

“Depois que fiz o procedimento uma coisa ficou muito clara: tive sorte. Eu, uma mulher pobre, tive sorte”, destacou. “Não quero viver em um país onde as mulheres são tratadas como uma máquina de procriação. Somos muito mais do que aparelhos reprodutores. Somos pessoas, cidadãs, que pensamos, que vivemos, temos filhos, trabalhamos, contribuímos com impostos.”

O risco de retrocesso no Brasil em relação ao aborto, principalmente com a PEC 181/2011, que determina que “a vida começa desde a concepção”, para Rebeca, é terrível. “São pessoas ali no Congresso que estão definindo o futuro de mulheres, principalmente as pobres, porque as mulheres ricas fazem em clínicas caríssimas aqui no Brasil.”

Segundo levantamento do Instituto Patrícia Galvão, apesar de o aborto ser proibido no país, pelo menos 45% dos brasileiros acima de 16 anos conhecem alguma mulher que já tenha interrompido a gravidez.

Futuro

Depois de Rebeca ter mostrado seu rosto e dado voz à luta pela descriminalização do aborto, uma rede de ativistas se juntou para lançar uma campanha por um emprego para ela. “Rebeca Mendes foi a primeira mulher a pedir ao STF o direito a um aborto seguro. Em fevereiro de 2018, ela será uma mulher desempregada com dois filhos para sustentar e uma faculdade de direito por terminar – e nós sabemos que a exposição do seu caso pode gerar grande discriminação no mercado de trabalho.”

Assista ao vídeo:

Foto: Anis – Instituto Bioética

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