Eleições: A direita sem candidato dos sonhos. Por Rômulo Paes de Sousa

O bolsonarismo quer, a todo custo, que Flávio esteja na urna. E o recuo de Tarcísio revela a dependência da direita ao ex-presidente. Farialimers, pastores, jornalões e Centrão reféns de uma agenda que exige a infame anistia aos golpistas

Em Outras Palavras

A melhora dos resultados do senador Flávio Bolsonaro nas pesquisas de intenção de voto selou, na prática, o enterro da última quimera daqueles que apostavam em Tarcísio de Freitas como único representante do direitismo na disputa presidencial. Farialimers, pastores influentes, grandes jornais, partidos do Centrão e até a ex-primeira-dama defendiam que o governador de São Paulo liderasse uma ampla frente de direita, empurrando a disputa para o posto de vice na chapa. Enquanto setores do mercado prefeririam outro governador nessa composição, Michelle Bolsonaro e parte expressiva de lideranças evangélicas insistem no seu nome para a vaga.

O hesitante Flávio Bolsonaro parece não ter mais saída. O menos combativo da prole masculina do ex-presidente dificilmente escapará da disputa pelo cargo mais importante do país. Há razões claras para isso. Primeiro, o presidente Lula surge, neste momento, como favorito. O cargo, o recall, a conjuntura econômica e o cenário internacional lhe são amplamente favoráveis. Qualquer candidato da direita que se disponha a enfrentá-lo terá de superar esse conjunto expressivo de vantagens — algo que desestimula Tarcísio, mais confortável em uma tentativa de reeleição ao governo paulista.

Segundo, pesa a dependência estrutural da direita em relação ao ex-presidente Jair Bolsonaro. O próprio governador de São Paulo foi obrigado a recuar em seu ensaio de alforria política do ex-presidente. Mesmo para buscar a reeleição, precisará do seu apoio. O fantasma da ingratidão de João Doria ainda ronda o campo. Um movimento mal calculado fez com que terminasse o ano de 2022 sem mandato, sem votos e sem futuro político.

Terceiro, tanto para o PL quanto para Jair Bolsonaro é estratégico que o sobrenome Bolsonaro esteja presente na urna eletrônica. Para o partido, a associação com o primeiro nome da sequência de votação impulsiona candidaturas proporcionais e majoritárias. Para o ex-presidente, garante que alguém de extrema confiança, o que não parece ser o caso de sua esposa, mantenha sob controle seu expressivo espólio eleitoral.

A força eleitoral de Jair Bolsonaro é tão decisiva para o direitismo brasileiro que qualquer representante seu ficará refém da única agenda capaz de garantir mobilização: anistia e libertação do ex-presidente. Fora isso, o direitismo mais vocal desperdiça seu palanque eletrônico cotidiano com frivolidades, ora atacando as sandálias Havaianas, ora desdenhando do sucesso de O Agente Secreto. A lendária “perna cabeluda” do Recife dos anos 1970 era muito mais empolgante. Enquanto isso, Lula segue exibindo realizações de governo e consolidando sua imagem de estadista global.

Os governadores de direita com menor apelo eleitoral (Ratinho Jr., Caiado e Zema) que não conseguirem espaço como vice na chapa principal, tendem a ocupar posições marginais na corrida presidencial. O exemplo de 2018 é eloquente: Henrique Meirelles, então no MDB, com maior conteúdo programático e recall superior ao desses governadores, obteve apenas 1,2% dos votos válidos, rivalizando com candidatos de partidos inexpressivos.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, repete o roteiro encenado pelo pai em 2018: batismo nas águas do Rio Jordão, visitas entusiasmadas a igrejas evangélicas, aproximação mais contida com empresários, a busca por um “posto Ipiranga” próprio e o esforço de adotar uma gramática mais agressiva, à imagem do velho capitão.

Ainda pairam ameaças de neutralidade por parte do Centrão e de figurões do mercado. No entanto, quem conhece o jogo sabe que a preservação de um forte apelo eleitoral tende a dissolver resistências, reeditando o embate já conhecido. Flávio Bolsonaro não é o candidato dos sonhos do direitismo brasileiro, assim como seu pai também não foi. Ainda assim, não é preciso grande competência oracular para prever que marcharão com ele contra Lula, contra a esquerda e, como de costume, contra o bom senso.

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