O império quer retomar o “quintal” latino-americano

Ao condenar o sequestro de Maduro e a invasão da Venezuela, Lula desafia Washington, expõe ruína do direito internacional e convoca continente a resistir à nova era da pilhagem

Por: Gustavo Tapioca, em Fórum

O editorial assinado por Lula no New York Times é um documento político de ruptura. Ao denunciar a operação militar dos EUA na Venezuela e o sequestro de Nicolás Maduro, o presidente do Brasil diz em voz alta o que as elites submissas escondem há décadas: a América Latina voltou a ser tratada como colônia — e o império não pretende mais disfarçar.

O que Lula escreveu no coração do império: “Este hemisfério pertence a todos”

Não é apenas um artigo. É uma advertência.

Quando Lula afirma que “este hemisfério pertence a todos”, ele está enterrando, diante do planeta, a mentira histórica que sustentou golpes, ditaduras e tutelas na região: a ideia de que o continente tem dono — e que Washington decide quem governa, quem cai, quem vive, quem apodrece sob sanções.

A frase é simples, mas a implicação é explosiva: acabou o tempo do quintal. E, se não acabou, precisa acabar — ou a América Latina aceitará viver eternamente sob ameaça.

Venezuela: a normalização do crime geopolítico

A captura de Maduro em território venezuelano não é “um caso”. É um recado.

Se uma potência pode invadir um país e capturar seu presidente, o mundo entra numa nova fase: a fase em que o direito internacional vira papel molhado e a soberania vira piada.

O que Lula denuncia é a naturalização do inaceitável: transformar um crime geopolítico em notícia rotineira; reduzir um ataque à soberania de um país a “operação de segurança”; vender intervenção como “democracia”. É assim que se reescreve a realidade — e é assim que se fabrica consentimento.

O multilateralismo está sendo destruído — e o alvo é o Sul Global

O texto de Lula não é apenas sobre a Venezuela. É sobre a arquitetura do mundo.

O presidente brasileiro aponta que o sistema construído no pós-guerra está sendo demolido por aqueles que mais se beneficiaram dele. Quando regras atrapalham o saque, mudam-se as regras. Quando o multilateralismo dificulta a pilhagem, destrói-se o multilateralismo.

E, nesse cenário, a América Latina volta ao lugar de sempre: fornecedora de recursos, receptora de ameaças, alvo de operações e laboratório de controle político.

Não há “segurança” quando a verdadeira agenda é pilhagem

Toda intervenção vem com um nome bonito: “estabilidade”, “segurança”, “liberdade”.

Mas a história do continente não deixa dúvida: quando o império aciona a máquina, o objetivo real quase nunca é democracia. É comando.

E comando, aqui, significa o de sempre: controle sobre recursos estratégicos, disciplinamento de governos que ousam divergir, imposição de alinhamento automático e abertura forçada de economias ao capital internacional.

O que Lula faz é recolocar o termo correto em circulação: imperialismo — agora sem máscara, sem delicadeza e sem diplomacia ornamental.

“Pertence a todos” é uma mensagem também para o Brasil

Há um motivo pelo qual Lula levou esse texto ao New York Times: o Brasil é grande demais para fingir neutralidade quando o continente volta a ser caçado.

Se a região vira campo de operações, o Brasil vira alvo estratégico. Porque nenhum projeto soberano resiste à lógica colonial de tutela. A soberania brasileira não é só um discurso: é uma disputa concreta.

E essa disputa tem inimigos internos, que já conhecemos: o entreguismo travestido de “pragmatismo”, a elite que aplaude sanções porque não paga a conta e a extrema direita que sonha com tutela externa para voltar ao poder.

A extrema direita latino-americana é a tropa local do império

Lula escreve sobre soberania, mas a sombra é maior: a América Latina está cercada por governos e forças políticas que funcionam como braço local da agenda imperial.

São projetos diferentes na estética, mas idênticos no método: guerra cultural permanente, destruição do Estado social, culto à violência e ao inimigo interno, submissão econômica e ódio a qualquer forma de soberania popular.

É o roteiro do trumpismo exportado: um consórcio continental de autoritarismo e mercado, com verniz eleitoral e essência de choque.

Quando a força substitui a lei, a democracia vira refém

O editorial de Lula é um alerta democrático disfarçado de política externa.

Porque onde a força manda, a democracia é provisória.

Quando chefes de Estado viram “alvos”, quando países viram “casos”, quando a soberania vira “obstáculo”, o voto perde valor. O povo escolhe, mas o império decide se aceita.

O continente já viu esse filme — e conhece o final: governos derrubados, líderes neutralizados, sociedades dilaceradas e décadas de atraso vendidas como “modernização”.

A integração regional não é utopia: é autodefesa

O texto de Lula também é uma convocação prática: ou a região se une, ou será esmagada separadamente.

País isolado é presa fácil. Economia isolada é chantagem pronta. Diplomacia isolada é rendição.

Integrar-se não é “romantismo”: é autodefesa. É impedir que cada crise vire pretexto para tutela. É impedir que a América Latina seja reduzida a uma sucessão de protetorados informais.

 A disputa de 2026 é soberania ou recolonização?

O texto de Lula no New York Times não é diplomacia: é trincheira. A captura de Maduro e a operação na Venezuela não são “excessos” — são teste de força, laboratório de tutela e aviso ao continente inteiro.

E o Brasil não está fora desse mapa: está no centro dele. A dez meses das eleições presidenciais, a disputa real é entre dois projetos inconciliáveis: o da soberania popular e do desenvolvimento — ou o do alinhamento colonial, do autoritarismo e da extrema direita associada ao trumpismo.

O que está em jogo não é apenas um governo. É o direito do país existir como nação.

Lula e Donald Trump, em Kuala Lumpur, na Malásia. Foto: Ricardo Stuckert /PR

Deixe um comentário

O comentário deve ter seu nome e sobrenome. O e-mail é necessário, mas não será publicado.

um × 4 =