“Nossa selva era o concreto”. Entrevista com Lucía Topolansky

“Antes de morrer, Pepe nos pediu para poder ficar em casa, para morrer sem dor e para espalhar suas cinzas sob uma sequoia perto de nossa casa. Depositamos suas cinzas lá. As pessoas vêm, sentam e fazem reflexão. E nós deixamos todos entrarem, para que sintam que esse lugar pertence a todos.”

Por Andrea Cegna, do il manifesto, no IHU / tradução de Luisa Rabolini.

Você e Pepe compartilharam uma vida. Quais escolhas políticas melhor descrevem a trajetória de sua vida?

O Uruguai é um país pequeno que, em certo momento, começou a viver uma deterioração econômica progressiva, em parte devido à sua forte dependência do exterior e dos preços internacionais de referência. Esse processo teve início no final da Guerra da Coreia, portanto, no final da década de 1950. Até então, havia se desenvolvido um modelo baseado na indústria de substituição das importações e em um nível de bem-estar relativamente alto em comparação com o restante da América Latina. Mas aquele modelo rapidamente começou a entrar em crise. Isso gerou um clima de crescente conflito social. O impacto da Revolução Cubana na América Latina também se encaixa nesse mesmo contexto. O continente vinha de um longo histórico de ditaduras espalhadas na maioria dos países. O processo cubano indicou um caminho — que foi chamado de “via armada” — para alcançar mais rapidamente as mudanças consideradas necessárias para o progresso dos povos. Iniciou-se então um grande debate dentro da esquerda latino-americana: qual caminho seguir, o eleitoral ou o armado? A América Latina tentou ambos os caminhos, insistiu em ambos e, em ambos os casos, terminou sendo derrotada, porque nosso vizinho do norte promoveu golpes de Estado em todos os países, levando ao fim das democracias.

É nesse contexto que nasce a luta do Movimento de Libertação Nacional, ao qual pertencemos. Esse movimento visava precisamente a libertação nacional. Essa foi a causa original. Fomos derrotados, passamos muitos anos na prisão e, após esse processo, entramos na política institucional, na política legal, porque antes estávamos fora do sistema. Fizemos isso com as cartas na mesa, sem atalhos, diretamente. Foi nesse momento que nos unimos a uma coalizão da qual já participávamos por meio de outros companheiros: a Frente Ampla. Nesse caminho, começamos a aumentar nossa presença política, e dentro desse contexto, Pepe foi eleito Presidente da República.

Quando vocês começaram a ter contato com Fidel Castro e os outros líderes da revolução cubana? Depois de sua libertação da prisão ou já durante a fase clandestina?

Os cubanos nunca concordaram com a nossa forma de luta armada, que era urbana. Em nosso país, o território é suavemente ondulado: não há montanhas nem grandes acidentes geográficos. Nós dizíamos: qual é a nossa selva? A nossa selva é o concreto das cidades. Mas os cubanos tiveram, em seu processo, experiências muito negativas com a luta armada urbana e, portanto, sempre se opuseram a ela. Tanto que, em 1963, no Uruguai, no balneário de Punta del Este, foi realizada uma conferência da Organização dos Estados Americanos (OEA), da qual Ernesto Che Guevara participou como delegado cubano. Depois da conferência, Guevara foi a Montevidéu e proferiu um discurso emblemático no auditório magno da Universidade da República. Ele foi apresentado por Salvador Allende, que mais tarde se tornaria presidente do Chile por meio eleitoral, antes de ser derrubado por um golpe promovido do exterior. Naquela conferência, Guevara disse que se opunha completamente à luta armada urbana no Uruguai. Nesse ponto, portanto, não estávamos de acordo com os cubanos. Mais tarde, quando a nossa realidade se tornou um fato concreto, os cubanos a aceitaram, e houve até contatos. Alguns de nossos líderes participaram das conferências da OLAS, um órgão de coordenação continental, e houve até exilados em Cuba, embora a maioria dos nossos exilados estivesse em outros lugares.

Até que ponto foi importante — e difícil — depois da derrota e da prisão, aceitar que um dos possíveis caminhos para a mudança era aquele eleitoral?

Não foi simples, e nem todas as pessoas no Movimento de Libertação fizeram a mesma escolha que nós. Essa luta havia contado com algum apoio da população, como também mostravam as pesquisas da época, especialmente após as denúncias de corrupção na política uruguaia e de desigualdades muito dolorosas, particularmente entre alguns trabalhadores rurais. Além disso, essa experiência introduziu novas questões no debate político. Mas nós sofremos uma derrota militar. Tínhamos um número enorme de prisioneiros. Um grupo de companheiros e companheiras foi feito refém pela ditadura: ou seja, foi retirado do sistema comum dos prisioneiros políticos e mantido nos quartéis militares, em condições duríssimas. Houve mortes e desaparecimentos, embora a maioria dos uruguaios desaparecidos estivesse na Argentina, porque o Plano Condor operava nos países do Cone Sul, coordenando as ditaduras da Argentina, Uruguai, Brasil, Paraguai e Chile, trocando pessoas, informações e tudo o mais. Também tivemos muitos exilados. Foi importante para o fim dessa fase no continente o papel de Jimmy Carter, cuja presidência começou a retirar o apoio às ditaduras latino-americanas. As ditaduras então começaram a buscar saídas, que variaram de país para país. No Uruguai, houve uma longa negociação. Hoje, temos mais de quarenta anos consecutivos de democracia após o fim da ditadura.

Optamos por lutar dentro na legalidade e recomeçar do zero. Precisávamos reconstruir a relação com o nosso povo, porque depois de doze, quase treze anos de prisão, o mundo e o nosso país haviam mudado. Então, decidimos sair para as ruas, para as praças, falar com as pessoas com um microfone aberto. Chamávamos essas iniciativas de “mateadas“, porque o mate é a nossa bebida nacional, uma tradição guarani, e é compartilhado em roda. Compartilhávamos o mate enquanto conversávamos com um microfone aberto. As pessoas acharam muito interessante poder dialogar dessa forma e ter a possibilidade de se expressar, porque o Uruguai é um país altamente politizado. Assim, começamos a receber apoio, nos juntamos à Frente Ampla e participamos das eleições. Os companheiros decidiram que nosso primeiro representante seria Pepe, junto com outro companheiro, Fernández Huidobro, que também já faleceu. Ambos foram eleitos deputados.

Depois de tudo isso, Pepe chegou à presidência e construiu um discurso de paz e rejeição ao ódio. Por quê?

Porque não se pode olhar para o passado permanecendo prisioneiro do ódio. Amor e ódio são duas forças cegas: o amor constrói, o ódio destrói. Nós escolhemos o amor e decidimos construir. As pessoas entenderam. E isso gerou a grande popularidade que Pepe ainda mantém hoje, quase um ano após sua morte. Nós morávamos na zona rural ao redor da capital, uma zona habitada por pessoas simples que cultivam frutas e verduras, que criam pequenos animais e produzem tudo o que chega às mesas das famílias todos os dias. Chegamos aqui há quarenta anos e começamos a cultivar flores. No início, éramos “sapos de otro pozo“, ou seja, forasteiros, porque era um bairro bastante conservador. Depois, quando viram que Pepe se tornou deputado e não foi embora, ficaram satisfeitos: nunca tinha havido um deputado ali, e aqueles que chegavam a um cargo geralmente iam embora. Depois, ele se tornou senador e ficou. Depois, ministro e ficou. E quando se tornou presidente e ficou, foi uma grande alegria para eles. Nossa casa sempre teve as portas abertas. Os vizinhos podiam vir a qualquer hora. Para eles, isso representava a essência da república, e nós queríamos transmitir justamente esse sinal. Acredito que conseguimos.

Na América Latina, os líderes muitas vezes não deixam espaço. Mujica, por outro lado, trabalhou pela troca.

A legislação uruguaia não permite a reeleição imediata do presidente: ele pode ser reeleito, mas somente após pular um período de mandato. Pepe, no entanto, também defendia um princípio mais geral: o melhor líder não é aquele que brilha individualmente, mas aquele que deixa atrás de si um grupo de companheiros capazes de substituí-lo nas melhores condições. A política é sempre coletiva. Não existem pessoas com uma varinha mágica capazes de fazer tudo sozinhas. Se um deserto cresce sob um líder, quando esse líder desaparece, não sobra nada. Vimos isso muitas vezes na história da América Latina. As pessoas passam, mas as causas ficam. E alguém precisa continuar a levá-las adiante, porque não se concretizam no curto prazo: exigem tempo, gerações. A próxima geração precisa estar preparada, caso contrário o processo se interrompe.

O que Pepe pensava dos movimentos do novo século, como os Sem Terra?

Tínhamos — e ainda temos — uma relação muito próxima com o Movimento dos Sem Terra no Brasil. O Brasil é um país vizinho e nós, sendo pequenos e localizados entre dois grandes países como o Brasil e a Argentina, devemos sempre manter boas relações com nossos vizinhos. Aqui dizemos que, quando o Brasil ou a Argentina se resfriam, nós pegamos gripe. O Movimento dos Sem Terra busca oferecer a quem o deseja a oportunidade de trabalhar a terra produtivamente; capacita as pessoas e hoje alcançou um nível de produtividade muito alto. É um exemplo importante no Brasil. No Uruguai, temos algo semelhante com o Instituto Nacional de Colonização. Outro exemplo importante para nós foi o neozapatismo. Foi muito marcante e o acompanhamos atentamente. Deu origem a muitas perguntas, mas nunca chegamos a estabelecer relações diretas.

O que resta de Pepe hoje?

Hoje, quase um ano após a morte de Pepe, é inacreditável como ele ainda está presente entre as pessoas. Elas o amavam porque ele falava de forma simples, porque se fazia entender e porque era próximo delas. Agora estamos trabalhando com os companheiros para reunir tudo o que ele escreveu, os materiais autênticos, porque hoje, com a inteligência artificial, muitas falsidades estão circulando. Estamos construindo um espaço da memória, um lugar onde as pessoas possam ir para pensar e refletir. Encontramos muitas anotações escritas por ele, inclusive sobre questões atuais: por exemplo, ele teve uma intuição sobre o que significaria um segundo mandato de Trump. Organizaremos todo esse material por temas — jovens, agricultura, integração latino-americana, visão de mundo — porque muitas universidades e instituições o solicitaram. Queremos difundir seu pensamento, porque é isso que realmente permanece. Antes de morrer, Pepe nos pediu para poder ficar em casa, para morrer sem dor e para espalhar suas cinzas sob uma sequoia perto de nossa casa. Depositamos suas cinzas lá. As pessoas vêm, sentam e fazem reflexão. E nós deixamos todos entrarem, para que sintam que esse lugar pertence a todos.

Pode existir um futuro sem capitalismo?

Esperamos que sim. Mas precisamos ser criativos na construção de alternativas, porque aquelas que foram experimentadas até agora fracassaram.

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