O feminicídio é a expressão mais extrema do machismo estrutural que organiza a sociedade brasileira. Ele nasce da desigualdade nas relações de poder, da cultura da posse, da naturalização da violência doméstica e do silenciamento das mulheres
No Le Monde Diplomatique Brasil
O ano de 2025 entrou para a história como um dos mais violentos para as mulheres brasileiras. Não por acaso ou por fatalidade, mas como resultado direto de uma estrutura social que ainda naturaliza a desigualdade de gênero, a violência doméstica e o controle sobre os corpos e as vidas das mulheres. Os dados oficiais escancaram essa realidade e exigem que o país encare o problema com seriedade, compromisso político e ação concreta.
Em 2025, quatro mulheres foram assassinadas por dia no Brasil. Ao todo, 1.470 mulheres foram mortas pelo simples fato de serem mulheres, o maior número já registrado desde que o feminicídio passou a ser tipificado como crime. Em uma década, o aumento foi de 316%. Esses números não representam casos isolados, nem tragédias individuais desconectadas entre si. Eles fazem parte de uma engrenagem estrutural sustentada pela desigualdade de gênero, pela ausência de políticas públicas eficazes e por uma cultura que ainda tolera a violência contra as mulheres. Não podemos naturalizar o que é insustentável.
O início de 2026, infelizmente, não trouxe sinais de ruptura com esse ciclo. Já em janeiro, novos casos de feminicídio foram registrados em diferentes regiões do país, indicando que a violência segue ativa, cotidiana e letal. Enquanto outros indicadores de criminalidade apresentam oscilações, a violência de gênero mantém um padrão alarmante de permanência e crescimento, revelando que o problema é profundo e estrutural.
O feminicídio é a expressão mais extrema do machismo estrutural que organiza a sociedade brasileira. Ele nasce da desigualdade nas relações de poder, da cultura da posse, da naturalização da violência doméstica e do silenciamento das mulheres. Antes do assassinato, quase sempre há um histórico de agressões, ameaças, controle psicológico e omissão do Estado. Quando o poder público falha em proteger, a violência escala – e mata.
Esse cenário é ainda mais cruel para mulheres negras, periféricas, indígenas, trans e pobres, que enfrentam múltiplas camadas de violência e exclusão. A combinação entre racismo, desigualdade social e machismo amplia vulnerabilidades e reduz o acesso a redes de proteção, justiça e políticas de prevenção.
O enfrentamento ao feminicídio não se resume ao endurecimento das penas. Ele exige investimento contínuo em políticas públicas de prevenção, educação para a igualdade de gênero, autonomia econômica das mulheres, fortalecimento da rede de proteção, casas-abrigo, atendimento humanizado e acesso real à justiça. Exige, sobretudo, vontade política para enfrentar estruturas históricas de desigualdade.
O Brasil não pode aceitar que matar mulheres seja tratado como rotina estatística. Cada feminicídio é uma falha coletiva, um sinal de que o Estado não chegou a tempo, de que a sociedade silenciou, de que a violência foi tolerada por tempo demais. Romper com esse ciclo é urgente. Defender a vida das mulheres é defender a democracia, os direitos humanos e a justiça social.
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Foto: Pixabay
Talíria Petrone é deputada federal (PSOL-RJ).
