Resistir e reorganizar

Boletim Venezuela em Foco #13

Da Página do MST

A resposta política ao sequestro de Nicolás Maduro e de Cilia Flores segue ganhando corpo dentro e fora da Venezuela. Ao anunciar a mobilização nacional para 23 de janeiro, em Caracas, com um chamado direto pela libertação e retorno do presidente e da primeira-dama, o ministro do Interior Diosdado Cabello reafirma que a Revolução Bolivariana permanece ativa e que a pressão popular segue como eixo central da resistência diante da ofensiva externa.

A mobilização interna mais uma vez se conecta a iniciativas no plano internacional. O Prêmio Nobel da Paz Adolfo Pérez Esquivel enviou carta formal à Organização das Nações Unidas solicitando a criação de uma comissão especial para verificar as condições de vida e o tratamento dispensado a Maduro e Cilia Flores. O pedido reforça a dimensão humanitária e jurídica do caso, ampliando o debate para além da disputa política e diplomática.

No interior do Estado venezuelano, o governo encarregado busca consolidar uma linha de continuidade institucional. O ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, voltou a afirmar que, diante da ameaça militar persistente, a Venezuela deve seguir seu próprio caminho, com a Força Armada Nacional Bolivariana comprometida com a garantia da paz social e da estabilidade.

A declaração ocorre enquanto seguem as investigações sobre os bombardeios dos Estados Unidos, que deixaram pessoas desaparecidas e corpos fragmentados, aprofundando o impacto humano da agressão. Os efeitos da ofensiva também atingem a população civil mais vulnerável. Em La Guaira, uma das regiões mais impactadas pelos bombardeios, crianças e adolescentes da rede escolar passaram a receber apoio psicológico e emocional após relatarem episódios de pânico, medo intenso e trauma provocados pelas explosões.

Nesse contexto, Delcy Rodríguez tem promovido uma reforma administrativa no governo, com fusões de pastas, mudanças de chefias e deslocamentos internos. A reorganização é apresentada como uma resposta prática ao novo cenário político, buscando agilidade na gestão e maior capacidade de coordenação diante do cerco externo e das pressões internas.

No campo econômico, o petróleo segue no centro das disputas. O governo venezuelano anunciou o repasse de US$ 300 milhões provenientes da venda de petróleo aos Estados Unidos, o primeiro desde que Washington passou a controlar a comercialização da commodity. Segundo Delcy Rodríguez, os recursos serão utilizados para estabilizar o mercado cambial do país, em um movimento que combina negociação pontual com a tentativa de reduzir vulnerabilidades internas.

Paralelamente, o presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, defendeu a reforma parcial da Lei Orgânica de Hidrocarburos como um pilar estratégico para garantir o crescimento econômico, fortalecer a capacidade produtiva e blindar a soberania energética da Venezuela. A iniciativa busca criar um marco legal mais funcional em meio a um ambiente de bloqueios, sanções e interferências externas constantes.

Por outro lado, a pressão dos Estados Unidos não dá sinais de recuo. Washington apoderou-se do sétimo navio petroleiro ligado à Venezuela desde o início da ofensiva, desta vez localizado nas águas proximidades da costa venezuelana, no marco da operação denominada “Lança do Sul”. A apreensão reforça a estratégia de estrangulamento logístico e comercial, mesmo enquanto se mantêm canais seletivos de negociação.

O cenário internacional segue marcado por fissuras e realinhamentos. Em meio às disputas geopolíticas envolvendo a Groenlândia, a Noruega anunciou que não participará de um chamado “Conselho de Paz” para Gaza liderado por Donald Trump, sinalizando desconfiança em relação às iniciativas diplomáticas conduzidas por Washington e à lógica unilateral que as acompanha.

No tabuleiro mais amplo, o Irã advertiu que responderá “com toda a força” caso volte a ser agredido, reafirmando que defende a paz, mas não aceitará novas ações militares. A declaração ecoa um clima global de tensão crescente, no qual a força volta a se impor como linguagem recorrente nas relações internacionais.

Estratégia dos Estados Unidos ataca soberania para apropriar-se das reservas de petróleo venezuelanas. Foto: Reprodução

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