O ataque brutal ao cachorro Orelha não surge como aberração: é a culminância de um processo pedagógico silencioso em que o jovem aprende que há seres cuja função social é ser ridicularizado, espancado, descartado…
Verbena Córdula, Diálogos do Sul Global
A impunidade não nasce no tribunal. Ela é ensaiada no jantar de família — muito antes do crime, do boletim de ocorrência ou da perícia. Começa quando pais e responsáveis ensinam, cotidianamente, que regras são negociáveis quando se tem poder suficiente para dobrá-las. Por exemplo, pressionar professores para aprovar um filho despreparado é uma aula prática sobre como instituições funcionam para quem sabe exigir, ameaçar ou constranger. É nesse aprendizado precoce que se forma o sujeito que, mais tarde, não vê problema em humilhar, torturar ou matar. O que aconteceu com o cachorro Orelha é a continuação lógica dessa pedagogia da impunidade, a partir da qual a violência extrema surge como desdobramento natural de anos de permissividade e limites sistematicamente destruídos no espaço doméstico.
Cada vez que um adulto ensina a uma criança a driblar consequências, planta-se a semente da autorização moral. O recado é que errar não é o problema; o problema é ser responsabilizado. A escola, que deveria ser espaço de limite e formação ética, muitas vezes também transforma-se em campo de treino para a impunidade. Aprende-se cedo que a autoridade pode ser intimidada, que normas podem ser relativizadas, que a culpa pode ser transferida.
O mesmo mecanismo opera quando o bullying é minimizado. “É brincadeira”, “isso fortalece”, “todo mundo passa por isso”. Ao normalizar a humilhação, a família ensina que a dor do outro é irrelevante quando não coincide com a própria. Ensina que há sujeitos destinados a suportar violência para que outros se afirmem. O agressor é protegido; a vítima, silenciada. Esse pacto se estabelece ali, na sala de estar, muito antes de chegar à rua. Pequenas violências cotidianas não desaparecem com o tempo — pelo contrário, elas escalam. O que começa como intimidação verbal, desprezo e humilhação simbólica pode (sem qualquer ruptura ética no percurso) converter-se em agressão física, tortura e morte. Não há salto moral entre rir do sofrimento alheio e produzi-lo ativamente quando o sistema inteiro sinaliza que nada de grave acontecerá.
“Meu filho acima de tudo, o resto que se ajuste”
Quando famílias acionam advogados para contestar advertências escolares, quando transformam qualquer limite em perseguição, quando ensinam seus filhos a jamais admitir culpa, estão formando sujeitos incapazes de reconhecer o outro como portador de dignidade. Ensina-se, nesses gestos, que toda autoridade é ilegítima quando contraria interesses privados, e que toda responsabilidade pode ser terceirizada, negociada ou anulada. O mundo passa a ser dividido entre “quem manda” e “quem suporta”, entre “quem pode tudo” e “quem deve aceitar”. Essa divisão — aprendida cedo e reiterada cotidianamente — é a base simbólica da violência extrema. Nela, o outro deixa de ser um semelhante e passa a ocupar o lugar do obstáculo, do objeto ou do corpo disponível à agressão.
O ataque brutal ao cachorro Orelha não surge, portanto, como aberração. Ele é a culminância de um processo pedagógico silencioso, um processo em que o jovem aprende que há seres cuja função social é ser ridicularizado, ser espancado, ser descartado. A animalização da vítima não acontece apenas no ato final; ela é construída discursivamente ao longo dos anos — com piadas, com desdém, com a constante desumanização do mais fraco. E a família, nesse contexto, deixa de ser apenas núcleo afetivo e passa a operar como uma célula política da impunidade. Não porque todos desejem (conscientemente) a violência, mas porque muitos desejam (acima de tudo) proteger seus próprios — mesmo que isso custe a erosão completa da noção de responsabilidade coletiva. Cria-se uma ética privatizada, resumida da seguinte forma: “meu filho acima de tudo, o resto que se ajuste”.
Quando esse jovem encontra um sistema de justiça que replica a mesma lógica — relativizando, adiando, atenuando —, o círculo se fecha. O Estado apenas ratifica aquilo que já foi aprendido no lar: que consequências são sempre para os outros. Foi assim no assassinato do indígena Galdino Jesus dos Santos, líder do povo Pataxó Hã-Hã-Hãe, (queimado vivo) enquanto dormia em uma parada de ônibus, em 1997. O crime foi tratado inicialmente como “brincadeira” por seus algozes — e como excesso juvenil por parte da sociedade que se apressou em compreender os agressores antes mesmo de reconhecer a vítima.
A comparação entre o assassinato do indígena Galdino e o do cachorro Orelha é estrutural, porque em ambos os casos, a violência extrema foi praticada por jovens que não agiram movidos por necessidade, por desespero ou por sobrevivência, mas pela convicção íntima de que podiam fazê-lo. Galdino foi queimado vivo enquanto dormia, transformado em alvo de uma “brincadeira” que só pôde ser concebida porque sua vida indígena já era, aos olhos de seus algozes, uma vida diminuída. O cachorro Orelha ocupa lugar semelhante nessa hierarquia perversa — o de uma existência considerada disponível à crueldade, incapaz de mobilizar, de imediato, a mesma resposta moral e institucional que outras mortes mobilizariam.
Mesmo mecanismo de desumanização
Nos dois casos, a reação social inicial revelou mais sobre quem mata do que sobre quem morre. Houve pressa em explicar os agressores, em contextualizar seus futuros, em atenuar a brutalidade com discursos sobre juventude, imaturidade e erro. A vítima, novamente, foi empurrada para a margem. É assim que a impunidade se reproduz. O que une Galdino e o cachorro Orelha é o mesmo mecanismo de desumanização e de privilégio, no qual certas pessoas aprendem que podem exercer violência letal porque o Estado, a sociedade e a classe a que pertencem tendem a compreendê-las antes de condená-las. A diferença entre os casos não está na lógica — está apenas no grau de escândalo que cada morte conseguiu produzir.
A vida daquele animal indefeso foi ceifada no ponto extremo dessa cadeia. Mas, como vimos, a violência começou muito antes, em gestos socialmente aceitos, em práticas normalizadas, em discursos aparentemente banais. A sociedade prefere enxergar o ato final porque choca. E recusa-se a encarar o processo — porque ele a compromete. E enquanto seguirmos tratando esses comportamentos como “excessos” isolados, continuaremos produzindo sujeitos treinados para o abuso (e blindados contra a culpa). A impunidade é um aprendizado contínuo. O ataque ao cachorro Orelha foi apenas a sua forma mais explícita.
Memória
Escrevo este texto com o coração apertado, com lágrimas nos olhos, porque não consigo evitar me lembrar de Sofia, minha cadelinha resgatada em 2011 de um canil horrendo mantido pela própria Prefeitura, em Ilhéus, aqui no Sul da Bahia, onde vivia em condições degradantes. Sofia (carinhosamente chamada de Sofi) nos deu 14 anos de amor incondicional, carinho sem limites e uma presença que transformou nossa casa e nossas vidas. Há seis meses ela nos deixou, abrindo um vácuo imenso que nenhuma companhia conseguiu preencher. Este texto — embora trate da brutalidade contra o cachorro Orelha (e da violência estrutural da sociedade) — é também uma homenagem a ela, a quem sempre valorizei como ser vivo digno de respeito, de cuidado e de amor.
Assim como acontece com seres humanos, a sociedade também reproduz seus preconceitos nos animais. Animais pretos, por exemplo, como Sofi, são os últimos a serem adotados, muitas vezes deixados de lado ou descartados em abrigos, condenados a viver em condições precárias simplesmente por sua cor. Essa mesma lógica se reflete nas crianças negras — invisibilizadas, subestimadas, frequentemente privadas de oportunidades desde cedo, ensinadas a ocupar um lugar subordinado na hierarquia social. A discriminação, portanto, é ensinada, é reforçada e é naturalizada ao longo de gerações, se manifestando tanto na forma como tratamos os outros humanos, como também na forma como tratamos os demais seres vivos.
O desprezo pela vida negra (e pelo corpo animalizado) funciona segundo os mesmos princípios de exclusão e de poder. Existem aqueles cujas vidas valem, cujas dores mobilizam empatia e ação. E existem aqueles que podem ser ignorados, violentados ou eliminados sem que isso provoque ruído institucional significativo. O cachorro Orelha, na sua inocência e vulnerabilidade, foi tratado como descartável. Sofia, minha cadelinha resgatada, escapou dessa lógica — mas sua história também denuncia o quanto o amor e o cuidado precisam ser conscientes, ativos, contra a corrente da indiferença que permeia a sociedade.
A hierarquia de valor atribuída às vidas — humanas ou não humanas — é o terreno fértil para a violência extrema. Ela é ensinada em casa, reforçada nas instituições, ratificada pelo Estado. Cada ato de negligência, cada discriminação sutil ou ostensiva, contribui de modo substancial para a construção de uma sociedade que aceita que alguns sofram, que alguns morram, que alguns corpos sejam apenas objetos de poder. E, quando a vida é desvalorizada desde cedo — seja por cor, espécie ou condição social —, surgem os indivíduos capazes de reproduzir a barbárie sem sentir culpa ou empatia.
*Verbena Córdula Graduada em História, Doutora em História e Comunicação no Mundo Contemporânea pela Universidad Complutense de Madrid e Professora Titular da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), Ilhéus, BA.
